Temporal à beira da piscina, egoísmo e solidariedade

 

Os costumes e a cultura são capazes de encobrir e até amordaçar os instintos. A reflexão, revelá-los. Somos em verdade melhores do que nos querem fazer crer.                    

                                                         Mederianas

 

 

Estamos muito distantes das pessoas que, a exemplo dos animais, reduzem tudo à volúpia.

                                    Cícero - Em A Amizade

  

                            

                        Janeiro de 2006. Em meados desse mês, desabou um temporal fortíssimo em Porto Alegre. Encontrava-me na beira de uma piscina. Vi o povo todo se juntar  para especular sobre a tormenta. Comecei a ponderar sobre o egoísmo.

                         A palavra egoísmo deveria ter por oposto socialismo. Seria o ego contrapondo-se ao sócio. Sozinho se opondo a associado. Mas o curso da história deu ao socialismo um outro significado. As duas melhores expressões inversas do egoísmo são generosidade e solidariedade.

                         Para compreender o egoísmo, é forçoso principiar com uma indagação. O homem é essencialmente um ser solidário ou egoísta? É bastante difundida a idéia de que em seu estado natural o homem é um ser egoísta. Em A Arte de Insultar, Schopenhauer diz que o motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, é o egoísmo, ou seja, o impulso à existência e ao bem-estar. Na verdade, tanto nos animais quanto nos seres humanos, o egoísmo chega a ser idêntico, pois em ambos une-se perfeitamente ao seu âmago e à sua essência. Afirma-se que antes do surgimento dos costumes, das convenções, da organização política, o homem era um ser essencialmente egoísta. A generosidade e a solidariedade seriam conseqüência da interferência de valores ensinados a ele. Em seu estado natural, em sua situação de puro instinto, o homem seria um ser egoísta.

                         Essa concepção é equivocada.  Existem algumas espécies de animais que são essencialmente egoístas. Vinculam-se, apenas, para o acasalamento. Existem, também, outras espécies, que são sociais. Nós nos enquadramos nessa segunda classe . No entanto, apesar disso, o homem é, muitas vezes, egoísta. É que num passado distante, bem antes de se tornar hominídeo e pouco depois de ter sido uma simples ameba ou coisa que o valha, ele era assim. Foi com o transcorrer da evolução que se tornou social. Caçar, alimentar-se, proteger-se de feras, enfim, sobreviver, só era possível,  praticamente, com o apoio dos demais. A conclusão a que se chega é trazemos dentro de nós tanto o egoísmo como a solidariedade, mas aquele é traço muito mais remoto, muito mais distante, praticamente perdido no tempo, e daí porque somos, ao contrário do que se imagina, essencialmente solidários.

                         Mês passado estava sentado no clube. Próximo à piscina. Algumas pessoas nadavam. Outras, divididas em grupos diversos espalhados em volta, conversavam. Outros, ainda, estavam sós, contemplando o que se passava. O fato é que era perceptível aquela distância regulamentar mantida por todos no convívio social. O tempo começou a escurecer. Nuvens pesadas e pretas se aproximavam vindas do Sul. Em seguida, entrou um fortíssimo temporal. Ventos muito fortes.  Imediatamente a piscina foi abandonada. Todos que se encontravam ali correram para o abrigo da varanda do restaurante. As pessoas se embaralharam de uma hora para hora. Começaram a conversar. A comentar o tempo. A olhar para as ondas encrespadas do Guaíba, onde alguns veleiros se debatiam. Pessoas que antes nunca se cumprimentavam passaram a se falar. Todos falavam alto. Estavam irrequietos, nervosos, preocupados e visivelmente mais unidos, grupais. Aquela distância regulamentar que separa os indivíduos reduziu-se a um contato direto, imediato, chegado, próximo, unido. Pessoas que estavam isoladas e em pequenos sub-grupos constituíram um grupo coeso e de expectativa em torno daquela chuva abundante e daqueles ventos violentos.

                         Diante da manifestação de força da natureza, os homens, instintivamente, se unem, buscam uns a proteção dos outros. A socialização e a solidariedade é, no homem, preponderante quando vista em relação ao egoísmo. Sim, muitos dos principais fundamentos de algumas construções filosóficas dos séculos IX e XX são completamente equivocados. Inclusive, a moderna psicanálise foi influenciada por essas teses individualistas. Na relação causal e evolutiva, o instinto solidário é conseqüência do instinto egoísta, o que significa que é para proteger a nós próprios que nos unimos ao grupo. Todavia, no processo evolutivo, o período em que fomos essencialmente egoístas está muito distante quando visto em comparação com o da socialização. Como diz Voltaire, não prestamos para nada se só formos bons para nós próprios.

                        Dessa maneira, pode parecer contraditório, mas o homem ao mesmo tempo que é atavicamente egoísta, é também, fundamental e naturalmente, solidário, generoso, protetor e amigo.

                         O desenvolvimento das ciências terminou por convencer a todos um pouco mais esclarecidos que não se deve agir contrariando os instintos. Aquele indivíduo que é generoso, que dá aos outros o que lhe sobra, que se preocupa com seus parentes e amigos, age assim, ao contrário do que se imagina comumente, por instinto, e não por educação, convenção ou dever social ministrados pelo convívio ou pela cultura.

                         Apesar disso, para a grande maioria das pessoas, quando escutam preleções e recomendações de generosidade e solidariedade, a idéia que isso passa é que, dando aos outros estarão perdendo alguma coisa, estarão se comportando não conforme a sua vontade mais íntima, e sim motivadas por dever tributado pela moral. Essa percepção é reflexo não apenas de um conhecimento filosófico equivocado como também da cultura econômica, que incentiva a acumulação desnecessária e abusiva de bens e riquezas. Para vencer essa percepção, é preciso reflexão. Com ela, e também praticando a generosidade e usufruindo dos prazeres e benefícios que dela advém, vamos aos poucos adquirindo uma nova compreensão, a de que, efetivamente, quando damos a outrem, o prazer é tão grande ou até maior do que quando obtemos para nós mesmos. Algumas pessoas, excepcionais, possuem essa consciência. E isso é interessantíssimo: há quase uma unanimidade na admiração desse tipo gente.  Aí está a demonstração de que nosso instinto vence, em nosso interior, a cultura dominante.

                        Um psiquiatra judeu que sofreu a perseguição nazista e perdeu sua família em Auchvitz, Victor Frankl, sustenta que o homem, quando reduzido à privação  extrema, mostra-se capaz de atos de extrema generosidade e auto-sacrifício. A partir daí, criou uma ciência, chamada Logoterapia. Sua visão do homem em situação extrema é parcial. Depoimentos de judeus do gueto de Varsóvia que sobreviveram ao holocausto dão conta de que o ambiente entre os judeus era terrível e mesquinho. Havia muita inveja, maledicência, intriga, tudo com vistas à sobrevivência. O que se verifica, em verdade, é que no limite da sobrevivência, o homem tende a praticar tanto atos de extremo egoísmo como de extrema solidariedade. A razão disso é bastante fácil de ser compreendida. É que nesse limite o nosso âmago aflora em seu máximo grau de intensidade. Ressurgem em toda amplitude tanto aquele remoto e atávico egoísmo com suas manifestações inglórias, como o instinto da solidariedade com suas atitudes heróicas. Esses dois vetores de conduta estão presentes em todas as pessoas, contrapondo-se, semelhantemente ao que se verifica com os instintos de morte e vida. Aliás, o egoísmo é um derivativo do instinto de morte, já que o egoísta, amando só a si, de ninguém é amado; é, pois o egoísmo um suicídio moral.

                        No geral, a solidariedade se sobrepõe ao egoísmo. Quanto mais distante o homem se encontra do limite de sobrevivência, mais ele se afasta de seus instintos. Normalmente isso o torna mais solidário, já que, como afirmei, no processo evolutivo, o egoísmo está muito mais distante do que a solidariedade. Mas nem sempre é assim. É que, se por um lado a fartura cria condições para a generosidade, ao mesmo tempo, ela propicia o isolamento, já que o rico pode desenvolver a sensação de que não precisa mais dos outros. Entre os pobres, encontramos muito mais pessoas intensamente egoístas e outras tantas fortemente solidárias que entre os ricos. É que, entre eles, os instintos se manifestam mais veementemente. Assim, quando quiseres encontrar grandes exemplos de pessoas solidárias – ou egoístas – procure entre os mais desfavorecidos.

                         As pessoas nas quais a solidariedade se impõe imperativamente sobre o egoísmo tendem a ser melhor aprovisionadas pelas generosidades da vida, aqui incluindo-se saúde, amor, dinheiro, felicidade, fortuna, alegria, sorte, prosperidade e todas as demais riquezas. Quem não sabe viver com caridade e abraçar a dor dos outros, tem como castigo sentir com violência intolerável a dor própria. A dor só pode suportar-se tornando-a comum e compartilhando-a com os outros que sofrem (Cesare Pavese).

