O Rumo Sul
Saindo de Porto Alegre no rumo sudeste 20 milhas adiante chega-se na Lagoa do Patos. Ingressando na Lagoa dos Patos e tomando o rumo sudoeste chegaremos na cidade de Rio Grande, a entrada para o oceano Atlântico.
Um outro rumo que pode ser tomado é ingressar no Canal de São Gonçalo no sul da Lagoa dos Patos e por ele ingressar na Lagoa Mirim. Cruzando a Lagoa Mirim na sua metade sul estão as águas e margens uruguaias. Vale dizer, dá para chegar no Uruguai por águas interiores.
Ilha dos Jangadeiros em Porto Alegre até os morros de Itapoã, porta de entrada da Lagoa dos Patos

Quem pretende fazer um cruzeiro de média distância partindo de Porto Alegre e tomando o rumo sul precisa planejar a viagem. Três capítulos. Primeiro deles: verificar quais os abrigos no caminho e quais locais merecem ser visitados, de preferência coincidentes, ou seja, o próprio abrigo será um local que merece ser conhecido. Para isso, além de ouvir-se a experiência e os relatos publicados de outras pessoas, a indispensável e moderna colaboração do Sr. Google. Sim, não dá para dispensar esse fantástico recurso. Enquanto que as Cartas Marítimas dão uma boa noção dos caminhos por água, o Google fornece informações dos caminhos de terra (das margens). Segundo capítulo: obter todos os waypoints de obstáculos do caminho (pedras, bóias, navios afundados, perigos a navegação, etc) e transpor tudo para o GPS. Terceiro capítulo: relacionar tudo que será levado a bordo.
Rumo Sul. Google Earth, um novo e poderoso Guia de Costas
Destino Itapoã. Uma olhadela no Guaiba:
Acima, o morro da Ponta Grossa em primeiro plano e a cidade de Porto Alegre ao fundo (lado Leste do rio)
Ponta do Salgado em primeiro plano e a cidade aparecendo com o delta do Rio Jacuí bem ao fundo
Lagoa dos Patos em primeiro plano. Morros de Itapoã (reserva ecológica à direita)
A metade Norte da Lagoa dos Patos:
Costa Oeste:
Ilha da Barba Negra
Um bom abrigo para veleiro de pequeno calado
Clube Náutico Tapense. Ao norte do Saco de Tapes
Costa Leste:
A metade Sul da Lagoa dos Patos:
Costa Oeste:
Ponta do Vitoriano
Rio Camaquã. A 2,2 milhas da foz há fios elétricos cruzando o rio (perigo)
Saco do Caipira
Arroio Corrientes
Colônia de Pescadores Z-3
Costa Leste:
Lagoa Dôce
Canal dos Gordos
Rumo Sul - Abastecendo o GPS com waypoints
Quem parte para em um cruzeiro de média distância no rumo sul deve, antes, tratar de abastecer o GPS com os principais waypointes.
No ano de 2007, Paulo Angonese, Jarbas "professor" Araujo, Lorenzo "astronauta" Cuadros, Comandante Capitão Robinson Gehrke e Cézar "doutor" Graff andaram velejando no Rumo Sul. Resultado foi a bela página http://velejandonamirim.webs.com/ Na página http://velejandonamirim.webs.com/navegao.htm , Angonese nos apresenta o caminho da roça, fornecendo os principais waypoints do percurso. O resultado final Angonese disponibiliza na página sailing_rg_modif.gtm . Atenção a advertência de Angonese: "Cuidado! quando baixei tudo para meu Garmin MAP 76 (waypoints, tracks e rotas) alguns waypoints trocaram de posição ?!?!?!?!?! Quando carreguei apenas os waypoints tudo ficou certo. O mesmo aconteceu com o GPS de outro amigo."
Os principais waypoints em uma navegação são aqueles que representam obstáculos não visíveis ou pouco visíveis que são capazes de produzir danos ao casco. O principal exemplo disso são pedras submersas ou semi-submersas. Há também os paus, os pedaços de navios que afundaram, os mangrulhos... Bóias, embora visíveis, também são importantes de serem destacadas, mesmo porque pode ser necessário seguir adiante durante a noite. Tenho o costume de velejar a noite no Guaíba. Assim, tenho marcados no mapa todas as bóias do Guaíba, em especial as do canal. Já fui em noite escura e chuvosa de Porto Alegre à Itapoã dentro da cabine só com o GPS e colocando a cabeça para fora de 20 em 20 minutos apenas para ver se observava alguma "luzinha" (de outro veleiro ou de alguma embarcação parada, pois que barcos a motor andando eu escutaria o barulho de dentro da cabine antes de um choque). No Guaíba destaco as pedras submersas a Leste do Canal dos navios nas proximidades do Gigante da Beira Rio, a Pedra da Piava em frente a Sava (não assinalada na Carta Náutica), as pedras Baleias da Ponta Grossa, a Pedra do Chagas em frente à Barra do Ribeiro, a Pedra da Ilhota do Salgado e a Pedra do Soldado na entrada do arroio Araçá, as Pedras de Belém e as Pedras do Arado em frente a Belém Novo, as pedras existentes na Ponta do Arado Velho, a Pedra da Vovó e suas Pedras Netinhas (que - cuidado - não estão assinaladas na Carta Náutica), a Restinga de Pedras e as Baleias do Salgado. Assim enumeradas parecem muitas as pedras no Guaíba, mas considerado o tamanho do rio, não são. As pedras da Piava, a da Vovó e as Netinhas não constam da Carta Náutica. Em parte por relaxamento dos próprios iatistas gaúchos (meu inclusive), pois que poderiam noticiar ao órgão encarregado da confecção da Carta a existência desses obstáculos.
Já na Lagoa dos Patos, considerada sua grande extensão, são poucos os obstáculos submersos ou semi-submersos. Ao que sei não há pedras semi-submersas em toda a sua extensão. Há, sim, alguns navios afundados. Alguns semi-submersos. Esses três um próximo do outro: S30 47.431 W51 09.490; S30 48.770 W51 08.750 e S30 48.920 W51 09.200 e mais dois mais ao Sul, só que esses juntos a bóias visíveis e constantes da Carta Náutica. Há ainda um mangrulho S31 42.350 W51 57.594 e um objeto submerso S31 47.688 W52 11.588 quando da aproximação do Canal de São Gonçalo.
Há ainda os bancos de areia que estão visíveis nas cartas náuticas. Estando o banco a sotavento, só se o navegador tiver absoluta certeza que dá para passar por cima é que deve fazê-lo, pois que extremamente arriscado, em especial na Lagoa dos Patos, ir parar em cima de um banco de areia no meio da lagoa com o vento empurrando o veleiro para cima do banco. Segundo relatos que ouvi de velejadores experientes não se deve confiar muito nos waypoints que indicam as passagens (locais mais fundos) desses bancos, pois que essas passagens, com a correnteza, mudam de local de ano para ano.
No caso de um vendaval, o "sotavento" de um banco de areia é sempre um abrigo das ondas (ondas para se manterem grandes em seu percurso necessitam de uma determinada profundidade mínima. Essa profundidade mínima tem relação com a altura da onda e com a distância entre uma onda e outra. O estudo das ondas constitui um interessante capítulo da Oceonografia.). Os pescadores chamam tais abrigos de "aguadas". É que as ondas ao chegarem no "barlavento" do banco, quebram, perdendo sua força e altura . Pouco sobra de ondulação para o "sotavento" do banco de areia. É uma aguada, local para ancorar e esperar o mau tempo passar ou reduzir sua intensidade.
Implementos, suplementos, alimentos e tudo o mais.
O cara que disse pela primeira vez quem vai ao mar avia-se em terra foi um gênio. Mais da metade do sucesso de uma navegação depende de como se prepara para partir.
Classifiquei o que estou levando em três categorias: o indispensável, o extremamente útil e o útil. O inútil não vou levar, já que o Lumar já vai suficientemente pesado para reduzir em 1 nó a média de sua velocidade (1 nó = 1 milha náutica/hora). Em todo veleiro, mesmo nos maiores, o INÚTIL = MAIS PESO = MENOS VELOCIDADE = MENOS PRAZER E MENOS SEGURANÇA, já que a velocidade, em muitas travessias pode ser fator de segurança. Adiante estou passando minha experiência e também o resultado de minhas leituras. Se em alguma passagem, o amigo leitor perceber que escrevi uma besteira, o que não me surpreenderia, não deixe de me avisar. Aprendo muito com meus erros, aliás, tolo que sou, principalmente com eles.
Velejar e navegar tem muito a ver com estar seguro e sentir-se seguro. Não vejo como curtir os prazeres de uma velejada sem se sentir seguro. Talvez quem leia os parágrafos que seguem vá imaginar que sou um cara inseguro ao navegar. Mas garanto que é o contrário. Planejo e faço tudo para me sentir seguro. Preocupo-me objetivamente com a segurança para não me preocupar subjetivamente com ela, se é que frase faz algum sentido. De qualquer maneira registro que não sou um organizador ou um "segurador" compulsivo. Não raro, a confiança na sorte ou a preguiça me dominam.
Quando era jovem fazia algumas incursões a vela pela Lagoa dos Patos com muito pouco equipamento ou mantimentos. Basicamente levava uma pequena bússola manual, alguns pacotes de sopa e fósforos, cigarros e cachaça. Quanto à água, bebia a da lagoa mesmo, que era boa. Mas com o passar dos anos a gente vai ficando chato. O mundo vai nos neurotizando. Precisamos de mais coisas para nos sentir seguros. Começamos a inventar necessidades e exigir mais confortos. E dai que resulta no rol de bugigandas que apresento a seguir.
Indispensável:
- casco seguro e veleiro auto-adriçante. Existem veleiros fracos e fortes. Alguns modelos são tradicionalmente fracos, porque construídos em série, foram mal construídos. São cheios de problemas. Algo está sempre soltando, caindo, afrouxando. Para um cruzeiro de média distância é essencial um veleiro forte, resistente. Quando se está "dentro da natureza e exposto a todas as suas forças" é que nos damos conta do quão importante é tudo ser forte e resistente num veleiro, desde o mastro até um simples mordedor. Na cidade não percebemos a força dos ventos, dos temporais. Estamos dentro de um prédio que por sua vez é protegido por estar cercado de outros tantos prédios. Já, enfrentar o vendaval num barquinho tendo a água turbulenta por toda a volta é como que estar pelado dentro da natureza. A aproximação do temporal, daquelas nuvens carregadas no horizonte, espalhando raios para todos os lados e retumbando trovões é e será sempre algo extremamente ameaçador. Metade da batalha estará vencida se nos sentirmos seguros. A outra metade se estivermos efetivamente seguros. Como nós, os ditos normais, só podemos nos sentir seguros estando num veleiro seguro, então não há outra alternativa, o barco tem que ser mesmo muito resistente. O Lumar é um veleiro Tchê 17. Projetado pelo Paulo Kellerman, engenheiro naval, com diversas sugestões do experiente iatistar Boris Ostergreenn. Possue 17 pés (1 pé = 30,48 cm). Seu nome diz tudo: é um Tchê, ou seja, gaúcho e macho. Pequenito, pero atrevido. O casco não é de aço nem de alumínio, é de fibra. Mas de uma fibra sólida, com uma boa espessura. Foi bem projetado e bem construído. Deve estar com 40 anos. Se bem cuidado, dura mais 40. Para velejar em qualquer lugar é sempre altamente recomendável um veleiro auto-adriçante. Auto-adriçante significa João Bôbo. O mastro pode bater na água que o veleiro volta a ficar de pé. O Tchê tem 1/3 (200 kg) de seu peso total (600 kg) na quilha. Desejável, pelo seu tamanho que fosse mais de 1/3. Talvez se 40% do peso estivesse na quilha fosse o ideal (a meu ver, um ver de leigo) como é no caso do Fast 23, um outro veleiro extremamente seguro e marinheiro. Aqui uma interessante observação: quanto maior o veleiro, menos percentual do peso total está concentrado na quilha. Assim, veleiros de mais de 40 pés possuem apenas algo próximo de 25% de seu peso total localizado na quilha. A razão disso? Sei lá. É o que observei e registrei comparando diversos projetos.