                        O egoísmo no pobre não é um defeito tão grave quanto no rico, pois é provocado pelo receio de perder o pouco de que dispõe. Já no rico, o egoísmo decorre do sentimento de que as demais pessoas não são necessárias, são dispensáveis. E sabe-se que isso não é verdade. O dinheiro pode ser dispensado, mas o afeto, não. E, assim, o homem rico egoísta vai se empobrecendo de afeto. Vai morrendo. Aos poucos, sem perceber.

                          De certa feita, fui procurado por uma conhecida minha, tão ambiciosa quanto egoísta,  que me indagou o que deveria fazer para enriquecer. Não podendo transformar ou intervir no seu caráter, lhe sugeri: tente enriquecer a todos que estiverem em sua volta, se não por generosidade, por interesse próprio. Sabia que esse conselho não a tornaria rica, mas pelo menos a tiraria da miséria em que se encontrava, espiritual e financeira. A solidariedade por interesse próprio ainda é menos mal que o completo egoísmo, especialmente se reforçada por ações concretas.

 

 

Egoísmo e Solidariedade. Crítica de um Amigo Escritor e Resposta

 

Tua vontade de fazer sexo, de se alimentar, de viver, obedecem a leis que não foram criadas em teu favor, mas em favor de teus semelhantes, da tua espécie. Do instinto de vida e do sexual és  mero detentor, o legítimo dono é a coletividade. A natureza despreza tua satisfação sexual. À natureza interessa apenas os filhos que dela possam resultar. Tua própria vida só preocupa à natureza na medida em que ela possa ser útil à conservação de tua espécie. Nosso egoísmo é aparente. Na essência, somos solidários.

                                  Mederianas                                                    

 

Recebi do Rafael, escritor, colega e amigo, uma crítica a minhas idéias colocadas  no Temporal a beira da piscina, egoísmo e solidariedade.  Por acreditar que tanto a crítica como a resposta que ofereci a ele ajudam a esclarecer algumas idéias, reproduzo-as como segue.  

Ecce Homo.

Amigo Flávio. Como sei que o envio do artigo foi para suscitar debate, ei-lo.

Discordo em absoluto, além de pontualmente. Em grandes linhas, o homem é essencialmente egoísta. Pontualmente, minha verdade comungo: concordo que a evolução tornou o homem um ser sociável, porém essa socialização é uma conseqüência de seu egoísmo intrínseco. Explico: algo que nos é inafastável, ainda hoje, é o instinto de sobrevivência. Outrora precisávamos caçar para tanto, hoje necessitamos de emprego, e exemplifico: mesmo num concurso público, onde um candidato está empregado e o outro não, aquele não passará as respostas corretas para que o menos favorecido ganhe a vaga, o que seria algo solidário: ele briga para vencer, egoisticamente. Além disso, a sobrevivência também caminha de mãos dadas com a prole, a perpetuação gênica, e então mais uma vez temos de ser os melhores e mais fortes para termos as melhores parceiras/parceiros para assegurar filhos saudáveis e aptos a vencer, o que se exemplifica pelo baixo índice de adoções: egoísmo, queremos os filhos de nosso próprio sangue. Isso tudo é o cerne dos homens, é egoísmo. Por quê? Porque ele vem primeiro: os homens agruparam-se em bandos para então abaterem animais maiores, pensando em sua própria sobrevivência, não do bando. Uso o exemplo do amigo: a tempestade. Pessoas que nem mesmo se falavam (nada solidárias então) num momento de perigo correram para um mesmo lugar e se tornaram amigas momentâneas. Por quê? Porque eram essencialmente solidárias? Não. Buscaram egoisticamente o abrigo, e acabaram indo para o lugar mais favorável, e então formaram um grupo, pois a coisa podia piorar e então necessitariam dos outros para sobreviverem. Mas não pensavam nos outros: pensavam em si mesmas, e aposto que após o episódio “solidário” voltaram ao status quo ante de meros conhecidos mudos: egoístas. Não precisavam mais um dos outros. Friso: diante da manifestação de força da natureza não agiram instintivamente no quesito solidariedade quando se agruparam: agiram egoisticamente, querendo sobreviver. O homem não é solidário por instinto: o faz pensando em si mesmo, conscientemente, como o amigo mesmo diz: “para usufruir dos prazeres e benefícios que dela advém”, e o que é isso senão puro egoísmo? Além disso, uma contradição detecto: “São raras as pessoas assim” (solidárias) diz o texto, e ao final arremata “No geral, a solidariedade se sobrepõe ao egoísmo”. Ora, se são raras as pessoas solidárias, ela é sobreposta largamente pelo egoísmo, por evidente. O que quero deixar claro é que o egoísmo de ter para si, eu primeiro, minha sobrevivência antes dos outros é algo latente, e não remoto. É intrínseco e inafastável a todos nós, que somos, por natureza, egoístas. Nascemos num mundo social, engajados desde o nascimento na sociedade, que nos ensina a solidariedade justamente para alcançarmos os anseios egoístas (usando as palavras do amigo): ter afeto, ser bem quisto. Mas ainda nela temos de sobreviver, e então somos essencialmente individualistas: minha promoção, meu aumento, minha necessidade. E se nos unimos sob uma bandeira (greve para aumento de salários, por exemplo) não o fazemos por sermos solidários (pois não vejo nenhum de nós numa passeata para aumento de salários de médicos, por exemplo, o que seria sim solidariedade): fazemos pensando em nossa própria e particular necessidade. No final, e já falei demais, pergunto: se a solidariedade é natural, intrínseca ao ser humano, por que nos fechamos em pequenos grupos? Por que favorecemos somente os nossos? Por que não nos solidarizamos com todos? Respondo: por que somos, no cerne, egoístas.

 

Rafael,

Agradeço tuas contribuições, já que toda boa crítica, de uma maneira ou outra, colabora no sentido de aprimorarmos ou nos separarmos de nossas convicções, e especialmente porque foi eu quem estimulei o amigo a fazê-las.

 Não sei se me fiz entender na história que te contei a propósito de um temporal à beira da piscina. São pulsões em conflito – e em equilíbrio dinâmico -,  onde uma se faz mais intensa. Resumidamente, a idéia que quis transmitir foi a de que, em razão do processo evolutivo, trazemos em nossa essência tanto o egoísmo quanto a solidariedade. Também por causa desse mesmo processo, nossa natureza é preponderantemente solidária. É que o egoísmo era preponderante, ou melhor, exclusivo, numa etapa muito mais remota. Ao contrário do que afirmas, a evolução não tornou o homem sociável. Inexiste no processo evolutivo um homem que, inicialmente solitário, decide, num segundo passo, agregar-se ao grupo por ser essa a maneira mais fácil de atingir seus objetivos. Os solitários dos primeiros tempos não o eram em sua juventude. Foram expulsos do grupo por serem anti-sociais em excesso (criminosos), isso quando não eram assassinados. Quando nos tornamos homens, já éramos sociáveis e prevalentemente solidários. O exemplo do concurso em busca de um cargo não é aplicável, porque aquele que concorre a algum cargo não o possui e, portanto, não pode dividi-lo ou doá-lo por meio da solidariedade. A solidariedade, por definição, pressupõe a doação de algo que de que dispomos ou que possuímos. De qualquer maneira, abrir mão de um cargo, ou seja, uma função social com fins públicos, em favor ao menos apto, ou quiçá inapto, é uma falta de responsabilidade social, vale dizer,  uma falta de solidariedade para com todos demais membros da coletividade.

Também não parece muito apropriado o caso da corrida em busca de melhores parceiros/parceiras. Nas terras  da sedução, o que fascina a alguns não atrai a outros. Estética é subjetiva. Quanto ao temporal, trata-se de manifestação de força da natureza. Diante dela, o temor. Diante do temor, disparou o instinto solidário. Todos se agruparam. Por que antes não estavam tão unidos? Porque o instinto dispara com maior intensidade nas situações limites. Quando no texto escrevi que “são raras as pessoas assim” não estava referindo às pessoas solidárias, mas sim àquelas que têm consciência de que a solidariedade é instintiva. Melhor dizendo, a consciência dessas pessoas é muito mais comportamental do que uma construção racionalmente estabelecida em suas mentes. A sociedade moderna não nos ensina a solidariedade, e sim o egoísmo. Chega à minha lembrança nações da antiga Polinésia, aquelas ilhas do Pacífico. Lá, praticamente toda utilidade pertencia a todos. Não se conhecia acúmulo de bens ou riquezas. Inclusive - já que referes a questão da adoção -, os filhos das moças jovens eram todos adotados por vizinhos ou parentes, para que as moças pudessem continuar namorando e aproveitando sua juventude.