- mastro firme. O mastro tem de ser firme. Não pode ter fissuras causadas pelo tempo de uso. Há de ser bem dimensionado. Os estaiamento tem de estar corretamente regulado e apertado na tensão correta. Também não pode ter fissuras provocadas pelo desgaste. Quanto parte um estai, normalmente isso ocorre junto de um esticador. É onde o desgaste é maior. É onde se deve concentrar o exame. Dizem que se deve trocar esses cabos de 10 em 10 anos. Troquei fazem três anos depois que o mastro antigo caiu sob nossas cabeças, minha e do Pedro, velejando no Guáíba. Partiu no meio e caiu não porque estivesse velho, mas porque os estais estavam frouxos (e minha prima Tina tinha me advertido diversas vezes para apertar aqueles estais, só não lembro de me dizer que se não o fizesse o mastro cairia sobre minha cabeça). Aproveitei e troquei o mastro também. Superdimencionei tanto o novo mastro como os novos estais. São para veleiros de 23 pés. Mas em se tratando de mastro, estais, leme e suporte de quilha nada é superdimensionado. Especialmente de leme. Um puta leme pode ser superdimensionado para o teu bolso, nunca para qualquer veleiro. Aproveitei e coloquei também esticadores decentes (os anteriores eram de hobbycat) e novos. Os contra-pinos (ATENÇÃO) que prendem os estais nos esticadores DEVEM estar envoltos e protegidos por fita isolante (enrolada nos contrapinos), evitando assim que eles se soltem, o que pode ocorrer com a vela ao vento panejando nesses contra-pinos. Esse detalhe é importantíssimo. Em minha primeira navegada com o Lumar desconhecia esse formato de "amarração" do estai ao esticador e os contra-pinos estavam expostos. Foi quando um deles soltou e fiquei com o estai de sotavento completamente solto, como se fosse uma linha de pesca. Por muita sorte foi o estai de sotavento que soltou e percebi antes de virar o bordo. Tivesse sido o de contravento, o mastro teria vindo abaixo nesta primeira navegada. É sempre recomendável ter a bordo uma ferramenta capaz de cortar rapidamente os estais. Não tenho. Deveria ter. Mas também não estou indo para o mar. Só para a Lagoa. É parecida, mas não chega a ser mar. Para que essa ferramenta? Se em uma tempestade o veleiro capota e o mastro parte, ele deve ser separado do veleiro para que não fique batendo no casco e provocando um rombo colocando o casco a pique. Aprendi isso por experiência própria? Não. Leitura. Leitura de livros de navegadores que passarão por essa situação. Há momento em que se faz necessário livrar-se do mastro o mais rápido possível.
- leme firme. Leme... o leme... Quantos veleiros já ficaram a deriva por ter partido o leme... É uma peça móvel. Suporta grande esforço. Trabalha constantemente. Tem de ser porrada. Muito porrada. Não existe leme superdimencionado. Pode haver para regata. Para cruzeiro, nunca. Quando mais resistente, tanto melhor. Tanto o leme em si tem de ser forte, como também suas ferragens que vão presas ao leme e ao casco. Quando adquiri o Lumar ele veio com uns parafusos 8 mm prendendo os suportes do leme no casco. Estavam sempre afrouxando e por isso vazando água em seus furos. Troquei por parafusos superdimencionado de 15 mm. Nunca mais me incomodei. Esses suportes de certa fez quebraram. Mandei soldar e fazer alguns bons reforços. Nunca mais me incomodei. De certa feita estava velejando com o Pedro e um amigo dele em frente do Iate Clube Guaíba. Quebrou o leme. Como tínhamos martelo, pregos e tacos de madeira a bordo, em 15 minutos remendamos o lemes e podemos retornar sem ter de ser guinchados. Comprei uma tábua de madeira de lei, uma plaina manual e fiz um leme novo. Nunca mais me incomodei. A bem da verdade, reconheça-se, nunca teria me incomodado se tivesse feito tudo antes de quebrar. Se um dia partir para um cruzeiro no mar não terei dúvidas em levar tanto um leme reserva como um suporte de leme reserva já instalado na popa do veleiro. Quebrou um, coloca o outro.
- quilha firme. Quilhas são presas aos veleiros por parafusos com polcas. Parafusos grossos. Aço inox. Não é incomum esses parafusos afrouxarem. Por isso devem ser periodicamente visitados. Também não é incomum um veleiro perder a quilha em alto-mar durante uma capotagem em uma tempestade. Se isso chega a acontecer, recomenda-se rezar. O veleiro sem lastro poderá ficar de cabeça para baixo. Muito provavelmente ficará boiando, pois que com a perda da quilha ficará mais leve. A quilha do Lumar nunca fez água. No caso do Tchê 17 não é a quilha que é presa ao casco, mas sim a sua caixa. Entonces, corrigindo, a caixa da quilha do Lumar nunca fez água em sua base onde está presa ao casco. As vezes dou uma espiada nos parafusos.
- velas em bom ou médio estado. Já tive um veleiro antigo, um Guanabara, que tinha uma vela antiga, de algodão. Tão antiga quanto podre. Mas minha namorada da época era excelente costureira e, então, enquanto velejávamos ela ia costurando. Ela parecia não se importar, até porque era uma daquelas tinha a intenção de casar comigo - e mulheres quando querem isso fazem de tudo para nos lograr disfarçando a bruxa que habita dentro de todas elas -, até um Dia dos Namorados em que dei a ela uma caixa de costura. Ela fez uma cara esquisita na ocasião e daí nunca mais a vi. A lição dessa experiência é a de que dá para fazer um bom cruzeiro com velas em bom ou até em razoável estado, mas não com velas podres. Estando em razoável, ou mesmo bom estado, as velas, é indispensável levar agulha e linha (o dedal também é útil para não furar o dedo). Umas três ou quatro agulhas, porque elas quebram na dureza da vela. Linhas, costumo usar fio dental. Se é recomendável não sei. Não tenho queixas. Para reforçar a costura é interessante levar também aquele rolo adesivo do tipo prateado que vende em ferragens. Depois de costurar, cola-se o adesivo pelos dois lados da vela. Não sabe costurar? Eu também não. Mas sou eu quem costura minha meias, minhas calças, minhas cuecas e minhas velas. Basicamente o processo é simples. Coloca-se a linha na agulha e vai passando no tecido nos bordos do corte de um lado para outro. E assim que faço e tem funcionado. Se o rasgo for numa costura, dá para "colar", quer dizer, vai costurando aproveitando os pontos da costura onde passava o fio. Barbada. Com o tempo, até se pega gosto. Claro, em não se tratando de uma vela podre como aquela que eu tinha e que rasgava de fora a fora e que, sem motor, para retornar para casa era preciso antes passar uma tarde inteira costurando. Mas se você tiver uma namorada...
- bússola e carta náutica. Em tempos de GPS talvez a bússola pudesse ser dispensada. Mas a uma vantagem que bússola tem sobre o GPS. Ela não precisa de pilha ou bateria. E pilhas e baterias ficam sem carga. Já a carga eletromagnética do planeta não tem faltado nos últimos anos. Então, embora seja um instrumento meio primitivo, bússola é indispensável. Se o GPS pifar, sobra a bússola e com ela se faz a navegação estimada, a mesma que se fazia com exclusividade há poucos anos atrás (poucos para quem está com cinquenta anos, muitos para quem tem dez). Há uma certa graça ou ironia nessa expressão navegação estimada. Com ela, você não sabe onde está, apenas estima onde está. Até uns três anos atrás, ou menos, só fazia navegação estimada, tanto no Guaíba como na Lagoa. É algo muito simples. Verifica-se com o auxílio da bússola o ângulo em que se encontram dois pontos conhecidos (morros, praias, ilhas, bóias, pedras, etc). Transfere-se com régua esses ângulos para a Carta Náutica fazendo duas retas se cruzarem. Onde ela se cruzarem é onde você deve estar. A partir daí toma-se determinado rumo (ângulo), estima-se a velocidade média, estima-se (chuta-se) a velocidade da corrente e vai se imaginando, com a ajuda de algumas contas simples, aonde se está. Isso até o próximo cruzamento de retas na Carta Náutica, oportunidade em que se afere o quanto se errou (e mesmo assim, afere-se aproximadamente). Eu até era muito bom nisso. Lembro que se eu soubesse a altura de um morro numa margem (e sabia porque a Carta Náutica contém essas alturas) e segurasse uma régua com o braço esticado e medisse a altura da imagem do morro em centímetros dentro da régua, com base na fórmula matemática pela qual tendo dois ângulos de um triângulo e a medida de um de seus lados (a altura do morro) dava para calcular o tamanho do outro lado (a distância que eu estava do morro). O GPS me fez esquecer como funciona esse brinquedinho do triângulo e da reta. Tem ainda, falando de ciências ocultas e primitivas, a navegação astronômica, na qual determina-se a latitude e a longitude tomando a posição do sol no momento em que ele se põe no horizonte ou quando ele passa durante o dia no local mais alto. Isso nunca aprendi a fazer nem pretendo. Mesmo quando fizer o curso de Capitão Amador, se um dia o fizer. Dizem que o GPS pode falhar e que é recomendável saber fazer esses cálculos. É o mesmo que dizer quando sair de viagem leve uma mula no reboque porque teu automóvel pode estragar. Prefiro levar três GPSs, que já estão quase tão baratos quanto um radinho de pilhas, a fazer esses cálculos todos e ainda aprender a mexer com o sextante. Mesmo porque não acredito que se um dia me ver boiando no meio do oceano dentro de uma balsa salva-vidas é muito mais provável que o GPS ainda esteja funcionando do que um aparelho desses delicado com o sextante. Mas retornando a nosso chão. Deixa a navegação com sextante na Lagoa para os mais esquisitos.
- balsa salva-vidas. Se o barco vai a pique é necessário ter algo que flutue e acima da água. Acima da água para se manter seco e não morrer de hipotermia. Para travessias no mar é necessário ter uma equipadíssima balsa salva-vidas. Trata-se, neste caso, de equipamento obrigatório. Já em águas abrigadas, onde mais hora menos hora, a balsa vai acabar dando na margem levada pelo vento e ondas, basta uma balsa inflável comum. Tenho uma que é um trambolho. Dá para seis pessoas. Pesa uns 40 kg e ainda é espaçosa. É uma dessas compras equivocadas que a gente não consegue escapar. Revisei. Estava com um furo. Cola de vinil e um pedaço de câmara de pneu no furo e resolvido o problema.
- agasalhos. Como estamos partindo em Julho, o mês mais frio do ano, é preciso ter bastante agasalhos. É preciso ter um saco plastico ou uma bolsa impermeável onde são guardadas as roupas para dormir. Essas devem se manter sempre secas. Passar o dia molhada, em certas ocasiões é inevitável, mas dormir, tem de dormir no seco. Obtive para o Pedro uma roupa de neoprene. Essas roupas de borracha utilizada por surfistas e mergulhadores. Eles são excelentes para manter o corpo aquecido, mesmo quando se está debaixo de condições severamente molhadas. Alguns velejadores vão para o mar sem uma roupa dessas. Não sabem a bobagem que fazem. De certo porque é reconhecida como uma vestimenta mais para o surf ou para o mergulho. Essa roupa deve ser utilizada por baixo de todas as demais roupas, camisas, calças, blusões e casacos. Atualmente são fabricadas roupas de neoprene que não deixam penetrar água. Ou seja, o corpo não molha, mesmo caindo dentro da água. Se antes, quando a água entrava (e esquentava em contato com a pele) ela já era boa, imagina agora. A roupa foi adquirida só para o Pedro. Eu dificilmente passo frio. São 100 kg distribuídos em 1,65 metros, vale dizer, tenho uma espécie de proteção natural sobre a pele parecida com a que tem as focas, uma grossa camada de gordura que protege meus músculos, órgãos e ossos, do frio.
- cabine seca. Quando o caldo engrossa dificilmente um veleiro não coloca água para dentro. Essa água dentro do veleiro é algo extremamente incômodo. Molha as roupas, molha a comida, molha tudo enfim. Além do que traz sujeira para dentro do barco, sempre sempre há um lodo fino na água que fica dentro do veleiro depois que a água seca. A solução é procurar vedar todos os pontos de entrada de água. Minimizar ao máximo esse tipo de problema. O primeiro local a ser atacado é a gaiuta da proa. Todo veleiro faz água pela gaiuta, em especial quando a crista das ondas passa por cima do convés. Todo velejador tenta de todas maneiras estancar essa água e a maioria não consegue. A solução é simples. Porque o problema é simples: a água entra pelo lado das dobradiças. As dobradiças não apertam a gaiuta contra o convés suficientemente ao ponto de obstruir a entrada de água. A solução é colocar um trinco "apertador" também do lado das dobradiças. Foi o que fiz. Entra água também pelos balaustres ou seja lá o nome que se dá aos moirões da cerca do convés. Aqueles moirãozinhos de alumímio são presos ao convés por pararafusos (geralmente três deles). É por ali que entra a safada. Sikaflex no pé deles ou algum produto similar. Pode até ser colocada cola de silicone, mas essa não dura por muito tempo. Outro local por onde entra água: pelas janelas. Coloquei uma camadinha de cola silicone por todo o perímetro da janela. O certo seria desaparafusar as janelas, colocar cola entre ela e o veleiro e aparafusar novamente. Mas bateu a preguiça e fui pelo método mais simples. A bolina não está fazendo água. Os parafusos do suporte do leme também não. Mesmo assim, o Lumar vai fazer água, por onde não imagino, mas que vai, vai. É inevitável.
- luzes de navegação. É preciso ter luzes de navegação no veleiro para não ser abalroado velejando a noite (ou mesmo ancorado) por uma outra embarcação. O Lumar tem uma lâmpada clara no tope do mastro. Uma amarela na cruzeta do mastro. Uma vermelha na proa a esquerda (bombordo) e outra verde também na proa a direita (estibordo). Tem também uma branca na popa. No interior tem uma fixa no teto e outra móvel (com um fio de 30 metros) presa junto à parede da cabine. Ela possui essa extensão de 30 metros para o caso de ser necessário levar essa lâmpada para fora, inclusive para a praia caso o veleiro esteja encostado junto dela. Tem duas lanternas, extremamente úteis inclusive para iluminar toda a vela a noite no caso de aproximação de alguma embarcação, tornando-se assim bastante visível e um farol, com bateria recarregável, de trozentas ou coisa que o valha velas.
- carteira de habilitação. Tenho a de mestre. Não sei se ela tem prazo de validade. Se tiver, está vencida. E se estiver vencida, problema dela, eu não estou. A carteira de mestre amador me habilita a fazer navegação no mar, desde que costeira (só não posso atravessar o oceano). Para ir até o Uruguai bastaria uma carteira de arrais, que é a habilitação exigida pela Marinha para navegar em águas interiores.
- experiência prática. Em navegação a experiência vale 10X mais que a teoria. Não que a teoria não seja importante. Mas a prática e a experiência em se tratando de velejar, navegar, tem valor insubstituível. De pouco adianta saber em tese o que deve ser feito se o que tiver que ser feito não for feito rápido em certos momentos e de maneira segura. De nada adiantar ter um manancial de conhecimentos teóricos e esquecer de tudo na hora do aperto. Uma velejador experiente é capaz de pegar o Lumar sair de Porto Alegre e dar a volta no mundo. Alguém que tenha estudado de tudo sobre as teorias da vela e da navegação, se sair sozinho de Porto Alegre com o Lumar é capaz de não chegar à Rio Grande. Se pegar uma borrasca no caminho daí que não chega mesmo. O "mar" lá fora pode chegar a forças incríveis. Só lá fora, desprotegidos dos prédios das grandes cidades, é que podemos perceber a violenta força da natureza. A Lagoa dos Patos com ventos de 50 nós não é dar tapa de pudim. Ela literalmente branqueia toda. É o inferno branco. São as ondas todas espumando, uma após a outra. Se a pessoa estiver acompanhada terá que gritar com a boca encostada no ouvido da outra para ser compreendida. Isso sem falar de uma eventual tempestade de raios, na qual, dizem, nunca vi, se vê os raios batendo contra a água. O que nos salva é que temos poucos casos de tornados, um grande perigo natural. Contra eles, só o que pode ajudar é a experiência com rezas. Mas a experiência não conta apenas quando se está sob o mau tempo. Mesmo sob mar de almirante, uma besteira pode colocar tudo a perder. Veja-se, por exemplo, uma bobagem bem simples que pode ser feita por alguém inexperiente: ancorar próximo a uma praia sem ter plena certeza de que a âncora ficou presa firme ao solo. No meio da noite, o vento vira, começa a soprar mais forte em direção à praia, a âncora garra (se solta, escorrega) e o veleiro vai parar na areia com as ondas quebrando e batendo no casco. Boas chances de perder o veleiro. Outra bobagem da inexperiência: desequilibrar-se com o veleiro andando e cair na água. Não que isso não possa acontecer com velejadores experientes. Acontece... Talvez esse exemplo não seja dos melhores, pensando bem. Não duvido que esse tipo de desatenção seja mais frequente com velejadores experientes do que com inexperientes... excesso de confiança. Mas para resumir: acredito que 150 horas de comando de veleiro seja a experiência mínima necessária para alguém ir com segurança para a Lagoa dos Patos.
- âncora e corrente da âncora. Dizem que à âncora se aplica a antiga regra quem tem um não tem nenhum. De qualquer maneira, só tenho uma, pois que a segunda é inútil, na medida em que ela se desprende com facilidade do fundo. Essa segunda, a imprestável, é de ferro fundido. Sua pá é muito grossa, o que explica o fato de ela se prender bem ao fundo cortando o solo. Já a de alumínio, a boa, tem a pá fina, com pouca espessura, o que permite que ela corte o fundo de areia ou barro com facilidade, prendendo-se firmemente. Vale dizer, descarte âncora de ferro. Prefira as finas, de alumínio. A minha é superdimencionada, o que significa dizer que é a ideal. Para um veleiro de 600 a 700 kg os manuais recomendam âncoras de 5 a 7 kg. Ela tem 8 kg. Fora isso tenho uma corrente de 8 metros para prender à âncora (os manuais recomendam de forma pouco inteligente correntes de 2 a 3 metros). Essa corrente, que vai junto com a âncora para o fundo (separada dela apenas por um cabo de nylon de meio metro que serve para unir a corrente à âncora) tem por finalidade contribuir para que a âncora não se desprenda do fundo quando estão fortes o vento e as ondas. Com seu peso ela nunca permite que o cabo da âncora estique completamente provocando trancos e também mantem o alinhamento do cabo na proximidade da âncora bem rente ao fundo - em razão do peso - o que contribui para que a âncora não solte. A única desvantagem de uma corrente deste tamanho a bordo é o seu peso. Mas por outro lado é um peso extremamente útil para fazer contrabordo.
- salva-vidas. Procuro sempre vestir o salva-vidas a bordo, em especial se estiver fora da cabine. É importante a observação que um colete salva-vidas não nos dá o direito de cair do veleiro em qualquer local e em qualquer época do ano. No frio e longe das margens, cair do veleiro em movimento, o salva-vidas terá pouca utilidade, pois que morre-se de frio antes de chegar a uma das margens. Longe das margens, em épocas de frio, talvez melhor nem usar o salva-vidas, já que ele poderá transmitir uma segurança que não existe. Nessa hipótese a recomendação é a utilização de um cabo de segurança nos prendendo ao veleiro.
- água e comida. Ao contrário do que mostram algumas imagens que são apresentadas na mídia, velejar não é algo exatamente confortável. Talvez, uma velejadinha rápida de 2 ou 3 horas, com ventos favoráveis possa ser. Mas qualquer velejada de mais de um dia é bastante cansativa e desconfortável. O esforço físico não é pequeno, a começar pelo fato de que o veleiro, sempre em movimento e sacolejando nas ondas, obriga a uma constante contração de toda a musculatura visando manter o equilíbrio e a postura ereta. Mesmo sentado, sem fazer nada num veleiro, diversos músculos estão sendo exercitados, sem que se perceba. Quando maior o veleiro, menos e ele cansa e mais conforto ele oferece. Todavia, por maior que seja, sempre provoca cansaço físico e é, por natureza, desconfortável. Tudo isso deve ser compensado de outras formas. Uma, por óbvio, é o prazer da velejada e da viagem. Outra forma de reduzir o desconforto e o cansaço são fazer boas refeições. Velejar por alguns dias comendo apenas chocolates e sanduíches, passando fome, portanto, é o mesmo que velejar engolindo pílulas de stress. Boas refeições e, em especial, uma boa e farta janta, seguida de um sono profundo e reconfortante, são essenciais para velejadas um pouco mais longas. E quanto a água, não há muito o que se dizer. Em tempos passados era possível beber água direto da lagoa. Eu bebia. Hoje, tendo em vista o grande número de lavouras - e de herbicidas - em suas margens, creio que não seja mais potável. De qualquer maneira, num aperto, com certeza ela não vai matar. Nem ela nem alguma larvinha qualquer que venha junto.
- aterramento. Praticamente todos os veleiros com algo em torno de mais de 27 pés possuem sistema de aterramento para evitar a queda de raios no veleiro. Disse para evitar a queda de raios, pois há os que pensam, equivocadamente, que a função do aterramento é de conduzir o raio que caia no veleiro para a água (isso ele até vai fazer se cair um raio no veleiro, mas não é essa a sua finalidade, não é para isso que ele está ali). Veleiros pequenos, como o Lumar, não dispõe de sistema de aterramento. Criei um. Uma corrente de 3 metros. Sob raios e trovoados, amarro uma ponta dessa corrente no pé do mastro e a outra ponta jogo na água. Se funciona ou não, não sei***, não sou físico e, aliás, torço para nunca descobrir. Quem melhor explicou como funciona o aterramento foi o velejador Plinio Fasolo em um artigo publicado na net em http://naveastro.com/navegacao/aterre_seu_barco.htm Como se observa de suas explicações, a superfície da água junto da embarcação é negativa e nas nuvens e céu ela é positiva. Essa diferença de cargas é o trajeto preferido de todo e qualquer raio. Com o aterramento, a carga negativa na volta do barco sobe pelo mastro e se dissipa no ar no topo do mastro. Dessa forma, desaparece o campo negativo nas proximidades do veleiro, o que tira o gosto do raio pelo barco. Resumidamente, é isso. Aterrar é como substituir a cachaça de um bêbado por água. O bêbado (o raio) vai vai mais ao copo.
*** Dias após consultei por email o professor Plinio Fasolo sobre esse meu sistema e ele, com aquela clareza que o caracteriza, gentilmente me respondeu o seguinte: Sem dúvida estabelecer contato metálico do mastro diretamente com a água ajuda muito a descarga do campo elétrico induzido pela nuvem. Ocorre que o "bom contato" resulta pela maior área das superfícies em contato. Em uma corrente, mesmo com elos grossos, os contatos entre eles são lineares e mínimos devido a forma circular de suas seções. Lembre que os terminais dos cabos de bateria são achatados e os contatos com os bornes cintados. Penso que uma braçadeira colocada no pé do mastro e essa ligada ao terminal de um cabo de bateria que alcance a água, com essa extremidade "desfiada", tipo flor, seria uma boa solução de aterramento para o seu barco.
Extremamente útil
Para ir para a Lagoa dos Patos, só o que é necessário é o resolvemos chamar de indispensável, conforme acima relacionado. Mas dá para ir com bem menos. Claro, a segurança não será a mesma. Na década de 80, eu e meu irmão Kiko Medeiros, atravessamos a Lagoa em um pequeno veleiro Dingue, uma embarcação com aproximados 4 metros e sem cabine. Tínhamos o essencial: mastro firme, leme firme, bolina firme, velas em bom estado, bússola, carta náutica, colete salva-vidas, agasalhos, lanterna, comida, água e experiência. Mas nem tanto precisa. Estou convencido que qualquer coisa que flutue, um tronco, por exemplo, um pano qualquer que faça as vezes de vela e experiência são suficientes para velejar na Lagoa. Quando se fala de marinheiros sempre se destaca sua "experiência". De fato, nada é mais importante na navegação do que a experiência. Seria capaz de atravessar dez vezes o Atlântico a bordo do Lumar comandado por um velejador experiente e nenhuma vez num veleiro de aço de 50 pés equipado com todos os equipamentos de segurança e navegação de última geração comandado por alguém com pouca experiência. Experiência é, em verdade, o único requisito indispensável. Do restante, o instinto de sobrevivência se encarrega. Quem conhece a história de Shacklenton há de concordar comigo. Esse navegador saiu da Ilha Elefant na Península Antártica com mais cinco homens a bordo de um bote salva-vidas de navio, do mesmo tamanho aproximado do Lumar, sem quilha (colocou pedras no fundo do barco), o pequeno James Caird, com apenas um cronometro manual, e após atravessar o mar mais perigoso do planeta, dezesseis dias depois chegou na Ilha Geórgia do Sul. Quem conhece essa história entende a razão pela qual digo: o indispensável é apenas experiência, do restante o instinto se encarrega.
Mas vamos prosseguir. Já passamos pelo indispensável. Vamos ingressar ingressando no luxo, tudo que é extremamente útil.
- Gps. Eta aparelhinho fantástico este! Disponho de um pequeno, que cabe em minha mão. É impressionando a quantidade de recursos que ele possui. A função básica de um GPS é nos informar a nossa latitude e longitude num determinado momento. Mas ele faz muito mais. Dispõe de uma mapa onde aparecem as margens, os diversos locais (waypoints) que acionei ao mapa e exatamente onde se encontra velejando o barco. Quero dizer, o barco também aparece na tela velejando. Informa o rumo verdadeiro, o rumo magnético, a velocidade, o rumo a ser tomado para chegar a um determinado local, o tempo que falta para chegar a esse local considerada a velocidade do momento do veleiro. Essas são apenas algumas de suas funções básicas. Existem várias outras. Para se ter uma idéia, até qual o melhor horário para a pesca em determinado local ele me informa. Quem já conheceu um GPS funcionando nunca mais volta desacompanhado dele.

- rádio VHF. O rádio na frequência VHF é o rádio marítimo por excelência. Todos os navios, veleiros e embarcações estáo de prontidáo na escuta no Canal 16. É nele que se faz as chamadas, de emergêndia ou não. Escuta-se muita bandalheira também no Canal 16. Tem gente que se incomoda. Eu dou risadas. Há um maluco que volta e meia ingressa no 16 imitando uma voz de viado. O cara é engraçadíssimo. Mas o fato é que há algum abuso, o que pode ser prejudicial a segurança. Tem doido ali colocando sertanejas, outros cânticos religiosos, gente que quer compartilhar sua insanidade com outros. De qualquer forma, numa noite escura, em um local solitário, escutar o 16 e seu besteirol não deixa de ser uma compania.