            Quando em greve, nos unimos a um grupo coeso: solidariedade. Quando reclamamos salários justos e compatíveis com nossas funções e responsabilidades, estamos sendo solidários com toda a sociedade, já que é do interesse direto desta a valorização daqueles que exercem funções essenciais ao Estado. Por final, indagas: se somos solidários, por que nos fechamos em pequenos grupos? Em verdade, nos fechamos em micro, pequenos, médios, grandes e enormes grupos. Micro: nossa família. Pequenos: nossos amigos. Médios: nossos colegas de trabalho. Grandes: nós gaúchos, o mais bravo povo dentre todos. Macro: nós todos, os seres humanos, preocupados com o destino do planeta. Viu só? Sempre grupais. Vinculados por solidariedade.

 Entendo porque você iniciou o texto referindo Ecce Homo. Em tempos insanos como esses, não é de se admirar que um escritor doente como Nietzsche, cuja enfermidade transparece em suas idéias egocêntricas e onipotentes, faça grande sucesso. Para Nietzsche, bondade, objetividade, humildade, piedade, amor ao próximo, constituem valores inferiores, impondo-se sua substituição pelo orgulho, pelo risco, pela personalidade criadora. Veja esse outro texto: O motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, é o egoísmo, ou seja, o impulso à existência e ao bem-estar. [...] Na verdade, tanto nos animais quanto nos seres humanos, o egoísmo chega a ser idêntico, pois em ambos une-se perfeitamente ao seu âmago e à sua essência. Desse modo, todas as acções dos homens e dos animais surgem, em regra, do egoísmo, e a ele também se atribui sempre a tentativa de explicar uma determinada acção. Nas suas acções baseia-se também, em geral, o cálculo de todos os meios pelos quais procura-se dirigir os seres humanos a um objectivo.(...) Tudo o que se opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu ódio: ele tentará aniquilá-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo; mas, como isso é impossível, quer, pelo menos, dominar tudo: 'Tudo para mim e nada para os outros' é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo. Como se pode observar da força argumentativa, é de Arthur Schopenhauer, em “A Arte de Insultar”, um dos filósofos inspiradores de Nietzsche.

  De certa maneira, teu texto, não complementa, mas completa o meu. Antes de expor minhas idéias, deveria ter exposto qual a idéia dominante sobre o tema. Não o fiz por amor à síntese ou, talvez, por preguiça. Você o fez e com boa argumentação. A doutrina do egoísmo é a que domina a filosofia, inclusive a contemporânea. Existem razões, simples de serem compreendidas, para o império dessa concepção. São – como não poderiam deixar de ser – razões de ordem econômica. A economia não move apenas os fatos históricos, as guerras, as revoluções. Alimenta também a ciência e a filosofia. Ao capitalismo, interessa a poupança e a acumulação de riquezas. Interessa que as pessoas acumulem riquezas mais do que o necessário para bem viver. Interessa que não dividam o que lhes sobra (para que os demais também se preocupem em acumular). Interessa que se considere como a melhor pessoa, como aquela que possui maior valor, aquela que é mais rica. E o que é o rico se não um egoísta? Ou, noutros termos, é possível ser rico sem ser egoísta? Não é intrínseco da riqueza o egoísmo? (1)

 Dia desses, conversei com um antropólogo e professor universitário. Ele se dedica ao estudo dos índios brasileiros. Mora no meu edifício. Não raro, quando desço até a garagem, acredite se quiser, me deparo com uma tribo inteira aguardando-o. Sabe qual era o índio de maior valor dentro dos grupos indígenas? Aquele que possuía maior capacidade de dar. De dar presentes. De dar resultados da caça. Não, como em nossa civilização, o oposto, de acumular, que é não dar.

 Há um louco aqui em nossa cidade que, desde que abriram as portas do Hospício São Pedro, está sempre varrendo a cidade. É fácil vê-lo na Av. Mauá. Às vezes, está varrendo o asfalto junto ao muro. Outra vezes,  a calçada. Já o vi também varrendo a Praça XV. Ultimamente – e coincidentemente neste último sábado – ele anda na Av. Goethe. Estive em mais de uma oportunidade conversando com esse homem. Nos entendemos bem. O interessante de conversar com dementes é que o diálogo é absolutamente ilimitado  e incondicional. O nome dele é Jorge. Perambula por toda a cidade. É careca e tem uma pele escura queimada do sol. Observa que o reconhecerás pelas ruas. Sempre que posso, paro, o chamo e lhe dou 4 ou 5 reais para que coma alguma coisa, já que é muito magro e deve andar faminto, até porque, de tão maluco, nem esmola mais sabe pedir. É o meu louco – brinco comigo mesmo em pensamento. O que sinto quando dou esses trocados para ele? Satisfação. Pequeno burguesa, mas satisfação. Por que? Ora, acabo de realizar um instinto. Naquelas oportunidades em que negas – como eu faço também - esmola a um pedinte de semáforo, o que sentes? Prazer egoísta por ter poupado algumas moedas? Sabes que não.

 Não são as idéias que devem dominar e render aquele que se propõe a desvendar os mistérios da natureza  humana. O inverso. Perdoe-me. Não consigo ludibriar essa minha natureza aforismática.

 Não te parece esquisito, ou no mínimo estranho, que em pleno século XXI, não são as recomendações das ciências, mas das diversas religiões, fundadas na premissa de amar ao próximo, que implicam na realização de nossos instintos? A influência desses postulados equivocados da ciência filosófica verificou-se sobre os mais diversos ramos do conhecimento. Até a doutrina psicanalítica é fortemente influenciada pela princípio vital do egoísmo. Mas esse desacerto não retira o seu valor, já que o método preconizado para o tratamento das doenças do espírito objetiva, em última análise, algo muito simples: fazer com o que o homem se encontre com a família, com o trabalho e com amigos. Em outras palavras, objetiva criar condições para que possa ter atitudes de homem solidário, dando vazão, dessa maneira, a seu instinto natural. Em suma, tem por fim sua evasão do aprisionamento de seu tormento psicótico delirante, exclusivo e egoísta, para que retorne à vida social, repartindo-se e multiplicando-se com seus semelhantes. Não é à toa que esse doentes são também chamados de alienados, e seus médicos, de alienistas. Aliás, jamais deitou ou deitará uma dor no divã da psicanálise que não tenha relação com uma perda. Inexistem dores que não decorram, mediata ou imediatamente, da perda ou de sua possibilidade de acontecer. E o que é a perda senão a negação do vínculo, o não-vínculo, a impossibilidade da solidariedade? Mas já essa é outra questão e em outra oportunidade tratarei especificamente dela.

 Dizes que o homem é essencialmente egoísta e que é em razão de seu egoísmo que busca a companhia dos demais, com o fim de beneficiar-se. É solidário porque é, antes, essencialmente e prevalentemente egoísta. Eu te anistio, já que és um homem comum, mas o Joshua (2) também crê nessa bobagem? Não acredito. O Joshua sempre me pareceu um grande sábio. Vou te contar uma cena que assisti em minha infância e que me marcou. Eu estava com uns 10 anos de idade na praia do Braço Morto do rio Mampituba, na cidade de Torres. Aquele rio é perigoso, já que após três ou quatro passos adentro, surge um buraco muito fundo. Havia ali uma senhora em torno de 60 anos, cuidando de uma criança de 5 ou 6, que brincava na margem do rio. Em razão de suas vestes, e mesmo de seu rosto, quando comparados com os traços da criança, tenho certeza de que ela era a babá ou a  doméstica dos pais da criança. Em dado momento, a criança avançou para o meio do rio e afundou em suas águas escuras. Aquela senhora, completamente alucinada e desesperada, se pôs a gritar com todos seus pulmões e, correndo, mergulhou no rio, afundando. Um homem adulto correu ao local e, com uma vara (talvez taquara), recuperou aquela senhora, que não sabia nadar, e que veio à tona agarrada fortemente à vara e  à criança, esta apertada em seus braços. Aquela senhora não tinha qualquer relação de parentesco com a criança. Detinha apenas uma relação de trabalho com seus pais. Naquele breve momento de desespero, em que seus instintos distribuíram-se por toda sua constituição, aflorando à sua pele, onde foi se esconder seu vital instinto egoísta? Ela foi solidária em razão de seu egoísmo? O que, particularmente dela, queria em troca? Uma relação de trabalho? Ou buscava um elogio dos pais da criança? O agradecimento deles? Não, é claro. A não realização de seu instinto solidário naquele instante crucial tornaria cruel e barbaramente infelizes os restos de seus anos. Devemos, sim, viver de acordo com nossos instintos.