- celular. Também extremamente útil. Talvez até mais útil que o VHF para quem precisar de socorro. Existem umas pequenas bolsas plásticas no mercdo, completamente estanques, que são ótimas para se guardar o celular, inclusive quando se tem de pular para dentro de uma balsa salva-vidas.
- piloto automático. O piloto automático possui um bússola em seu interior. Ele é um dispositivo mecânico alimentado por uma bateria. Consome pouca energia. Depois de se escolher o rumo, clica-se em um botão do piloto e ele sozinho vai levar o barco sempre naquele rumo, movendo o leme para um lado e para o outro com vistas a fazer as correções. Depois que se tem um piloto, nunca mais se quer saber de velejar sem piloto.
- luzes internas. Essenciais para a navegação a noite e também para preparar o jantar.
- ferramentas diversas. É fundamental ter uma caixa de ferramentas a bordo. Dois alicates, um normal e outro de ponta, duas chaves de fenda e duas chaves philips (pequena e média), chaves de boca milimétrica e de polegada e chave inglesa, tesouras, estilete, furadeira manual, machado, serrote, martelo, constituem as ferramentas básicas. Bom dispor também de pregos, colas (araldite, poxipol, silicone), fitas tape, fitas isolantes, parafusos com ponta, parafusos de diversos tamanhos sem ponta, com polcas e arruelas, fusíveis, lâmpadas sobressalentes.
- cabo de segurança, mosquetão e cadeirinha. O cabo de segurança pode ser uma corda qualquer desde que bastante resistente. O mosquetão tem de ser de aço, já que os de alumínio utilizados por alpinistas por serem mais leves perdem sua resistência ao sofrerem impactos. O mosquetão é para prender em uma cadeirinha de alpinista, a qual vai presa ao corpo,, pelas coxas e pela cintura. O cabo prendo na proa. Caso veia a cair do veleiro, a tendência será de o mesmo aproar no vento. Isso vale para veleiros pequenos como o Lumar. Nos maiores, o que se usa é prender o cabo que é preso ao mosquetão a um outro cabo que corre de proa a popa pelo bordo do veleiro.
- fogão e panelas. Extremamente úteis para uma das principais atividades dentro de um veleiro: comer. E comer bem. Tenho duas panelas, uma leiteira e uma chaleira. O fogão é duas boca alimentado por um bujão liquinho (pequeno). O bujão, por medida de segurança, foi colocado fora da cabine.
- motor de popa e tanques de combustível. O motor de popa do Lumar é um Johnson 3,3 hp. Consome por volta de 3 milhas náutica por litro. Só uso em calmaria. No vento forte, nem pensar, é inútil. O motor tem de ser revisado periodicamente. Especialmente seu filtro de combustível situado na saída do tanque. Seguido entope com sujeiras. Vela, dizem que boas são as importadas. Como esses motores de popa são por natureza problemáticos, opto por velas importadas e gasolina melhor mesmo é comprar essas especiais com mais octanagem. É mais um fator para que a gambiarra não encrenque, já que todo motor de popa é em última análise uma gambiarra, vale dizer, uma encrenca. Não se deve misturar o óleo dois tempos (se for motor dois tempos) ao combustível. É que fazendo isso o combustível dura menos, se estraga rápido. Combustível guardado em galão por mais de um mês é combustível suspeito, já que ele fica aguado. Evite, também, de deixar combustível no motor ao desligá-lo. Corte o ingresso de combustível para desligar o motor (se ele for ficar parado por uns dias). É que a gasolina parada no carburador transforma-se em algumas semanas em uma pasta que entope tudo. Outro cuidado é com a inclinação do motor. Se ele trabalhar inclinado para trás, o motor vai apagar antes de terminar toda a gasolina (que desce para o carburador pela frente). O certo é ele operar na horizontal. Assim como se verifica com qualquer veleiro, leva um tempo para conhecermos o motor de popa de um barco e todas suas manias. Minha sugestão é: estragou, alicate, chaves de fenda e philips, chaves de boca e mãos a obra. Motor de popa é um tipo da encrenca que dá tanto problema que não se deve ficar sempre esperando pela chegada da mão de obra especializada. É preciso conhecê-lo, nem que seja apenas o básico. Noventa por cento do problemas você encontrará ou no carburador ou nas mangueiras e filtros. Algumas vezes na vela. E nisso tudo não é difícil de fuçar. Na dúvida, assopre.
- notebook on line. Já estava há um bom tempo cogitando de adquirir um notebook com conexão "via aérea". A proximidade desta viagem me fez antecipar o projeto é adquiri um maravilhosos Axis ...... de 10 polegas. Minha melhor aquisição dos últimos anos. Queria apenas ter a previsão do tempo quando estivesse na Lagoa. Tenho muito mais. A bateria é capaz de durar cinco horas. Esse bichinho é fantástico. Excelente companheiro. E de onde vos digito. Com ele fico a pensar... foi-se o tempo em que era uma aventura atravessar o Horn. Com um notebook a bordo e com o avanço das comunicações meteorológica, hoje, dá para se obter com precisão os períodos em dias de janelas de bom tempo de qualquer travessia. Importante: nunca opere sem notebook com ele sobre a cama. Fundi a máquina. É que a refrigeração entra por baixo. Pronto. Salvei teu notebook. Me deves um notebook.
- taquara. Quem não tem sonar para conhecer a profundidade deve ter uma taquara. Quem tem sonar, também deve ter a taquara, já que a maioria dos sonares que conheço estão pifados.
- fundo do casco limpo. É bom limpar o fundo para que o veleiro deslize melhor na água. Um casco sujo pode significar um nó a menos na média de velocidade. O casco do Lumar está precisando de uma limpeza. Mas tirar ele da água é muita mão de obra. E entrar no rio nesta água fria... brbrbbrrrrrrr... Quem sabe no caminho...
- lanterna. É bom ter umas duas. Mais uma bem forte (um farolete), com bateria recarregável, preferecialmente. A lanterna, dentre suas diversas utilizades, é um importante instrumento de segurança para quem veleja a noite. Para se fazer visível a outra embarcação é só direcionar o facho da lanterna para a vela.
- tacos diversos de madeira. Sempre podem servir para alguma coisa. Para tapar um furo no casco, por exemplo. Da última vez me foram úteis para remendar o leme que partiu ao meio. Com os tacos de madeira e pregos foi feito o remendo no leme. Transformou-se em uma gambiarra. A propósito sabe de onde surgiu o termo gambiarrar. Vou contar. Queriam criar uma ave que voasse tão bem quanto o gavião e que fosse tão bonito quanto o pavão. Nasceu o peru, que não voa e é feio para mais de metro. Brincadeiras aparte, confie na sua imaginação, na sua capacidade de criar e solucionar problemas. O homem gambiarrático, tanto no mundo ds coisas como no das idéias, é o homem superior.
- infláveis de plástico. Coloquei na cabeça a idéia de que esses infláveis de plásticos, tipo essas camas plásticas para a piscina, podem ser extremamente úteis numa emergência. Em cima de uma delas dá para atravessar a Lagoa e relativamente rápidos se tiver vento e ondas. Se bem que no inverno, com o frio, sua utilidade como salva-vidas, fica um pouco limitada. Uma gambiarra, enfim, que sugiro.
- croque. Volta e meia a quilha ou o leme do veleiro se prende em uma rede de pescador. Para empurrar a rede para baixo permitindo que o veleiro passe por cima dela é essencial ter um croque (vara com um dispositivo na ponta capaz de empurrar ou puxar um cabo).
- escada. Caiu do veleiro. Vai subir como? Fazendo força? E se faltarem forças? Quer descer sem saltar na água? Escada.
- aquecedor. Tenho duas pedras redondas a bordo do tipo magmáticas (de origem vulcânica, pois que imagino que as sedimentares percam mais rapidamente o calor) com aproximados 20 cm de diametro. Finalidade: coloca ambas sobre as chamas do fogão. Em 20 minutos eles ficam extremamente quentes. Daí é só fechar toda a cabine, inclusive as frestas da portinhola com alguns panos ou papeis, e o ambiente fica aquecido. Ar gambiarrático quente a bordo. Um luxo.
- penico. Ter de sair a noite de debaixo das cobertas para o frio lá fora da cabine é coisa de maluco. Então, um penico. O Lumar não tem banheiro. Já de dia, manuais costumam desaconselhar urinar pela borda do veleiro. Advertem que muitos corpos de velejadores solitários foram encontrados no mar com a braguilha aberta. Não acredito. O estaiamento, que é onde se segura para urinar não pode ser assim tão fraco. Mijo da borda. Para outras necessidades que não urinar, eu o Pedro dispomos do mundo todo a nossa volta. Para outras necessidades, o maior banheiro do mundo é o do Lumar. Pode ser sentado no bordo. Pode ser dentro da água (cuidado, o cocô sobe). Pode ser, como que um Rei, quem lança suas ordens lá de cima, acocado na beirada de um trapiche.
Útil:
- barraca. Melhor dormir no barco que em uma barraca. Isso como regra, porque algumas vezes, quando por exemplo existem muita ondulação e o veleiro não para de sacudir, melhor ir para a praia e montar a barraca para dormir.
- cobertores. É preciso um bom sono para recuperar as forças para o dia seguinte. Os cobertores devem ficar protegidos de forma a não se molharem. O mesmo se diga para uma muda de dormir exclusiva para dormir.
- rede. Se for para dormir em uma praia e não se tratando de uma noite muito fria, nada como uma boa rede presa por duas árvores.
- rede de pesca. Porque as vezes se pega um peixinho.
- saco de dormir. Bom para usar tanto na cabine, como em uma barraca como em uma rede.
- linha e anzóis. Peixinhos... peixinhos...
- caixas de isopor. O bom é ter duas. Uma para guardar o gelo e que deve ser aberta só de vez em quanto para retirar gelo para colocar na outra, onde fica a comida.
- remédios. Aspirina, doril, sonrisal. É o que tenho sempre.
- televisão e rádio. Uma pequena televisão e um rádio am/fm constituem um pequeno luxo. Só não dá para abusar muito da TV, porque consome um bocado de energia.
- binóculos. Tem utilidade. Para avistar bóias, outras embarcações, praias...
- sacos de lixo. Velejador vê muito lixo em seus caminhos, seja em praias seja em alto-mar. Tem o direito de esbravejar contra a ignorância e a insensatez da humanidade. Se o lixo for jogado na água, e não guardado em um saco, você perde o direito de esbravejar. Transforma-se em mais um porcalhão.
- alimentos. Essenciais. Não vale a pena economizar neste item.
- biruta no topo. Uma biruta no topo do mastro indica a direção do vento com suas variações. Muito útil, principalmente no contra-vento, pois que ajuda a encontrar o ajuste certo das velas ou dos rumos com vistas a obter maior velocidade. Tenha cuidado para não quebrar a biruta batendo em galhos ou copas de árvores ao ingressar em açudes.
- argila. Tenho dois sacos a bordo. Como ficam no porão estão ali úmidas sem secar a mais de um ano. Imagino que possam ter alguma utilidade no caso de um furo no casco. Sei lá.
- panos. Tenho uma pano grande a bordo que no passado deve ter sido uma toalha. Na medida em que os panos vão sujando demais, vou cortando novos panos a partir deste panão. Muito práticos. Panos são sempre úteis. É bom guardar separados os da cozinha e os da limpeza, a não ser que você seja daqueles que não se importa de beber detergente e comer areia ao molho de graxa e gasolina.
Dispensado:
- AIS. É uma aparelho que surgiu de poucos anos para cá. É útil no mar. Todos os navios são obrigados a ter um a bordo. Ele identifica a aproximação de um navio, toca um alarme, infoma seu nome, seu rumo e sua velocidade. Útil para evitar colisões, se bem que pequenos barcos pesqueiros não costumem ter o aparelho.
- ecobatímetro. É um sonar. Funciona como um morcego. Mede a profundidade pelo eco. Tenho uma taquara.
- speedômetro. É um aparelho ao qual vai conectado uma hélice que gira no casco do lado de fora dentro da água. Pifa tanto quanto o ecobatímetro. Também não tenho. Meço a velocidade ou a olho ou pelo GPS. A velocidade o GPS é verdadeira, a do speed sofre os efeitos das correntes (contra ou a favor).
- radar. Bastante útil para o mar. Especialmente para evitar colisões. Toca o alarme diante da aproximação de um navio. Excelente para dormir sossegado, mas só se estiver fora da rota de návios, pois que embora confiável, falha as vezes.
- leme de vento. É um dispositivo que faz com que o veleiro mantenha um ângulo constante em relação à direção do vento (se o vento muda o rumo, o leme de vento faz o veleiro mudar junto). Ideal para grandes travessias. Para pequenas travessias ou médias travessias melhor um piloto automático (ou dois) que é mais prático. Mas para longas travessias o melhor é um leme de vento. Primeiro porque não consome energia. Segundo porque, depois de regulada, estraga bem menos do que o piloto automático. Tem que ter ou um ou outro. É inconcebível fazer uma travessia longa ou média tendo que ficar preso ao leme. Há muito mais coisa interessante para fazer dentro de um veleiro do que ficar segurando o leme.
- painel solar. Carregam a bateria. A reposição de carga é lenta, mas é constante. É muito bom dispor de um, pois que o ideal dessas baterias automotivas que se utiliza em veleiro é que elas se mantenham sempre com toda a carga, aliás, como se verifica com o caso das baterias de automóveis.
- gerador eólico. É um catavento que fica fazendo girar um dínamo que vai fornecendo carga para a bateria.
Achou muita coisa tudo que relacionei acima? Certo. Eu também acho. Leve só o indispensável e vá velejar.
Rumo à Arambaré. Vento sul: tô fora.
O Pedro arrumou uma nova namorada. Não sei o que acontece, essas namoradas devem deixá-lo meio cansado, desatento, ficou em cinco recuperações. Fez as recuperações e passou em todas cinco matérias. O que ele tem de genial tem de vagal. Na segunda parte eu era igual. Estamos em agosto de 2009. Resolvemos partir logo.
A idéia é partimos do Jangadeiros na sexta-feira. No dia anterior já deixar o veleiro abastecido e pronto para zarpar, com vistas a não perder tempo na partida. A lua é cheia. Excelente. Claridade a noite. Tive muito tempo para preparar o veleiro e quase nada ficou pendente. Faltou adquirir uma bateria reserva, mas isso pode ficar para depois. Faltou também adquirir uma conexão para plugar o notebook no acendedor de cigarros. Mas pode, também, ficar para depois. Faltou, ainda, uma rede para esticar as pernas entre duas árvores. Quem sabe compro no caminho. A idéia é ir até Arambaré, onde poderemos deixar o Lumar em um Clube Náutico, que não é propriamente um clube, mas um camping com um pequeno porto. No caminho temos idéia de conhecer o pescador Walter na Ilhota da Ponta Escura, que fica na saída da Lagoa, pisar no solo da Ilha da Barba Negra, conhecendo a Lagoa Azul e também desvendando que habitações são aquelas que aparecem no Google na ponta norte da ilha. E, ainda, se der, ingressar nas águas interiores do Pontal de Tapes.
Esses são os ventos de quarta-feira, dia 5 de Agosto:
Porto Alegre está no paralelo 32. Existe um ciclone no paralelo 50 no Atlântico Ele gira no sentido horário. Fazendo a previsão no sítio http://ondas.cptec.inpe.br/anima_glb.shtml verifica-se que na sexta-feira esse mesmo ciclone deverá enviar ventos de oeste. É quando o segundo ciclone do paralelo 50 que se encontra no Pacífico estará chegando na Patagônia. A se confirmarem essas previsões haverá vento de oeste na sexta e no sábado, o que constituem ventos de través no Guaiba e contra-vento para descer a Lagoa no rumo sudoeste. Vento contrário na Lagoa, mas vindo da praia. Aproximando da costa Oeste poderemos evitar as ondas.
Os mesmos ciclones acima, podem ser vistos abaixo na Carta Sinótica http://www.mar.mil.br/dhn/chm/meteo/prev/cartas/cartas.htm . No centro deles a pressão é baixa. Giram no sentido horário (pois que estamos no hemisfério sul). No final de semana o ciclone que está no Atlântico deverá subir passando por nossa região na forma de uma frente fria. Entra vento forte de oeste. Damos a ele o nome de Pampeiro.

A previsão do tempo se confirmou. Partimos na sexta a tardinha. Como o vento de oeste não era forte fomos com a ajuda do motor até Itapoã. A Jeni, namorada do Pedro, foi junto. Prestativa, colaboradora, corajosa e boa parceira. O tempo no geral estava ruim. Vários raios. Indaguei a meu filho: se demora 4 segundo entre o raio e o estrondo a que distancia passou o raio? Ele respondeu certo. E - prossegui - se não ouvires o estrondo depois do raio? Vaporizamos, respondeu ele. Acertou. Chovia e parava de chover. A chuva fina para quem usa óculos é um desastre. Se a chuva é forte, não é problema, mas a fina embacia o óculo e fica-se, principalmente se for noite, sem enxergar nada. Procurei pelo chapéu e não encontrei. Aliás, lembrei que perdi ele numa velejada há pouco tempo atrás. Caiu na água e dessa feita não consegui recuperar como em outras ocasiões. Não é difícil resgatar um chapéu que cai na água. Mas naquela oportunidade eu o perdi próximo de uma praia, a profundidade era pequena e o vento soprava em direção a praia. Não consegui me aproximar do chapéu, pois que quilha tocava no fundo e o chapéu afundou. Era um chapéu meio cinza meio verde, num tom entre essas duas cores, ou de uma ou de outra cor, ou minha memória é que está falhando (em verdade sempre tive péssima memória para cores, é que não costumo observar as cores, memorizo o mundo em preto e branco). Tratava-se de um velho chapéu. Já estava com ele há alguns anos. Uma perda lamentável. Já tinha certo apego por ele. Impressiona como pequenos itens que a gente esquece de levar acabam fazendo uma falta danada. Chapéu é imprescindível numa velejada. Protege do sol e, também, da chuva, principalmente quem usa óculos. Há uma foto que considero clássica da história da Vela e é aquela em que Joshua Slocum aparece na capa do seu livro A Viagem do Liberdade. Está ai. Meu próximo chapéu será um de palha.
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Slocum e o veleiro Liberdade Veleiro Spray
Joshua Slocum é talvez o maior nome da história da Vela. Foi o primeiro velejador a dar a volta ao mundo. No livro acima ele narra uma viagem num barco a vela construído por ele do Brasil até os EUA. A história é a seguinte: ele possuía um enorme veleiro, chamado Aquidneck, com o qual fazia comércio nos portos do Brasil. Naufragou em Paranaguá. Perdeu tudo o que tinha. Acompanhado pela mulher e por dois filhos do primeiro casamento construiu um veleiro e retornou velejando para a América do Norte. Oito anos depois, com outro veleiro, foi o primeiro homem a dar a volta ao mundo em um barco a vela. Encontrava-se desempregado, em terra quando em 1892 recebeu de presente de um amigo um velho casco ostreiro de mais de 100 anos de idade e que se encontrava encalhado numa pastagem à beira de um rio. Com suas próprias mãos e quase dois anos de trabalho, Slocum reconstruiu-o, "tábua por tábua, caverna por caverna", utilizando apenas as formas e dimensões do barco antigo. Em 1895 partiu de Boston com o veleiro Spray numa viagem épica que durou quase três anos e, em 1898, tornava a ancorar no mesmo lugar onde nascera e amarrando-o no mesmo poste que servira para ajudar o seu lançamento às águas. A história dessa circunavegação relatou na obra Sozinho ao Redor do Mundo, indiscutivelmente o maior clássico da literatura da vela.
Eram por volta de 23 horas quando estávamos chegando na Ponta Escura. Sem ter muito o que fazer liguei o notebook e conectei a net pela Vivo. Funcionou. Respondi um email. Um sucesso! Ancoramos junto da costa da Ilhota da Ponta Escura e fomos dormir.
Acordamos no sábado por volta das 11 horas da manhã. Vento de oeste fraco. Ingressamos na lagoa. Em seguida o vento rondou para sudoeste e começou a apertar. Vinte nós. Vinte e cinco nós. Seguimos no rumo sul. Orçando com todo o pano em cima, pois que o veleiro estava pesado e colocamos todos o peso a fazer bordo. Chovia. Muita umidade no ar. Frio. Ondas umas atrás da outra. Olho para dentro da cabine e meu filho e a namorada estão deitados lendo, um ao lado do outro. O Pedro lendo Crime e Castigo. Contravento de sudoeste forte, ondas e mais ondas
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Leitura de Sartre e Dostoievkski. Doidos varridos
e Dostoievski dentro da cabine de um 17 pés... Pensava que já tinha visto de tudo, mas a vida sempre nos surpreende. Depois de velejar umas oito milhas no rumo sul, virei o bordo e a Ilha da Barba Negra ficou na minha proa. Ondas e mais ondas, frio, já era uma hora da tarde. Calculei e percebi que daquele jeito só chegaríamos tarde da noite em Tapes. Ainda se o vento tivesse se mantido de oeste poderia velejar próximo da costa onde não haveria ondas. Mas o vento, sudoeste, vinha paralelo a costa. Além do mais ele poderia aumentar a intensidade a qualquer momento ultrapassando os 30 e os 35 nós e dai ia ser casca grossa.

Ingressando na Lagoa. Ilha do Junco na entrada do Guaiba aparece longe na popa do Lumar
E mais, considerei minha tolerância àquela sequência interminável de ondas entrando pela proa e jogando o Lumar, e todos nós juntos, para cima e para baixo. Já próximo da Barba Negra, um momento histórico. Encerrei minha fase de sentir prazer em velejar orçando no contravento. Após uma consulta pública aos presentes, a decisão foi unânime e demos a popa para o vento e retornamos com destino ao Clube Náutico Itapoã. O veleiro retornou a 4 nós em média. Sempre no piloto automático. Depois de passarmos a Ilha do Junco e as bóias do canal, cai no sono junto com o Pedro e a Jeni. Acordei com um ronco meu mais forte umas duas ou três milhas adiante. Já estava pegando no sono de novo quando acordei assustado com um barulho que parecia de um navio. É um navio! Abri os olhos assustado. Era o Pedro roncando. Eram umas 16 horas quando adentramos no canalete, agora todo ele demarcado por bóias, do Clube Náutico Itapoã. Verifiquei que o clube da Tina passou por novas melhorias. Uma parte do trapiche possui agora telhado. A simplicidade desse clube é proporcional a sua beleza. Esse clube é lindo. Extremamente simples e lindo, além de muito aconchegante. Tomamos banho quente. Tratei do fogo da lareira e o Pedro do da churrasqueira. Ele se encarregou de fazer o churrasco. O Pedro vai se tornando um adulto. Está mais colaborador a bordo, as coisas que diz, que comenta, seu pensamento crítico, suas tiradas irônicas, suas atitudes, a criança que velejava deitada com a cabeça no meu colo enquanto eu timoneava vai se tornando um homem. Continua um grande parceiro e de filho vai se transformando cada vez mais num amigo. Já era noite quando chegou minha prima Tina. Conversamos bastante. Sobre os diversas temas de que costumam falar os velejadores. Inclusive sobre o Jangadeiros, clube o qual ela é administradora nessa gestão do Comodoro Rostirola. Uma excelente gestão. O Rostirola é uma figura admirável. Faz um tipo engraçado e simpático. Uma pessoa que jamais deixa o cargo ou sua importância subir a cabeça. Que sabe que somos todos desimportantes quando se trata de se relacionar com os demais, sejam lá quais forem nossas atribuições.

Depois da janta, naveguei um pouco pela net e fui deitar no barco. O Pedro e Jeni dormiram com colchonetes no chão salão do CNI. No domingo acordamos tarde de novo, tomamos um café, dei uma ajeitada no Lumar e retornamos de ônibus para Porto Alegre. No próximo final de semana terei compromisso. Mas no outro, possivelmente - desde que o vento não seja do quadrante sul - estarei tomando o rumo de Tapes ou Arambaré, com a idéia de conhecer o Walter da Ilhota da Ponta Escura e as habitações do sul da Ilha da Barba Negra e quem sabe ingressar no Pontal de Tapes. Daqui até lá deverei pegar a moto e ir visitar o Lumar no CNI, só para matar a saudade.

Pôr do Sol em Itapuã

O Lumar está fazendo bem menos água pelo convés. Ingressou um pouco pela proa, pois percebi molhado o saco de carvão que estava lá. Mas pouca coisa se comparado com o que entrava. Talvez tenha entrada pelos furos dos parafusos do púlpito ou de suporte da âncora (oportunamente vou averiguar).
De Itapuã à Tapes. Uma tranquila e bela velejada.
O que todos loucos tem em comum são suas certezas. Dentre todas as certezas, prefira a certeza da dúvida.
Mederianas
As 9 horas da manhã o Lumar deixou o Clube Náutico Itapuã. Ventos fracos de oeste. Fomos percorrendo a costa leste o rio e admirando a paisagem.
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Há uma ou outra habitação nessa costa entrecortada por campos e praias.
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Mais próximo ao Parque Itapuã, avistei o que parece ser algum centro de lazer.
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Adiante o trapiche de um camping, bem junto ao Parque.
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Deixando a costa e dirigindo para a entrada da Lagoa avistamos a ilha das Pombas.
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Uma ilha pequena e desabitada.
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Ela faz parte do complexo Parque Itapuã, uma reserva ecológica.
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É proibido descer na ilha.
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Ingressamos na Lagoa dos Patos e tomamos o rumo sul. Aparece a ponta norte da Ilha da Barba Negra.
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Nesta ponta norte há uma pequena enseada, onde param meia dúzia de pescadores, todos com residência na Ilha da Pintada em Porto Alegre. Na época do peixe, que é a maior parte do ano, eles ficam na Barba Negra.
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Desci do barco e quase afundei numa dessas tábuas podres do trapiche. Comentei aos pescadores que não se trata de trapiche para boi de 100 kilos, ao que eles acharam graça dessa bobagem.