  Para finalizar, peço que leia essas palavras: É exactamente porque não há solidão que dizes que há solidão. Imagina que eras o único homem no universo. Imagina que nascias de uma árvore, ou antes, porque eu quero pôr a hipótese de que não há árvores, nem astros, nem nada com que te confrontes: supõe que o universo é só o vazio e que tu nascias no meio desse vazio, sem nada para te confrontares. Como dizeres «eu estou sozinho»? Para pensares em «eu» e em «sozinho» tinhas de pensar em «tu» e em «companhia». Só há solidão «porque» vivemos com os outros...  Foram escritas por Vergílio Ferreira, em “Estrela Polar”. 

Está subentendido nessas cogitações sobre solidão que só tens uma identidade porque os outros existem. Como se diz, os outros são nossos espelhos. Como aceitar a idéia de que somos essencialmente egoístas se até a consciência de nossa identidade, nossa mais profunda e elementar essência, depende da existência de semelhantes?

 É isso, Rafael, de mais a mais, aproveito a oportunidade para manifestar o quanto fiquei contente com tua entrada em nossa instituição. Vens para somar. És, junto com outros amigos que tenho aqui, mais uma pessoa com a qual posso compartilhar minhas vivências, minhas angústias e nossa invencível e ilimitada ignorância.

 

 (1) Mas não é extrínseco, já que o rico solidário é sempre um grande espírito.

(2) Joshua, o sábio peregrino, é um dos personagens dos livros de Rafael.

 

Barra Limpa, Fitipaldi (o Fiti) e Velejando

 

A sabedoria mede-se não pela quantidade de conhecimento acumulado, mas pela de dúvidas e incertezas descobertas

                                                                                  Mederianas

Dia 11 de junho de 2006. Um domingo. Juliana Medeiros, minha filha, recebe das mãos do Fiti, Diretor da Escola de Vela Barra Limpa do Jangadeiros, o diploma de término do curso de Optimist. Eu e a Luciane, minha mulher, freamos o que podemos a Juliana. Nos esforçamos para que ela não terminasse muito rápido e muito criança a Escola. O máximo que conseguimos adiar foi até ela atingir os 10 anos de idade.

 

                       

 

Juliana juntamente com Fiti. Bem à esquerda, Carol, instrutora da Escola

 

                       

                        A vida nos confere algumas certezas. E outras tantas inúmeras dúvidas.  Uma das certezas que tenho é a de que somente aquilo que fazemos com amor e paixão é capaz de render bons e duradouros frutos. Em qualquer setor. Seja na profissão, na arte, no esporte, seja em qualquer lugar, só podemos esperar bons resultados daquilo a que nos entregamos completa e intimamente. Dentre as diversas incertezas que transporto, nunca consegui entender a razão  pela qual meus amigos que morreram prematuramente estavam justamente dentre as melhores pessoas que conheci. A vida é, muitas vezes, injusta com pessoas boas.

                        Quando recomecei a freqüentar o Clube Jangadeiros, no ano de 2002, um dos primeiros associados com  quem mantive estreito contato foi o Fiti, Renato Reckziegel, Diretor da Escola de Vela, aliás, quem me apresentou à Diretoria para minha associação.  Uma figura ímpar. Completamente apaixonado pela sua função de incentivador da Vela perante à meninada. Fiti conheceu o Jangadeiros a convite do conhecido velejador Edmundo Soares, juntamente com outros velejadores que vieram da SAVA. Venceu diversos campeonatos de Vela. Nada menos que uma meia dúzia de campeonatos brasileiros da Classe Pingüim. Outra meia dúzia de campeonatos sul-americanos. Obteve um vice-mundial em 1975 e um mundial em 1976. Em 1975 foi convidado para ser o Instrutor de Vela da Escola Barra Limpa. Alegou que não sabia falar bem e por isso não teria jeito para cumprir essa função. A alegação não foi aceita e, assim, veio a ser o 1o. Instrutor da Escola. Fiti é um alemão tomate, o que deu origem a seus vários apelidos: Tomate, Pimentão, Camarão, e por aí afora. Como era tímido, com muita facilidade ficava ruborizado. Ou seja, trocava de cor, e daí, recebeu também o apelido de Sinaleira. No mesmo ano em que Emerson Fitipaldi venceu o seu 1o. campeonato mundial, o Sinaleira recebia no Clube mais um troféu de uma regata vencida, quando, lá do fundo, o Gaspar (Fokinha) gritou: "Dá-lhe Fitipaldi!!!". O Sinaleira não gostou e reclamou: "Pôxa! Vocês não se decidem. Mais um apelido para a minha coleção!" Como se sabe, para um apelido pegar, basta reclamar. Assim, Renato Reckziegel passou a ser conhecido por Fitipaldi ou Fiti. (parágrafo) Edmundo Soares foi Comodoro do Clube Jangadeiros e, por diversos mandatos, ocupou o cargo de Vice-Comodoro Esportivo. Foi um dos maiores incentivadores da Vela no Jangadeiros. Seu nome está interligado à história do Clube. Tinha um acesso extremamente fácil junto aos jovens Velejadores. Edmundo, para a meninada, um tipo paternal,  de voz serena, segura, confiante. Teve grande influência também sobre Fitipaldi, alguém para ter como exemplo. No ano de 2002, a vida de Fitipaldi sofreu uma grande reviravolta. O destino lhe foi barbaramente injusto. Primeiro, falece Edmundo Soares e, duas semanas depois,  perde seu filho, Marcelo (o velejador Potatoes), com apenas 18 anos, vítima de uma meningite avassaladora. O sofrimento causado pela perda de um filho provoca uma dor indizível, arrasadora. Como referi, a vida é, não raro, muito injusta para as pessoas boas. Muita injusta, porque o destino não explica suas ações, não justifica, ele limita-se atuar, com o tempo a transcorrer.

                        É muito difícil superar alguns desvarios do destino. Às vezes, não basta a resignação. A simples resignação não é suficiente para superar todas as dores. É preciso mais. É preciso lutar. É necessário encontrar um sentido onde absolutamente nada parece fazer sentido. Tatear uma nesga de luz onde impera o mais sombrio caos. Foi, também, no ano de 2002, que Fitipaldi foi convocado pela Comodoria do Clube a assumir a Direção da Escola de Vela, e então o conheci.  O Pedro, meu filho, ingressou na Escola de Vela. Assisti às formaturas dele Pedro nos quatro níveis ou fases que o curso compreende. Dava gosto assistir a essas formaturas. Em todas elas estava presente a vigorosa e emocionada palavra do Diretor da Escola.  Diante dos pais dos formandos, ele contava histórias, pequenas histórias, envolvendo os alunos que recebiam seus diplomas. Momentos alegres. Os pais se comoviam com suas palavras. Vi muitos pais chorarem ouvindo-o. Eram palavras verdadeiras. Palavras que transbordavam do fundo do coração desse  homem que, no curso dos anos, provocou um fantástico crescimento da Escola de Vela Barra Limpa e, por conseqüência, da flotilha de Optimist. (parágrafo) A Escola formava algo próximo de 120 velejadores ao ano. Já no primeiro ano de mandato de Fiti, esse número triplicou. Na flotilha de Optimist, havia uma meia-dúzia de velejadores. Hoje são 20. Somente o que se faz com entrega total, com amor e paixão rende bons frutos. Destaca-se a criação do Grupo Velejando,  pedido dos pais e idéia abraçada pelo Fiti. Ao findar o curso na Escola, são duas as opções: ou o pequeno velejador ingressa na flotilha ou no Grupo Velejando. A finalidade desse grupo é puramente lúdica. Vão apenas passear, acampar, brincar, jogar futebol, pescar, nadar. Ter aulas teóricas, nos dias de chuva ou vento muito forte, de assuntos diversos relacionados com Vela. Serão sempre acompanhados de instrutores em suas velejadas. A vela, enquanto competição, enquanto regata, não perde com isso. Pelo contrário. Dentre os "escoteiros" dos Velejando, diversos deles vão querer "brincar" correndo regatas. Teremos, com certeza, por via indireta, um crescimento maior da vela competitiva. Tenho a convicção de que essa idéia será um sucesso e que será, num futuro próximo, adotada pelas maioria dos Clubes que dispõe de escola de vela.

                        O mandato de Fiti guarda certa semelhança com as origens da Escola Barra Limpa. Barra Limpa era o apelido de um jovem velejador do Jangadeiros que perdeu a vida em um acidente de trânsito. Seus pais, cientes do bem que a Vela tinha feito para seu filho, decidiram construir a Escola de Vela no Clube. Tanto a direção de Fiti quanto a criação da Escola são conseqüências da paixão e da fé do homem nas crianças e jovens. Essas são as razões das realizações e do sucesso da Escola Barra Limpa.

                        Questão que resta decidir é se a Juliana vai para a Flotilha ou para o Velejando. Por ela, vai para os dois grupos. E agora?! Segura essa pitoca!!