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Redes de pesca.
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Criatividade.
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O pescador Luis se ofereceu para me levar por uma trilha até o alto de um morrete de onde eu poderia avistar a Lagoa Azul.
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A Lagoa Azul é uma porção de água separada da Lagoa dos Patos por um alfaque. Ao sul do alfaque há uma passagem por onde podem penetrar na Lagoa Azul embarcações de pouco calado. O nome desta lagoinha deve-se ao fato de a água ser extremamente clara.
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Retornando pela trilha
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Nada mais além do essencial para navegar.
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Comentei ao dono deste barco: mas que bela casa tens no teu barco. Imagino que tenhas de tudo dentro dela. Ao que ele me respondeu: E tem mesmo. Tem até uma velha ali dentro.
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O dono da casinha.
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Retornamos ao barco para ir embora. A comunidade de pescadores do Guaíba e Lagoa dos Patos não é pequena. Imagino que deva totalizar uns 300 pescadores profissionais. Em sua maioria, possuem duas residências, uma a da pesca, em alguma ilha, ponta ou abrigo, e outra, seu lar, em alguma cidade ou vilarejo, onde estão suas esposas e filhos. São pessoas simples, mas não isoladas. Possuem televisão, mesmo na morada da pesca, normalmente barracos bastante rudimentares, e a maior parte deles dispõe de celular. São pessoas especialmente solidárias, como o são todos os homens do mar. São os riscos e a necessidade de socorro mútuo que intensifica a fraternidade entre os que vivem no mar. A necessidade é mãe da fraternidade. Alguns deles desenvolvem o vício do alcoolismo. Talvez a explicação disso seja a de que o alcool represente uma compania para enfrentar a solidão e mesmo o medo, que é inerente a qualquer navegante. Da mesma forma em que nas fazendas do pampa gaúcho a peonada se reunem no galpão para contar e ouvir histórias e estórias, em mais de uma oportunidade pude assistir pescadores reunidos em torno de uma fogueira, a noite, contando aventuras e desventuras de suas navegações. Há uma certa preferência para narrar grandes pescarias e, também, episódios trágicos de sobrevivência e de morte. Numa dessas fogueiras ouvi, certa ocasião, a história do pescador que pegou carona de um navio com seu barco no reboque, o que é muito comum na Lagoa.. Lá pelas tantas, o pescador dormiu no leme. A embarcação foi parar no hélice do navio. O narrador contou ter encontrado o pescador morto em trës etapas. Na primeira, viu a cabeça na beira da praia. Na segunda achou o tronco boiando. Na terceira, uma perna. E a outra perna sumiu. E assim ingressam noite adentro, com suas histórias, verdades, fantasias e assombrações.
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Deixamos a Barba Negra e seguimos em direção ao Pontal de Santo Antônio. Ventos de fracos a moderados. Todo o pano em cima.
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Ao entardecer, colocamos o balão. A velejada da Ilha da Barba Negra até o Pontal de Santo Antonio foi muito gostosa. É um longo percurso. Saímos da Barba Negra por volta das 17 horas e chegamos no Pontal depois da meia-noite. Toda a velejada no piloto automático. Depois de algumas milhas na direção sul é possível se aproximar da costa oeste (antes não, já que há diversas pedras naquela costa, muitas delas submersas e o risco à navegação é grande). Essas pedras estão demarcadas na Carta da Lagoa. Foi uma velejada muito tranquila com ventos fracos vindos de leste e nordeste. Depois que a noite venceu o dia, fiquei deitado por várias horas no piso do cockpit com as pernas voltadas para a popa e com a cabeça apoiada no degrau de entrada da portinhola da cabine. Nessa posição tinha a frente de meus olhos todas as estrelas do universo. É curioso como olhar para o céu estrelado, longe da luminosidade da cidade, nos faz pensar na vida, nos seus significados, nos seus não-significados. Indago a explicação para isso. Quer parecer que ao olharmos para o universo estrelado, ao perdermos todos os parâmetros físicos que nos relacionam com a terra, nossa mãe, ficamos que soltos no espaço, espalhados no cosmos, integrados a ele. Perdidos, sem a perfeita noção exata de nossa posição aqui, nos perdermos por lá. Por momentos, nos desvinculamos do chão e nossas asas voam além e nos questionamos: onde estou, por que estou, para que estou? Sábio é aquele que concluir que para determinadas perguntas, as respostas serão especulações e probabilidades, jamais certezas e verdades. A verdade, dizia minha sábia avó, é a mercadoria dos trapaceiros. O que muitos loucos tem em comum são suas certezas. Dentre todas as certezas, prezada seja a certeza da dúvida. Mas de qualquer maneira, deixadas de lado algumas inúteis divagações metafísicas, esses momentos muitas vezes são muito úteis para fazer alguns balancetes mais objetivos de nossas vidas. E em algumas oportunidades, algumas conclusões a que se chega podem ser muito valiosas para a determinação de nossos destinos. São momentos indispensáveis quando se busca a correção de alguns rumos.
Olhando para o firmamento a nordeste vejo duas estrelas, uma próxima a outra. Parecem um casal. Resolvo batizá-las de Ary e Lucy, meus avós maternos. Recordo do velejador brasileiro João Sombra, arquiteto aposentado do Banco do Brasil, quem está navegando mundo afora com o sua embarcação, o Guardian, fazem mais de dez anos, talvez quinze, e de uma de suas histórias contada nos seus livros. As vezes nos correspondemos por emails. Para cada estrela ele dá o nome de uma pessoa que já partiu. Lá no firmamento estão seus pais, seus avós, seus melhores amigos, alguns de seus amores. Todos que já partiram, a noite, estão lá e com eles o João conversa. Sábio, o Sombra. A estrela no topo, mais ao Sul, brilhante, inteligente como meu irmão médico que partiu com apenas cinquenta anos, pode ser ele, meu irmão. Ali está ele. Iluminando a noite. Aquela estrelinha forte, também no topo, a minha direita pode ser minha madrinha, quem não teve filhos e rezava fervorosamente por mim. Era uma mulherzinha tão pequena quanto decidida. Aquelas outras duas estrelas são meus avós paternos. A da esquerda tem um brilho especial, alegre. Deve estar contando uma piada ou talvez, dizendo um desaforo. Sem dúvida, é minha avó Catarina. A conheci quando viajei ao Rio de Janeiro com sete anos de idade. Sua casa ficou lotada. Dormimos eu e ela na sala de entrada da casa. Em um sofá. Mal ela colocou as cobertas sobre nós, largou um sonoro peido e a seguir caiu na gargalhada. Isso era década de 60, época que não era muito normal assistir uma honrada senhora esposa de general de exército peidar e dar risadas. Minha vó era debochada. Muito humana e debochada.
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A cama após uma noite bem dormida no Pontal de Santo Antonio. Uma cama de casal, mas só para casais apaixonados. Depois fica apertado.
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Pontal de Santo Antônio pela manhã.
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Navegando dentro do Pontal de Santo Antônio. Um refúgio para o vento oeste.
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Engraçado como demoramos muitos anos para aprender algumas coisas bem elementares. O chapéu de palha é o melhor chapéu para se enfrentar o calor provocado pelo sol. Por seus furos passa ar o fresco que vai refrescar a cabeça. Meu chapéu de pano verde, hoje uma estrelinha no céu, deve estar sentido ciúmes.
Bem examinada a imagem, talvez emagrecendo um pouco fique parecido com Slocum.
O furo na camiseta preciso costurar e o braço torto é assim desde que cai de um elevador que estava construindo para subir num abacateiro no quintal de minha casa quando era criança. Não sei dizer se outras crianças sonharam em construir um elevador para subir numa árvore. Eu efetivamente construi, mas quando estava fixando um sistema de roldanas no galho do abacateiro um acidente de trabalho interrompeu a obra. Fui atendido no pronto socorro. Era final de tarde e como o médico de plantão tinha pressa de retornar para casa juntou um pedaço de osso no outro de qualquer jeito. Deu no que deu.
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Encostei com o Lumar em um barco de pescadores e indaguei:
- Ooooo..., meu amigo, tens alguns peixes para me vender?
Ao que ele me respondeu com outra pergunta:
- É para comer?
- É. Respondi.
- Então, toma. Pescados recém. Filé de peixe-rei. Não precisa pagar.
Agradeci e deixei com ele uma carteira de cigarro.
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Excelente navegada com vento leste no Saco de Tapes costeando o Pontal. A grande dica para quem sai do Pontal de Santo Antonio em direção a Tapes, se o vento for leste, que é o predominante, é ir costeando o pontal, pois que com a costa a barlavento não se forma ondas. É orça/través admirável.
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Acho que era mais de um kilograma de peixe. Foi-se tudo. Uma delícia.
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Lumar chega ao Clube Náutico Tapense. Excelente infra-estrutura. Banho quente e passar das horas com notebook.
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Essa travessia Itapuã/Tapes constituiu uma excelente e tranquila velejada. Bem diferente de uma outra que fiz meses atrás acompanhado de uma banda de rock, a saber. meu filho, o saxofonista, o vocalista Bodji e o baixista Kubiaki, duas guitarras, um baixo, os pratos da bateria, um saxofone e o Walter, me cão, oportunidade em que ingressamos na Lagoa as 11 horas da noite com ventos de 30 nós e rajadas de 35 de guarda e rumamos direto noite adentro em direção à Tapes. Aliás, esta velejada tranquilo, com ventos fracos a moderados, ajudou-me a convencer-me, agora de forma definitiva, de que os prazeres de uma velejada tranquila, com ventos favoráveis é muito mais interessante.
Tentativa falha de ida à São Lourenço. Em compensação, o marulhar das águas ao som de saxofone. Noções elementares dos ventos gaúchos.
Quando se chega aos 50 já é hora da inteligência superar a bravura. Ou, em outras hipóteses não tão nobres, a preguiça e o comodismo se encarregarem dessa tarefa.
Mederianas
Na quinta-feira a tarde consultei a previsão dos ventos no Centro de Previsão e Estudos Climáticos do CPTEC em http://ondas.cptec.inpe.br/ e também no site SufGuru em http://ondas.cptec.inpe.br/ . Havia a previsão de um ciclone subindo dos paralelos 40/50 para o 30, onde nos encontramos, mas esse ciclone chegaria no 30 longe da costa no Atlântico e os ventos seriam leste a nordeste na Lagoa. Içamos as velas e partimos para o sul na sexta pela manhã quando, fazendo nova consulta aos sites de previsão, verificou-se uma mudança: O ciclone produziria seus efeitos na Lagoa e o vento seria oeste inicialmente, tornando-se sudoeste e sul a seguir, como de resto sempre ocorre com essas frentes frias que chegam no paralelo 30. Com vento oeste daria para velejar junto da costa até a ponta do Vitoriano, mas e a partir dai? A partir dai ficaria complicado, pois que da ponta do Vitoriano à São Lourenço o rumo é sudoeste, justamente de onde viriam os ventos segundo a previsão. Perdemos toda a disposição de velejar contra frentes frias, seus pampeiros e minuanos, na Lagoa e assim, resolvemos passar a noite dentro de um açude no sul do Saco de Tapes. Um excelente abrigo para o vento Sul. Dentro desse riacho a profundidade é boa. Na entrada, bem no meio, há um canalete, cuja profundidade não medi, mas que, segundo minha taquara, que faz as vezes de sonar, passa de um metro. Esse açude dá na sede de uma extensa Fazenda onde se planta arroz. Encostamos o veleiro num barranco junto de uma figueira. Estávamos, eu e o Pedro, acompanhado do Bodji, um músico extremamente criativo. A noite foi de estrelas, saxofone, violão e canto.

Abaixo a situação dos ventos de oeste entre os paralelos 40 e 60 no período. Uma situação meio caótica. Vários ciclones, uns no rabo dos outros, o que faz com que fique tudo meio indefinido em termos de previsão de tempo e ventos. Esses ciclones giram no sentido horário. No inverno, de seis em seis dias (em média), e no verão de oito em oito dias (em média), um deles escapa dos paralelos 40 e 60 e sobe para os paralelos 30 (Porto Alegre) e 20. São as chamadas frentes frias. Frias porque vem de uma região fria e provocam frio por onde passam, todavia, em realidade, o centro desses ciclones é quente (quente em relação a atmosfera circundante a eles próprios), o que faz com que esse ar quente suba (pois que é menos denso = mais leve). O ar quente ao subir, deixa um espaço embaixo que precisa ser ocupado por ar e assim, o ar que está na volta vem preencher esse espaço, formando-se o ciclone (o ar chega ao centro para ocupar o espaço do ar quente que está subindo) fazendo voltas, em curvas. Essas curvas do vento são provocadas pelo movimento de rotação da terra (força de coriólis). No hemisfério sul o ar quente ao subir atrai ar para o espaço que ele deixa e esse ar se aproxima fazendo voltas no sentido horário. Já quando se trata de ar frio descendo (ar mais pesado), o ar que desce forma um anticiclone, ou seja, o vento gira no sentido anti-horário. Já no hemisfério norte e também em razão da força de coriólis, tudo fica invertido, o ar quente provoca anticiclones, e o frio, ciclones. Se enchermos uma pia em Porto Alegre e abrirmos a tampa da mesma, a água vai toda escorrer pelo ralo girando em sentido anti-horário. Se for em Londres, o pequeno redemoinho se forma no sentido contrário. Efeito do tal Coriólis.