            

Barco à Vela. Um belo texto

 

                       O texto que segue foi escrito em 1930. Um dos mais belos que  já li sobre a arte da Vela. Vale a reprodução.

 

 Barco à Vela 

Aqui na terra, a vida e aglomeração; lá fora, sobre as águas, está a liberdade. Aqui, o mundo nos acompanha demasiadamente, lá fora estamos sozinhos. Uma milha longe e nos encontramos num mundo exclusivo para nós, e que mundo ! Um mundo de águas, vento e céus. Um mundo de inesgotável e poética beleza. Um mundo lunático e caprichoso talvez, porém sempre nobre e cavalheiro; às vezes terrível, às vezes bondoso, triste a alguns, alegre a outros. Algumas vezes deprimente, ameaçador, louco e perigoso, porém sempre dando novamente a face,  jogando a partida com as cartas a descoberto. Este mundo das águas não se pode encontrar à bordo de uma embarcação a motor.  O motor leva consigo parte da costa e da trepidante terra. Um barco a motor ronca como o estridente barulho de uma cidade, vibrando ao compasso de uma era mecanizada;  e o que é pior, se perde a emoção do jogo como quando se usa dados falsos. Não.  O mundo das águas não se pode descobrir com um motor, mas sim com uma vela, pois aquele mundo de águas e céu, ventos e ondas não está somente ao nosso redor, senão que forma parte de nós mesmos. Se te combate também te estimula, és tu o motor, tanto como tua própria resistência, à salvaguarda ao mesmo tempo de teu inimigo. Das coisas construídas pelo homem nem uma é tão atrativa como um barco á vela, É algo vivo com alma e sentimentos próprios, obediente como um cavalo de sela, leal como um cão. Cada barco à vela tem um caráter individual, nenhum construtor conseguiu fazer duas embarcações exatamente iguais, as medidas podem serem as mesmas, a diferença está no temperamento. Os veleiros são ajuizados, demonstram uma profunda sagacidade tirada do vento e das ondas e transferem esta sagacidade a um timoneiro atento e cuidadoso. Sim, são ajuizados, porém se és mesquinho ou vil, covarde ou descuidado, soberbo ou cruel, podes estar seguro que tua embarcação o descobrirá. Quando em apuros na tempestade ou na adversidade, nenhum barco deixará de fazer o máximo esforço quanto lhe peça seu patrão. Talvez seja um esforço de pobres resultados, por ser um barco velho, podre e fazendo água como uma cachoeira. Porém sempre, até que suas desvantagens sejam demasiadas, entrará galhardamente na batalha. Ganhará se possível, senão morrerá lutando. Manejar esta gloriosa criação humana, ser seu dono e seu amigo, internar-se com ela no lindo e caprichoso reino do mar é a mais nobre e compensadora das artes. Porque dá mais do que se pode adquirir com dinheiro:  humildade e confiança em si mesmo, valentia e bondade, força e delicadeza . Este é o presente ao navegante. O canhonaço que anuncia sua vitória quando cruza em primeiro lugar a linha de chegada de uma empenhada regata, soa como música divina. O doce calor de seu interior, a uma milha a dentro do mar frio e cinzento é o mais confortável dos lugares.  Mar afora, quando estamos em nosso ambiente, sozinhos com nosso barco e com as estrelas, as preocupações da vida e da costa se reduzem rapidamente às proporções verdadeiras. O desporte do navegante nunca termina, tanto desfrutam os velhos como os jovens tanto é agradável no inverno como no verão, pois o frio ou o calor não opõe barreira alguma aos seus planos. Nunca se acaba de  aprender, aos que viverem mil anos não poderiam conhecê-lo  todo. A Arte da navegação à vela é tão antiga como a humanidade e tão nova como os caminhos da Lua.

                                                                     H. A. Calahann  -   1930

 

Escala Beaufort

 

                   É uma conhecida Escala que trata das forças do vento e seus efeitos sobre o mar.

 

Escala Beaufort

Força

Designação

Velocidade do Vento

Influência do Vento sobre o mar

Influência do Vento sobre as embarcações

m/seg.

km/h

nós

0

Calma

-0,3

-1,1

-0,6

Mar espelhado

nenhuma, barco parado e sem governo

1

Bafagem

1,1

4

2,15

Mar tranqüilo, pequenas ondas(escamas)

chega apenas para governar a um largo

2

Aragem

2,5

9

4,9

Ondas curtas e pronunciadas começam a quebrar-se sem espumas

suficiente para se navegar à bolina cochada sem panejar

3

Vento Fraco

4,3

15,5

8,4

o barco começa a inclinar para sotavento

4

Vento Moderado

6,3

23

12,4

ondas maiores formando muitas cristas pronunciadas

bom vento para navegar

5

Vento Fresco

8,6

31

16,8

ondas formando cristas na espuma por todas as partes , ao quebrar-se, produzem ruído carneirada vagas

necessidade de diminuir pano

6

Vento Muito Fresco

11,1

40

21,5

formação de ondas maiores a carneirada abrange grande superfície produzindo ruído surdo e retumbante, grandes vagas

rizam-se nos segundos os iates maiores, barcos menores requerem grande perícia de timão

7

Vento Forte

13,8

50

27

levanta grandes ondas o ruído é perceptível a grande distância, vagalhões

em alto mar, é preciso aguentar em capa seguida, no porto não sair

8

Vento Muito Forte

16,7

60

32,5

espuma em faixas espessas na direção do vento a altura das ondas e das cristas aumenta, principia o retumbar característico do mar, grandes vagalhões

é necessária a proteção de um porto ou entrar em capa seguida

 9

Temporal

19,9

72

39

se podem usar as velas de capa, procurar a proteção de um porto

10

Temporal Desfeito

23,3

84

45

ondas enormes e montanhosas as cristas se entrechocam carneiradas em fileiras densas na direção do vento, a superfície do mar embranquece, seu movimento é tempestuoso e imprevisível

é necessária a proteção de um porto

11

Tufão

27,1

98

53

ondas gigantescas, vagalhões de grande volume, quebram em todas as direções, mar todo branco

12

Furacão

+29

+105

+57

nenhuma embarcação resiste

 

 

 

O Primeiro Oestão do Pedro


Para a excentricidade só me falta o dinheiro, idéias idiotas eu já tenho.

                                                                          Jackson Busato

 

 

 

Rafael e Pedro

                     

     

      Dia 2 de Setembro de 2006. Uma ou duas vezes por mês, o Pedro me convida para velejar. Ele pegou o vírus da Vela. É um bichinho que fica hibernando no nosso sangue até que volta e meia acorda e começa a insistir inquietamente: quero velejar. Preciso velejar. Me leva para velejar. Nesse dia 2, o bichinho do Pedro estava agitado. Olhei pela janela e vi as folhagens das árvores se debatendo. O vento estava muito forte.  Quer convidar algum amigo para ir junto? - indaguei. Ele foi ao telefone e convidou o Rafael, o baixista de sua banda. A Luciane nos levou de automóvel. Desci em frente à Ilha dos Jangadeiros, próximo ao rio, para pegar um casaco que havia comprado na loja Equinautic. Antes de entrar de volta no automóvel, uma rajada de vento arrebentou a sacola plástica onde estava o casaco e arrancou os óculos de meu rosto, jogando-o ao chão.  Chegamos na ilha e fomos para o trapiche. Caminhando, o assobio do vento nos mastros e estaiamentos dos barcos, o tilintin de estais batendo contra mastros... sim, era dia de ventania. E ventania de Oeste. Vento inconstante, que atravessa o pampa, com fortes rajadas.

                O Pedro e o Rafael sentaram-se na beirada do trapiche junto do Lumar, e vi nos seus olhos uma indagação: vamos mesmo?  Entrei no barco e disse ao Pedro que colocasse o tormentin na proa e a vela grande toda rizada, enquanto preparava o interior do barco e procurava os salva-vidas. Era por volta de 3 horas da tarde. Chamei a torre do Jangadeiros pelo rádio e perguntei a velocidade do vento. Ventos de 35 a 40 nós foi a resposta que obtive. Beleza, fazia tempo que não velejava com ventos fortes e ali estava uma boa oportunidade para o Pedro ir se acostumando com eles.

                Aproximaram-se dois associados do clube. Reconheci um deles como sendo dono de um veleiro 30 pés. Nós aconselharam a não sair e nos disseram que o barco não conseguiria vencer os molhes, sendo que o vento e as ondas nos jogariam na praia, ainda mais porque estávamos sem motor. Sorri e disse que não se preocupassem. Em seguida apareceu outro sócio, o Fasolo, bem mais experiente. Percebi no seu olhar que estava contente e excitado em ver a saída do barco. Ele sabia que, bem conduzido, não haveria qualquer problema.

            Tormentin  na proa, vela grande no 2o. rizo, rádio ligado, comunicada ao clube nossa saída, os três com os salva-vidas, soltamos as amarras. O Tchezinho saiu em disparada. Venceu com louvor a saída dos molhes através do canal. Enfrentava as ondas numa orça apertada. Lá fora, já no rio, as ondas não estavam muito grandes, mas algumas rajadas bastante fortes que entravam faziam o barco deitar na orça, mesmo estando com pano reduzido. Velejamos em direção ao Sul. Numa rajada maior no meio do caminho, o barco adernou por volta de uns 70 graus e o Pedro comentou: , estamos de pé!! E quando o veleiro voltou ao normal: e agora deitados!!!  O Rafael nunca tinha velejado antes e demonstrou ser um rapaz de coragem, já que não vi nele manifestações de medo, o que teria sido perfeitamente normal. Tentei isolar a câmera fotográfica com plásticos para poder fazer algumas filmagens, mas não consegui, então filmei assim mesmo.  O problema é que quando vinha uma onda um pouco maior, tinha de protegê-la dentro da cabine para que ela não molhasse, já que algumas ondas jogavam água para cima do convés.  As melhores filmagens que consegui foram esta e esta outra. Adiante, tomamos o rumo da Ilha do Presídio. Demos a volta na Ilha e retornamos ao clube com o barco surfando em algumas marolas.

        Muito em breve, o Pedro estará velejando sozinho com o Lumar. Essas  experiências com ventos fortes são úteis para que ele aprenda a manter a tranqüilidade diante das forças da natureza. Quando ele tinha uns 12 anos e era um pitoco, pegamos a entrada de um temporal próximo ao Morro do Sabiá. Recordo que quando entrou o vento,  mandei-o até a proa para que baixasse a genoa. Ele foi. Lembro daquele pedaço de gente pulando para cima e para baixo na proa, se agarrando como podia nela,  que batia forte contra as ondas, mas absolutamente determinado e compenetrado em baixar a genoa. Aquela foi uma das passagens que me fez ver que gerei com a Luciane um menino dotado de muita coragem e tenacidade. Todavia, coragem sem serenidade e experiência não são suficientes, daí a razão de fazer questão que ele enfrente ventos fortes como esse do dia 2 de Setembro.

        O vento Oeste é muito inconstante. É vento de rajadas e que varia constantemente de direção. A razão disso é fácil de explicar. Os ventos Leste e Sul provêm do mar. Na superfície do mar são poucas as variações de temperatura. O vento percorre uma longa distância sobre o mar sem variações significativas da temperatura da superfície do mar.  Por essa razão, o vento possui maior constância. Contrariamente, os ventos que vem do Norte, Oeste ou mesmo Sudoeste, antes de chegarem no Guaíba, atravessam uma grande extensão de terras. O solo, não apenas por causa de seus aclives e declives, como também, e principalmente, de suas diferentes temperaturas de uma localidade para outra (matas e campos gramados esquentam menos que terras lavradas e cidades), produz efeitos ascendentes e descendentes (térmicos ou orográficos) sobre o vento, tornando-o instável tanto do ponto de vista de sua direção quanto de sua intensidade. Daí, no Guaíba, deve-se manter atenção à entrada das rajadas, folgando a escota da vela grande quando necessário. (parágrafo) Por outro lado, o vento Oeste não produz grandes ondas no Guaíba. A razão disso está em que de Oeste para Leste há pouca distância para as ondas crescerem. Menor ainda é essa distância se considerarmos apenas a parte mais funda do rio (ondas precisam de profundidade para crescer). Nesse dia 2 de Setembro, além do vento ser Oeste, o rio estava com o nível baixo, circunstâncias essas que provocaram ondas pequenas, não obstante a grande força do vento. Diversamente, quando o vento é Sul, as ondas do Guaíba se formam bem maiores. Não apenas porque dispõem de uma  distância maior, mas também porque essa distância é dotada de uma maior profundidade.

            É curiosa uma aparente contradição da Vela: ter pouco pano disponível significa ter mais segurança. É fato. Quando os ventos são  muito fortes, de nada serve um motor, é completamente inútil.  Ele não vence a força dos ventos e das ondas. Em contrapartida, um pequeno tormentin é capaz de manter um barco velejando sob o vendaval. Uma de minhas primeiras preocupações ao adquirir o Lumar, há três anos, foi mandar fazer um tormentin. Em seguida, um segundo rizo na vela grande. Uma grande genoa e uma vela grande sem rizos são completamente inúteis num vendaval.

             Corremos riscos nessa velejada? A julgar pelos olhares assustados daqueles dois velejadores que apareceram no trapiche antes de sairmos, sim, corremos. A julgar pela ausência  de qualquer outro veleiro no Guaíba, sim, corremos. A julgar pelo fato de que naquele mesmo dia um barco afundou em Ipanema e outro perdeu o mastro em Itapoã, sim, corremos.  Mas são todos julgamentos equivocados. Os riscos que corremos são aqueles riscos normais de estar vivo. Acho bem mais arriscada uma travessia de minha casa no bairro Mont'Serrat até o bairro Assunção de motocicleta para chegar até o Jangadeiros do que velejar no mau tempo. Com quase 50 anos, ainda ando de motocicleta. Isso sim, é uma completa insensatez. Sendo humano, sou insensato, que fazer?! Efetivamente, conheço bem o LUMAR, tanto quanto ele me conhece. Sei de seus limites. O que poderia ter ocorrido? Virado? Não creio, tinha pano reduzido e a escota na mão para ultrapassar as rajadas. Caído o mastro? Poderia, se não tivesse, ao entrar no barco no trapiche, conferidos todos os contrapinos que prendem os estais. Cair um raio sobre o barco? Até poderia. Mas tanto  improvável quanto cair um raio sobre um automóvel em uma estrada num dia de chuva. Batido em um uma pedra e afundado? Impossível, nos locais em que velejamos não havia pedras e, mesmo que existissem e que o barco afundasse colidindo com uma delas, não haveria perigo, já que estávamos de salva-vidas e relativamente próximos da praia por causa de uma corrente de mais de um nó e meio em sua direção.

            Não. Não corremos praticamente qualquer risco nessa velejada. Para velejar em ventos fortes, basta baixar o pano. O esforço geral do barco será o mesmo que velejar com ventos médios com todo o pano em cima.

 

Uma Noite no Arroio Petim

 

Na paz, os mais aptos são os moderados, os prudentes e os equilibrados. No caos, na anarquia, nas calamidades e nas guerras, os loucos levam larga vantagem.

                                                                                 Mederianas

 

 

 

 

         

Aproveitando o embalo da velejada no Oestão, no final de semana seguinte, sábado, zarpamos em direção ao Arroio Petim. Além do Pedro e do Rafael, foi junto o Walter. Saímos no final da tarde, motorando parte do trajeto por causa da falta de vento. Quando desligava o motor para aproveitar alguma brisa, o Rafael e o Pedro passavam a tocar violão e a cantar. Enquanto isso, o sol ia desaparecendo no horizonte. A noite se fez sem lua, escura. Acionei o GPS e a proa cortava confiante a escuridão, obediente às indicações daquele aparelhinho. O GPS nos levou até a entrada do Petim com precisão, evitando as bóias do canal da Riocel.

 

       

           

           

Subimos o arroio e encostamos o barco na margem direita, que é a Fazenda Itaponã, de propriedade do Marcelo, um amigo de outras eras. Deitamos o carvão no chão e fizemos fogo. Assamos dois pedaços de vazio. O churrasco ficou ruim, mas ótimo. Ruim porque a extensão do fio não era suficiente para que a lâmpada chegasse até o churrasco e, então, tivemos de assar a carne no escuro, com todos aqueles equívocos que isso provoca. Ficou ótimo, porque a fome, uma bárbara assadora, era muito grande.

            Lá pelas tantas, ouvimos sons de dois tiros vindos do Norte. Passou algum tempo e avistamos pessoas saindo com lanternas acesas da sede da Fazenda. Num primeiro momento, pensei que viessem em nossa direção, por isso dei alguns sinais de lanterna, como que querendo dizer: "viemos em paz". Depois, percebi que o rumo deles era o Norte. Conclui que estavam atrás de quem havia dado aqueles tiros.  Voltaram para a sede.  Deitamos para dormir no barco. Rafael e Pedro com os pés voltados para a popa, e eu,  para a proa. O Walter acomodou-se no meio. Após algum tempo, virei o rosto e dei de cara com a bunda do Walter. Ordenei: "Walter, tira o cu da minha cara!". O Pedro observou com precisão e sarcasmo: "Pai, esse barco é tão pequeno e apertado que se o Walter trocar de posição, eu vou ter de dizer Walter tira o cu da minha cara, e se ele trocar de novo, o Rafael é quem vai repetir Walter, tira o cu da minha cara." Estava tomando um gole de água e quase me afoguei rindo ao ouvir aquela bobagem. Como a noite foi muito fria, aproveitamos a manhã para dormir melhor, já que o sol esquentou a cabine.