O regime de ventos no Guaíba, Lagoa dos Patos e costa brasileira até o paralelo 20 mais ou menos é relativamente fácil de ser entendido. O vento predominante é o leste e nordeste e resulta de um anticiclone no oceano Atlântico entre o Brasil e a Africa. Este é o vento que predomina. Este anticiclone é "desmanchado", ou talvez melhor dizendo,"empurrado", pela chegada das frentes frias. Entre os paralelos 40 e 60 estão constantemente passando ciclones no rumo oeste-leste. Lá pelo extremo sul da América do Sul (região da Patagônia) passam dois, as vezes três, ciclones por semana. No inverno, de seis em seis dias (mais ou menos) um deles sobe alcançando os paralelos 30 e 20. São as frentes frias (ar quente no interior que sobe e provoca um redemoinho de vento no sentido horário = ar quente em relação ao ar circundante, porque sentimos o ar quando chega no paralelo 30 como frio, pois que provém de uma região fria).
Acima o anticiclone no Atlântico
Acima o ciclone chegando do sul e tomando o lugar do anticiclone do Atlântico
O ciclone chega ventando de norte (um no máximo dois dias). É um vento norte normalmente fraco. A seguir muda para oeste e daí vem com sua força máxima chegando com facilidade a 40 nós e não raro a 45 ou até 50 nós. Chamam de Pampeiro esse vento. No dia seguinte ou no máximo dois dias depois ele gira para sudoeste e a seguir para sul. Mais um ou dois dias e ele se transforma em sudeste. No rabo dele, na medida em que se aproxima da África, se forma novamente o anticiclone do Atlântico, quando o vento retorna para o leste e nordeste na costa brasileira.
Para bem entender como é a chegada, a passagem desses ciclones (frentes frias) e o retorno do anticiclone predominante, veja-se a sequência de imagens abaixo. São imagens de previsão, mas que servem para explicar.
Na imagem, o ciclone na costa do Brasil/Uruguai e Argentina. Ele escapou dos paralelos 40 e 60 e subiu para 40 e 30. Como se observa pelas setas que indicam a direção do vento, o vento é sudoeste. Já fazem uns 3 dias que este ciclone chegou no paralelo 30. No primeiro dia o centro dele estava a oeste de Porto Alegre. Se você deslocar mentalmente o centro deste ciclone para oeste de Porto Alegre (imagine o centro dele na latitude de Montevidéu e na longitude de Uruguaiana), daí você vai entender porque o ciclone quando está chegando o vento é norte (é que se o centro do ciclone for colocado na longitude de Uruguaiana as flechas do vento da direita do ciclone que estão apontado para baixo vão ficar em cima de Porto Alegre - vento norte). Quando o centro de ciclone estava na longitude de Santa Maria (centro do Estado), as flechas do ciclone em Porto Alegre estavam apontado para leste (vento oeste).
O ciclone segue seu rumo girando no sentido horário para alto mar.
Começa se formar o anticiclone e começa a ventar leste no paralelo 30 da costa brasileira.
Mas lá embaixo, na Patagônia se aproxima um novo ciclone. Será que vai subir para o paralelo 30 ou vai seguir reto rumo à Africa? Para saber, só consultando as previsões e mesmo assim nem sempre eles acertam.
No sábado entrou o vento de oeste conforme a última previsão consultada. Partir dali para chegar no dia seguinte na Ponta do Vitoriano e pegar um sudoeste de proa, sabe-se lá com qual força... negativo. Retornamos ao som do saxofone do Pedro que se confundia com os sons do casco do Lumar cortando as águas do Saco de Tapes. E mais uma vez lembrei do Sombra: é preciso negociar com tempo nas travessias. Quando se chega aos 50 anos, já é hora da inteligência superar a bravura. Ou, em outras hipóteses não tão nobres, a preguiça e o comodismo se encarregarem desta tarefa.
Por que quando venta sudeste no Guaíba venta leste na Lagoa?
Já que estávamos falando de regime de ventos no capítulo anterior, aproveitando o embalo, vamos tratar de um interessante fenômeno que ocorre no Guaíba. Quando é sudeste no Guaíba e vamos navegando em direção à Lagoa dos Patos percebemos que o vento sempre começa a rondar para leste. E quando é leste no Guaiba, na Lagoa ele é nordeste.
A explicação desse fenômeno é simples e é conhecida por boa parte dos velejadores da região. Mas vou acrescentar à explicação uma conclusão própria a que cheguei.
Como já disse, o vento predominante no Atlântico, só interrompido pela subida das frentes frias (ciclones) que vem lá dos paralelos 40 e 60, é o vento provocado por um anticiclone que fica girando entre o Brasil e o continente africano. Mal desenhada, a coisa é isso embaixo:
Como se observa acima, o anticiclone produz vento nordeste na costa do Rio Grande do Sul.
Conforme é sabido, a terra tanto esquenta quanto esfria mais rápido que o mar. Esquentando a terra, ela esquenta o ar da superfície e quente esse ar, ficando menos denso (mais leve), ele sobe. E subindo, algum ar qualquer tem de ocupar o espaço deixado por ele. Daí porque de dia o vento tende a soprar do mar para a terra (porque o sol esquentou a terra) e a noite, como a terra esfria rapidamente, o vento tende a soprar da terra para o mar (vento terral).
No Rio Grande do Sul esses efeitos também são produzidos. A diferença de temperatura entre a terra e o mar no RS a noite nem sempre produz o vento terral, pois que o anticiclone fica ativo mesmo a noite, mas, quase sempre o vento amaina a noite (por efeito do esfriamento do solo gaúcho).
Mas retornando ao tema inicial. A questão do anticiclone. E vamos falar do dia, não da noite. Veja abaixo a curva que o vento faz desde o mar até chegar a Porto Alegre.
Talvez eu tenha exagerado um pouco na curva. Talvez ela seja um pouco mais suave. Mas serve para fins de explicação.
Pois bem, essa curva do vento é provocada pela superfície aquecida do solo gaúcho e pela inclinação da costa em relação a direção que vem o vento do mar. O solo aquece, levanta o vento da superfície para cima deixando um espaço vazio que é ocupado pelo vento nordeste do anticiclone. Como a costa gaúcha é inclinada em relação à direção que vem o vento do mar, o vento se torce em face do efeito solo/calor.
Disse no início deste texto que iria acrescentar uma conclusão própria, e esta é desconhecida dos velejadores. É da teoria e prática do vôo livre (vôo sem motor), que diferentes tipos de solo produzem diferentes níveis de calor. Uma floresta, por exemplo, produz pouco calor. Campo, pasto, produz mais calor que uma floresta, mas não produz muito calor. Terra arada produz muito calor. Solo rochoso produz bastante calor. O que isso tem a ver com vôo planado? É que objetos que planam sem motor necessitam para subir voar dentro de ventos ascendentes. Os ventos ascendentes são bolhas de ar quente que sobem na atmosfera. Ninguém melhor que os urubus reconhecem essas térmicas. É dentro delas quem eles sobem voando sem bater asas em círculos (para não sair de dentro da bolha de ar quente). Os planadores reais, os planadores radiocontrolados e asas deltas fazem a mesma coisa. Uma asa delta pode estar voando 300 metros do solo. Se encontrar no caminho uma bolha de ar ascendente (os pilotos as chamam de "térmicas") e passar a girar dentro dela e se ela for suficientemente forte, a asa poderá subir a mais de 2.000 metros.
Mas vamos adiante. Sabe lá o amigo qual é a superfície que mais produz ar quente ascendente? Asfalto, cimento, automóveis, caminhões, chaminés, fábricas, vale dizer....cidades. Nada se equipara a força das ascendentes produzidas pelo calor das cidades. Quando não possuía qualquer juízo e voava de asa, nos idos da década de 80, costumava saltar junto com alguns outros desportistas do Morro da Polícia em Porto Alegre quando o vento era norte (vento contra o morro o que também produz o efeito ascendente). A força das bolhas térmicas era fantástico. Era possível subir alto muito rapidamente. Costumava aterrisar ao lado do muro do Presído Central, pois que na época ali não existia a atual favela, mas um terreno do tamanho de meio campo de futebol. Aterrisava do lado do muro, mas no lado de fora - acautelo-me das más línguas. Não posso, nessa passagem, deixar de relatar um fato engraçado. Danton, excelente pessoa, instrutor de vôo, que veio a falecer num acidente automobilístico ainda jovem, era um excelente voador de asa. Também as vezes saltava do Morro da Polícia. Em certa ocasião ele se viu, no sufoco, obrigado a pousar dentro do CPOR junto à Ipiranga . Ou era um quartel da Brigada nas proximidade, não recordo ao certo. Após o pouso, aproximou-se um Sargento, cheio da pose e da autoridade e ordenou solenemente ao soldado que estava a seu lado: Recolha a aeronave.
Mas mais uma vez, retomando o tema central. O vento sudeste na proximidade de Porto Alegre. Pois bem. Não tenho a menor dúvida que o vento leste da Lagoa que se transforma em sudeste no Guaíba tem muito mais a ver com efeito calor/Grande Porto Alegre, do que com o efeito solo/inclinação da costa gaúcha em relação ao mar. O efeito da inclinação da costa transforma o nordeste em leste. Mas o sudeste é coisa típica do Guaíba. Como dizia o cara aquele: acredite se quiser.
Já ia me esquecendo... comentam muito que o vento em nossa região gira no sentido anti-horário. Estão corretos os que afirmam isso. No caso de entrada de uma frente fria, no primeiro dia tem-se o norte, que vira para oeste quando entra a força total. Lá pelo terceiro dia o oeste se transforma em sudoeste. A seguir sul e por final sudeste, quando então a frente fria se vai embora para alto mar. A razão dessa mudança da direção do vento tem a ver com a passagem do ciclone girando e já foi explicada. Quanto não temos uma frente fria produzindo seus efeitos temos então a regra que é o ciclone do Atlântico nos jogando um nordeste na costa, o qual chega leste em Porto Alegre e na medida em que o solo (e a cidade) vai esquentando durante o dia vai virando para sudeste.
Os quatro ventos do Guaíba
O Guaíba é um rio riquíssimo para a prática da Vela. Quanto venta o leste/sudeste que são os predominantes dá para contar quatro intensidades diferentes desse vento. O primeiro vento vai do Cristal até a Ponta Grossa. A partir da Ponta Grossa aumenta a intensidade do leste e/ou sudeste. Assim, a título de exemplo, se estiver ventando 10 nós na Ilha do Presídio, pode contar com 14 nós quando for ultrapassada a Ponta Grossa. Depois da Ilha Chico Manoel tem-se o terceiro vento. Dos 14 nós pode contar com 16. E finalmente, na entrada da Lagoa o quarto vento. Acrescente 2 ou 3 nós.
A razão é simples. A cada morro que passa é um obstáculo a menos para o vento. Os morros atrapalham a viagem dos ventos. São como tapas que lhes são dados e os deixam meio tontos.
Travessia Tapes/São Lourenço. Exame do Percurso e as duas opções
Para fazer essa travessia fizemos previamente um exame dos principais waypointes, em especial das passagens sobre os bancos, dos abrigos e dos obstáculos à navegação. Abaixo seguem as referências dos waypoints. Recomendamos a quem for fazer essa travessia que anote também, retirando da Carta da Lagoa, os waypoints do final dos bancos de areia e dos fárois que existem junto das pontas desses bancos. Há ocasiões a noite que tais faróis estão apagados por defeito e dai constituem sério perigo à navegação.
De Tapes a Ponta do Vitoriano são 26 milhas. E da Ponta do Vitoriano a São Lourenço são 33 milhas. Em duas etapas de 10 horas cada dá com muita folga para fazer toda a travessia. Essa distância aproximada de 60 milhas de Tapes a São Lourenço é a mesma que de Tapes a Porto Alegre.
As linhas em branco representam os
bancos de areia:
1 - Banco do Pau do Hugo
Passagem: 30 46,721 e 51 19,790 na
direção 10/190 graus
2 - Banco dos Desertores
Passagem 1: 30 52,808 e 51
21,511 na direção 10/190 graus
Passagem 2: 30 54,116 e 51 19,051
Passagem 3: 30 54,262 e 51 19,191
3 - Banco Dona Maria
Passagem 1: 31 05,117 e 51
25,802 na direção 20/200 graus
4 - Banco do Vitoriano
Passagem 1: de 31 16,631
e 51 34,917 rumar para 31 17,177 e 51 35,610 e dai
para 31 16,979 e 51 36,247
Passagem 2: 31 17,430 e 51 35,870
5 - Banco Quilombo
Passagem 1: 31 19,794 e 51 51,248 na
direção 60/220 graus
Passagem 2: 31 21,641 e 51
49,392
As passagens 1 e a do Pau do Hugo me foram fornecidas pelo Angonese. As passagens 2 e 3 me foram fornecidas pelo Comandante Emilio Opitz.