 

Uma figueira centenária junto à sede da Fazenda Itaponã

           

           

Acordamos já eram umas 11 horas da manhã. Fomos a pé até a sede da Fazenda Itaponã, onde nos recebeu o novo capataz do Marcelo, o Juarez.  Nos contou que foi ele e um peão que foram à noite vistoriar a beira do arroio, já que também ouviram tiros, e que as vezes, ladrões roubam gado. Com uma pequena lanterna, eles se aproximam da rês, que não foge e fica imobilizada pelo facho de luz, e a matam com um tiro de revólver 22 na cabeça, que faz menos alarde. A seguir, cortam e levam os quartos dianteiros e as paletas em suas embarcações. O restante do bicho fica todo para trás. O problema é sério e tem causado prejuízos aos pecuaristas que tem campo limitando com o Guaíba. Quem faz isso não são os pescadores tradicionais, mas alguns desocupados que partem de locais diversos. Disse-,me também que não há qualquer problema em velejadores acamparem junto às margens do arroio e fazerem uma pequena fogueira. Pedem, apenas, que deixem o local limpo ao ir embora.

            Esse problema do abigeato nas margens do Guaíba merecia atenção de parte dos velejadores.  A prática atrai gente perigosa para o rio. Hoje são os bois, amanhã poderá ser nós. Seria interessante que fossem abertos canais de comunicação entre os velejadores e os fazendeiros da região, com vistas a um melhor controle de embarcações suspeitas. O Guaíba (tirando o delta) ainda está livre de assaltos a barcos. Não tenho conhecimento de qualquer incidente desse tipo do Cristal até a Lagoa dos Patos. Mas seria bom se houvessem ações preventivas, já que a cidade cresce e, com ela, a criminalidade.

            Retornamos no início da tarde com ventos constantes de Leste de 10  a 15 nós. O leme ficou a cargo do piloto automático. Me rendi por completo a essa modernidade.  Esse cara é mesmo fantástico! Dá para fazer de tudo enquanto ele mantém o rumo. Fiz um carreteiro para o almoço. Em duas horas aproximadas, estávamos de volta ao Clube.

 

Ode a um Piloto Automático

         

                      Dia desses me deparo com uma interessante mensagem enviada para um grupo de emails que reúne velejadores de todo Brasil.  É sobre um piloto automático que estragou, e  seu dono, Fabio Prado, procura a indicação de alguém que o conserte. É curioso como pegamos amizade por alguns objetos inanimados. Segue a mensagem.



Bom dia a todos,

Acho que é Alzheimer.

No começo, duro de admitir.
Está mais do que claro, mas me recuso a aceitar.

O velho Autohelm só pode estar acometido deste triste
e deprimente mal.

Tem hora que se lembra direitinho de suas funções,
Tem hora que simplesmente se nega a pensar.

Apesar dos aparentes sinais de vitalidade, percebo que
usando sua prerrogativa de velho senhor, age
com absoluta falta de lógica. Como se estivesse
gozando, parece estar num jogo.

Jogo de enlouquecer quem está junto, porque
simplesmente imprevisíveis são as suas ações.

Aí, acho que não tem mais jeito. Precisa descansar.

Mas não. Seria uma ingratidão.
Ingratidão desmedida.

Invadem o pensamento certas lembranças que
me impedem de lançar o amigo ao fosso das ariranhas.

E aquele sudestão empopado dia e noite
com ondas de 4 metros?
Quando o barco ficava na crista, quase na vertical,
começando a descer a onda, querendo atravessar,
ele adivinhava com precisão para qual lado
tinha que levar o timão...

Acertava sempre na mosca.

Trabalhou tanto, que ficou até rouco.
Verdade! Seu som mudou
naquela noite.
De barítono passou a baixo

Me perturba abandoná-lo, deixá-lo na sarjeta.

Sempre ouvi que a aposentadoria, a falta
de atividade é a porta de entrada para o reino
dos céus.

Do mesmo céu  onde esbraveja o Helio Setti,
seu antigo comandante, absolutamente contrário à
aposentadoria do companheiro.

Não. Não posso aceitar impunemente a idéia
e entregar os pontos.
Há que se ter esperança.
Afinal só visitamos um único médico.
Precisamos especialistas. Uma junta de especialistas.

Não se faz assim com um amigo desse calibre.

Vamos recorrer ao grupo.
E encaminhá-lo a quem possa tratar de sua saúde.

Hay que tener ternura.

A alguém que saiba onde posso levar meu
amigo a uma consulta, peço que se manifeste.

Bons ventos a todos,
 

Fábio - [email protected]
 

 

 

Ao Araçá Refletindo a Solidão

 

Todo o conhecimento humano, desde o filosófico, metafísico ou científico, até aquele que resulta diretamente dos sentidos, como visão ou audição, é apenas juízo de probabilidade.

                                       Mederianas 

 

 

           

            Dia 4 de Novembro. Ano de 2006. Atravesso caminhando e aborrecido a ponte que leva a meu barco na ilha do Jangadeiros. Meu filho foi passar uma semana na Ilha do Mel, em Santa Catarina, junto com amigos. É a primeira vez que fica tanto tempo longe de casa. Minhas filhas foram ao cinema com a Luciane. Resolvi aproveitar aquela lestada para passear até o arroio Araçá. Eram quatro horas da tarde. Reflito sobre minha tristeza e me invade a certeza de que não há razões para tentar escapar dela. Mais curativo é vivenciá-la. É uma pretensão boba querermos estar sempre satisfeitos, contentes, bem dispostos. Sou daqueles que pensa que o máximo que devemos almejar da vida é a uma boa e  razoável infelicidade. O que passar disso é ganho. O que é um homem feliz senão aquele que consegue ter uma vida razoavelmente infeliz, medianamente infeliz? A felicidade, salvo em alguns néscios e bobos, é experimentada em apenas em rápidos e passageiros intervalos da aflição em que consiste a vida. Estava só e sentia-me só. Chama-se solidão. Sentimento que quando chega não deve ser desviado, como não devem ser afugentadas as dores em geral. Porém, nem todos o suportam. Devemos aprender a aceitá-lo. Quem não suporta sua própria solidão não suporta a si próprio, já que a solidão é nosso encontro com nós mesmos. Nada mais melancólico do que não tolerar a própria companhia.

Ao entrar no barco, icei a genoa 2 e dei um rizo na vela grande. O vento estava relativamente forte. Desatraquei e parti em direção ao Araçá. Ao passar pela Ponta Grossa, aumentaram o tamanho das ondas que vinham do Leste. Cruzei pelo Graxaim, o novo veleiro do Luiz Fernando. Vi no timão o Gilberto. Estava também no cockpit o Roberto. Pessoal do grupo dos Cracás, do Jangadeiros. São bons amigos e costumam velejar juntos. Estavam vindo de Itapoã, conforme havia antes escutado no rádio. Voltavam um dia antes do previsto porque, na noite anterior, um dos tripulantes exagerara nos aperitivos e passava mal. Através do rádio VHF, sabe-se de tudo que se passa na vida dos outros veleiros. Boa aquela turma. Pessoal na faixa dos cinqüenta anos, que trabalharam muito durante toda a vida, e aproveitam agora para vivenciar a amizade. 

            O Graxaim já se avistava longe pela popa quando resolvi ingressar na cabine. Ali dentro, o balanço das ondas e o barulho das águas do Guaíba deslizando sobre o casco. O veleiro seguia firme, guiado pelo piloto automático, em direção ao arroio Araçá. A noite aproximava-se. Esquentava água para fazer um café quando aqueles sons transformaram-se em música. E, de música, tornaram-se vozes. E as vozes integraram-se numa só, calma, tranqüila, mas firme, que me indagou:

             O RioComo vais passando, rapaz?

Flavio – Tudo bom. Fazia um tempo que não aparecia. Já sei. Notaste que eu estava com algumas dúvidas e vieste me ajudar a esclarecê-las, certo? Como sempre.

O Rio – Isso mesmo. Além do conhecimento consciente, aquele que já se encontra ao alcance da humanidade num determinado momento, há o conhecimento inconsciente, o que já existe, mas que ainda não foi demonstrado e aceito. Para isso estou aqui, para falar dele.

Flavio – Pois bem. Estava pensando sobre solidão. Que tens a me dizer sobre ela?

O Rio – Para a correta compreensão da solidão, precisas primeiro entender o que eras antes de nascer e o que vais ser depois de morrer. Faço uma pergunta: não te parece razoável a compreensão de que o que eras antes de nascer será o mesmo que te tornarás  depois de morrer? Que do lugar de onde viestes é o mesmo para onde vais?