As passagens 2 e 3 são para veleiros de até 1 metro de calado quando o nível da Lagoa coincide com o da Carta.
As passagens 1 são as passagens junto das Pontas rentes a costa oeste. São para veleiro de meio metro de calado ou menos. O waypoint registrado acima corresponde ao centro da passagem e, portanto, o navegador deve se aproximar dele observando a direção assinalada.
Assinalado com a linha branco a localização de um banco de areia que vai até o Pau do Hugo. Em vermelho está assinalada a passagem sobre este banco (para calados até um 80 cm no máximo quando as profundidades da Lagoa coincidem com as da Carta).
Tanto o arroio da Fazenda dos Dalben quanto as áreas alagadas dentro do Pontal de Santo Antonio oferecem bons abrigos para ventos vindos de sul.
Entrada do arroio da Fazenda do Dalben: 30 46,929 e 51 24,262
Assinalado com X na imagem o local para a entrada na alagada sul do Pontal, que é a maior alagada. Chegue ao X (30 48,996 e 51 17,964) vindo de noroeste.
Da Ponta Dona Helena (banco do Desertores) até a Ponta Dona Maria o único "obstáculo" é um farolete em frente a Arambaré, o qual encontra-se assinalado na Carta. Ao fundo da Lagoa, a oeste, fica a Vila Santa Rita.
A Lagoa do Graxaim, antes da Ponta Dona Helena, é um bom abrigo para veleiros. A profundidade da entrada é de 1 metro (sempre considerando coincidentes nível da Lagoa com nível da Carta). Entrada da Lagoa: 31 03,760 e 51 28,041
Da Ponta Dona Helena à Ponta do Vitoriano não há obstáculos.
A Ponta do Vitoriano constitui um bom abrigo para todos os ventos. O X (31 15,516 e 51 37,649) em vermelho é apenas para demarcar a terra caso se chegue a noite no local, pois que é muito difícil determinar-se a distância que se está da terra a noite, especialmente nas mais escuras.
Da Ponta do Vitoriano até São Lourenço. O banco do Quilombo está assinalado com a linha branca. Não há outros obstáculos no caminho
Os Xs em vermelhos correspondem aos locais aproximados de faroletes. Esses faroletes estão assinalados na Carta. A marina fica a 200 metros da foz do rio São Lourenço a direita de quem entra.

A entrada no rio São Lourenço deve ser feita com certo cuidado. A boreste de quem entra existem pedras (em vermelho) e adiante, ao terminar o molhes, inicia um banco de areia (demarcado em branco). O caminho a ser seguido está em verde.
De Tapes a São Lourenço
A travessia Tapes-São Lourenço saiu. Não foi nem pela opção A, nem pela B. Foi pela opção da natureza. Os ventos que foram surgindo no curso do caminho foram determinando o rumo.
Sai no sábado pelos 6 horas da manhã e cheguei em São Lourenço as 5 horas da madrugada de segunda-feira depois de passar toda a noite atravessando a Lagoa. Fui sozinho. A namorada me roubou o Pedro. Foi a pior viagem do mundo. A Lagoa dos Patos, revolta, dentro de uma embarcação pequena, é a pior viagem possível. Confirmou-se a tese que um veleiro é a maneira mais cara de se viajar de terceira classe. Foram 30 horas navegando, sendo que mais da metade desse tempo segurando o leme sem poder fazer mais nada, já que o piloto automático foi a breca.
Depois de consultar diversas página na net sobre a previsão do tempo e dos ventos conclui na sexta-feira que poderia fazer a travessia com segurança. Havia um ciclone lá embaixo do hemisfério que no sábado passaria com seu "rabo" pela Lagoa. Mas o vento de sul do ciclone não seria forte. Seria, segundo os "videntes", de 15 a 20 nós no máximo. Iniciaria por volta das 14 horas e terminaria de passar distanciado-se para alto mar as 18 horas.
Decidi ir contornando os bancos, pois que embora possuísse no GPS os locais das passagens, tive informações que essas passagens deslocam-se ano a ano. Era meio-dia do sábado e estava contornando o Banco dos Desertores quando chegou o dito rabinho de ciclone. Cacete! O vento entrou forte. Estava no meio da Lagoa. Local profundo. As ondas cresceram rapidamente. Coloquei a vela principal no 2o. rizo e o tormentin na proa. Pifou o piloto automático. Tentei seguir no contravento. Mas aquele mar tornou-se invencível, praticamente. Era bem possível que o veleiro aguentasse. Mas o difícil é o marinheiro aguentar aquele sobe desce com algumas ondas passando por cima do veleiro. As ondas da Lagoa não são grandes, mas claro, desde que quem esteja dizendo isso não esteja debaixo de uma delas. É uma atrás da outra. Não são Três Marias. São centenas, milhares de Marias. Talvez com um veleiros de 30 pés ou mais dê para encarar o contravento de um ciclone na Lagoa, já que num barco desse tamanho enquanto que a proa está na crista de uma onda, a popa está na outra. O que não ocorre com um barco de 17 pés, que sobe e desce toda a onda e uma em seguida a outra. Vá a uma praça pública onde tenha uma gangorra. Sente na gangorra e peça para uma pessoa bem pesada ficar saltando do outro lado em cima da tábua. Aguente firme durante uma hora. Cansou? Então multiplique esse cansaço por três para ter uma idéia do esforço que se faz num veleiro no contravento da Lagoa? Por que por três? Porque na gangorra você está sendo jogado só para cima e para baixo. Num veleiro você é jogado nas três dimensões espaciais.
Naquela situação pareceu bem razoável buscar um abrigo. Poderia me abrigar ou no lado norte da Ponta Cristóvão Pereira ou no Porto do Barquinho, um pouco mais ao norte. Optei pelo Porto do Barquinho. Ingressei no Porto do Barquinho as 15 horas aproximadamente. Dentro do Porto decidi ir até o fundo dele onde inicia um arroio. Tive dificuldade. O veleiro encalhou diversas vezes. Fosse para onde fosse dentro do Porto o Lumar encalhava. Isso que a Lagoa dos Patos estava com o nível da água bem alto. Desisti de ir tateando o fundo. Joguei a âncora. Entrei na cabine. Procurei o livro do Geraldo Kipling. Abri no capítulo do Porto do Barquinho e encontrei ali os waypoints do canal que leva até a entrada do arroio. Passei os waypoints para o GPS. Levantei a âncora. Sai motorando no rumo do 1o. waypoint. Fui seguindo o caminho do Geraldo. Não deu outra. Perfeito. Ingressei no arroio.
Havia dois pesqueiros no arroio. Encostei o Lumar junto da margem entre os dois pesqueiros. Desci do Lumar com a âncora na mão e a cravei em terra firme. Ambos pesqueiros estavam fechados. Não havia ninguém neles. O vento prosseguiu sul por toda a tarde e ingressou noite adentro. A noite depois de fazer uma massa, li todo o capítulo Porto do Barquinho, do Geraldo, e depois fui dormir.
No domingo eram umas 10 horas da manhã o vento virou para leste. Icei as velas e tomei o rumo sul costeando a Lagoa. Depois do meio dia já tinha passado o Farol Cristóvão Pereira. Por volta das 14 horas pifou de novo o piloto automático. Abri, tentei consertar, mas desta vez não encontrei o defeito. Prossegui tendo de ficar no leme. Da Ponta Cristóvão Pereira até a Ponta do Bojuru são 28 milhas. É uma longa costa. O vento era leste, variava ora 70 graus ora 120 graus, com aproximados 20 a 25 nós, empurrou rapidamente o Lumar, sem ondas, pois que velejando próximo da costa (de meia a uma milha de distância). Desceu rápido a ladeira. A tardinha cheguei no final daquela grande praia chegando na Ponta do Bojuru.
Como não costumo dormir cedo resolvi seguir viagem e atravessar a Lagoa. Era por volta da meia-noite quando cheguei na ponta do Banco do Vitoriano. Da ponta do Banco do Vitoriano tomei o rumo da ponta do Banco do Quilombo. O vento era nordeste e estava aumentando. Passou para 25 nós na média. Baixei a genoa e prossegui só com a vela grande. Lembrei de meu cardiologista que me proibiu de jogar tênis. Fui muito inteligente e sensato ao esconder dele que velejo, pois que se tivesse contado estaria correndo riscos. Cruzei a ponta do Banco do Quilombo e tomei o rumo de São Lourenço. Foi quando o vento sumiu.
Estava segurando o leme faziam quase 12 horas. Amarrei o leme. Fui para a cabine preparar alguma coisa para comer no fogão. O veleiro ficou boiando. Não havia qualquer vento. Depois de comer tratei de descansar um pouco deitando na cabine. Eram três horas da manhã quando retornou uma pequena brisa de oeste. Amarrei o leme com o Lumar orçando em direção à São Gonçalo (no contra-vento, o Lumar, como a maioria dos veleiros, pode velejar sozinho com o leme amarrado). Quando ingressei no rio São Lourenço amanhecia. Atraquei o Lumar no Iate Clube São Lourenço, ingressei na cabine, fechei tudo e fui dormir o sono dos deuses.
Eu e o Kiko quase 30 anos depois de volta a Lagoa. O retorno
Quase 30 anos depois que eu e meu irmão atravessamos a Lagoa dos Patos em um veleiro Dingue voltamos a nos encontrar velejando na mesma Lagoa. Partida de São Lourenço as 22 horas com destino a Porto Alegre. Ao iniciar a viagem no rumo sul pensei inicialmente em ir até o Uruguai. Mas minhas férias acabaram por não coincidir com as de meus filho e velejar apenas nos finais de semana, com pouco tempo disponível para conhecer os diversos locais por quais passávamos, acrescido de duas viagens de ônibus, uma de ida outra de volta, acabou por se tornar uma empreitada extremamente cansativa. Repensando a idéia inicial decidi tomar o rumo Norte com destino a Porto Alegre. Ambos, eu e meu irmão, com compromissos na cidade decidimos velejar dia e noite. Eram 2 ou 3 da manhã quando passamos por cima do banco do Quilombo. Com a taquara a profundidade mediu 1,50 metros. A régua da Harmonia em Porto Alegre estava em 1,30 metros. O vento soprou moderado de sudeste até as 10 da manhã da quinta-feira, quando então cessou praticamente. Acionamos o motor e daí para a frente até Porto Alegre a viagem foi toda ela a motor, o que significa dizer, barulhenta e cansativa. Imaginava que os bancos a seguir teriam todos a mesma profundidade (1,5 m). Engano meu. Ao nos aproximarmos do banco do vitoriano percebemos as ondas quebrando no banco. Ele estava, naquele local, a flôr da água. Mais a leste havia uma bóia. Parecia marcar uma passagem. Atravessamos por ali. Conclui que os bancos da lagoa são completamente irregulares no que diz respeito a sua profundidade. Não estão todos na mesma profundidade e em seus diversos pontos variam bastante as profundidades. É preciso atravessar nas passagens. Esse percurso de São Lourenço ao Pontal de Tapes pela costa oeste da Lagoa é bastante seguro para veleiros de pequeno calado. Explico as razões. Praticamente todo o percurso é feito em águas cuja profundidade não ultrapassa os quatro metros, ou seja, o nível máximo de profundidade do rio Guaíba., o que significa dizer que não se encontrará nessas águas ondas superiores em altura àquelas que existem no Guaíba. Atravessamos os bancos Dona Maria e o Desertores seguindo os rastros das passagens que tinha registrado no GPS. No Pontal de Tapes o motor pifou. Verificamos que um cabo que estava na proa se soltou e enroscou no hélice. Chegamos próximo a praia. Desci do veleiro e tirei o cabo do hélice. Aproveitamos para tomar um banho. O sol era abrasador e água da lagoa estava morna. A seguir, prosseguimos a motorada. Eram quase meia-noite quando ingressamos na pequena lagoinha ao norte da Ilha do Barba Negra. A ilha estava deserta. Não estavam ali os pescadores que encontrei quando ali passei com destino à Tapes. As casas estavam vazias. Os mosquitos selvagens, no limite da sobrevivência, considerada a sua agressividade não nos picaram, nos furaram enlouquecidos. Saímos as pressas daquele local. Decidimos tocar direto para o clube náutico de Itapuã. Passando a Ilha do Junco, enquanto o Kiko motorava no leme, dormi exausto. Acordei uma hora depois com muito frio e sem saber onde estava. Ainda sonhando fui para a cabine buscar calor. Eram 3 horas da manhã quando ingressamos no clube de Itapuã. O Kiko deitou em um sofá no trapiche e eu em outro na sede ao lado da cozinha. Dormimos exaustos. Acordamos no sábado por volta das 9 horas da manhã. Tomamos um bom e completo café da manhã na pensão em frente ao clube. Retornamos ao Lumar. Acionamos novamente o motor. No trajeto nos reabastecemos de gasolina em Belém Novo. Eram 3 horas da tarde quando chegamos no trapiche do Jangadeiros.
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