Flavio – Parece lógico isso. O que eu era?

O Rio – O que dizem por aí no mundo que eras?

Flavio – Tirando aqueles que dizem ‘que somos pó e ao pó voltaremos’, todo o restante se refere à alma ou espírito.

O Rio – Alma ou espírito...  é tudo a mesma coisa. É teu espírito ou alma que transcende desde os primeiros tempos. Antes do nascimento e depois da morte, o estado de espírito.

Flavio – Como tudo iniciou e como tudo termina?

O Rio – Num momento inicial, todo o Universo é extremamente pequeno. Ali, naquele lugar minimamente reduzido, estava tudo. Tudo o que seria criado após a grande explosão. Ali estava comprimida toda a energia que daria origem aos astros, ao espaço e aos espíritos. Naquele momento, todos os espíritos formavam um apenas. Era a comunhão universal espiritual.. Era a felicidade plena do espírito.

Flavio – E a seguir?

O Rio – A seguir, a grande explosão que deu origem ao Universo. Os espíritos, assim como a matéria representada pelos astros, dividiram-se em vários, em muitos distintos.

Flavio – E adiante?

O Rio –  Há um momento em que cessa a expansão e inicia a compressão. Adiante tudo voltará ao ponto inicial, ao ponto de partida.

Flavio – Em que momento estamos desse ir e vir?

O Rio – Em todos momentos. Há universos sendo criados, há universos expandindo-se, há universos retornando ao momento inicial. Tudo isso se dá a nossa volta, mas não se percebe completamente, porque são várias as dimensões do Grande Universo. São vários os Universos.

Flavio – E qual o porquê disso tudo?

O Rio –  Não sei. Foge ao alcance de meu conhecimento. Foge ao alcance da humanidade. Por enquanto, ao menos. Mas não foge ao alcance de outros seres que co-habitam o Universo.

Flavio – E o que é a alma ou o espírito?

O Rio – Vais encontrar nas religiões e filosofias as mais diversas respostas para essa pergunta. O que há em comum entre elas é que a alma sobrevive à vida. Outro ponto em comum é que ela evolui, na própria vida ou através de diversas vidas, melhorando, aperfeiçoando-se através da prática do bem até encontrar um local onde a felicidade é plena. Isso é o que há de comum nas diversas religiões e as religiões, como sabes,  contêm um conhecimento intuído pela humanidade, sendo que a intuição é uma das maneiras que temos de descobrir verdades.

Flavio – Certo. Mas, voltando àquela pergunta, sabes me dizer o que é exatamente o espírito?

O Rio – É algo muito simples de ser compreendido. O espírito é a tua identidade, teu “eu”. Só isso.

Flavio  Poderias explicar melhor?

O Rio – Se repartires tua mente em três seções, terás o consciente, o inconsciente e a identidade. Teu consciente são teus pensamentos, teus raciocínios, tuas idéias, teus projetos. Teu inconsciente é tua memória. Toda tua vida, mesmo aqueles fatos que não recordas, estão gravados no inconsciente. Todas as ondas que vistes em mim, desde que começaste a velejar no Lumar, estão gravadas no teu inconsciente. Mesmo as menores marolas, às quais não concedestes  nenhuma importância. Só o fato de as teres visto determina a  fixação na memória. Mas não são todos os fatos gravados no inconsciente que podem ser trazidos de volta à consciência. Apenas aqueles que foram gravados com maior impressão emocional podem ser recordados. O sono é teu inconsciente operando. Ele é assim mesmo. Assemelha-se a um filme, está sempre rodando. Mesmo quando estás acordado, teu inconsciente está em funcionamento. É ele que direciona teus pensamentos, teus sentimentos e teu humor. Os novos temas de tua consciência, da razão, se não vêm de uma causa exterior, vêm de uma interior, do inconsciente. Parte do inconsciente é herdada, já estava pronta quando nascestes, são teus instintos, por exemplo. Os instintos estão numa camada mais profunda do inconsciente.

Flavio – E a identidade?

O Rio – A identidade é teu “eu”, como disse. Ela é o teu espírito. O “eu” como ser distinto do inconsciente e do consciente, distinto da vida que se levou, distinto daquilo que se pensa, não tem sua existência percebida, ou diferenciada por muitos dos homens. Apenas algumas pessoas, com identidade mais intensa, são capazes de conhecê-lo e identificá-lo.

Flavio – Podes me ajudar a diferenciar minha identidade de minha pessoa?

O Rio – Talvez. Imagina que não tivestes nascido filho de teus pais, que tivestes nascido filhos de outros, que a história de tua vida tivesse sido completamente distinta da história a qual fostes submetido e a qual construístes Mesmo assim, essa pessoa continuaria sendo tu?

Flavio -  Sim, claro, como falaste no início da pergunta, fui“eu” quem nasci filho de outros pais..

O Rio – Ótimo. Claro para ti. Mas nem todas pessoas percebem isso. Muitos são os que confundem a sua identidade com sua própria história, com o seu temperamento, com sua personalidade, quando são coisas completamente distintas e independentes. A identidade é sempre a mesma, pouco importa a vida, ou a morte, que se teve.

Flavio – Na vida e na morte?

O Rio – Vou chegar lá. Sobre a identidade, há mais um aspecto que é importante que saibas. Ela é imaterial, ou seja, não é constituída por neurônios, como o são o consciente e o inconsciente. A matéria dela, ou energia, tanto faz, já que são a mesma coisa, está noutra dimensão. Se um cirurgião invadir a mente com seu bisturi no lóbulo frontal, ele irá tocar e perturbar teus pensamentos. Se direcionar o bisturi para a parte mais posterior, ele tocará no teu inconsciente, na tua memória, e poderá acontecer de fatos que há muito não lembravas te venham à consciência. Mas ele nunca conseguirá tocar na tua identidade, porque esta é uma energia que não se encontra na dimensão que o bisturi pode tocar. Essa energia tem sua maior concentração no centro inferior do cérebro  e se distribui por todo o teu corpo.

Flavio – Na vida e na morte...

O Rio – Antes de nasceres, eras a identidade. E depois de morreres, serás novamente a mesma identidade. Durante tua vida, tua identidade está imantada a teu corpo. Ela é permanente. Quando não está na vida, encontra-se vagando no espaço infinito juntamente com milhões, bilhões, trilhões de outras identidades. Estão todas lá na vastidão do Universo. Mas estão todas distanciadas umas das outras. Todas elas, pequenos pedacinhos da identidade única do início dos tempos, estão, assim como os astros, girando umas em torno das outras. Algumas são “superiores”: aquelas que estão mais próximas de seu destino, que é o retorno à comunhão universal, onde todas as identidades voltam a ser uma apenas. Essas identidades, ou espíritos, sentem, cada uma, o seu próprio nível de desconforto. O conforto completo só atingem quando passam a integrar a comunhão total. O desconforto é inerente à condição de ser distinta das outras, já que todos os espíritos buscam a comunhão.  A passagem pela vida é o único meio que os espíritos tem de se aperfeiçoar, ou seja, de se dirigir mais em direção ao próximo, ao outro, à comunhão. Quanto mais egoísta o espírito, maior é o  desconforto no mundo pré ou pós-vida, no outro mundo, já que mais distante ele se encontra de seu destino final. Não é para menos que, segundo certas correntes do cristianismo, o Inferno é a solidão total do espírito, e o Céu é a comunhão universal de todos os seres. O espírito se conecta ao corpo no momento da concepção. Inicialmente é apenas uma leve, mas definitiva conexão, que vai intensificando-se até ingressar completamente naquela criança que está por nascer. Quando o espírito está prestes a  entrar num corpo, é porque ele já vinha transportando por alguns anos essa forte vontade de retornar à vida. Os espíritos, embora não vejam, não toquem, não falem, nem pensem,  são capazes tanto de sentir desconforto quanto de possuir vontade. A vontade de chegar à comunhão é algo que prepondera neles e daí o desconforto de ainda não a terem alcançado e também o intenso anseio que sentem de virem à vida, já que esse é o único meio através do qual eles podem se aproximar de outros espíritos. Fora da vida não há oportunidade para a aproximação.

Flavio – Há como provarmos isso tudo?

O Rio – Não. Como sabes, sou o conhecimento coletivo inconsciente. Conhecimento que já habita esse mundo, mas que não se manifesta de maneira clara. Ele se desvenda através da intuição. Sei que andas meditando sobre intuição. Vais entender perfeitamente que conhecimento é esse.

Flavio – E sinais?

O Rio – Os sinais são vários. Esse tipo de conhecimento ainda não está “cientificamente comprovado”, como dizem os eternos, e indispensáveis porque são úteis, céticos. Mas será comprovado. E digo mais: a humanidade irá comprová-lo. Não será necessário uma nova etapa na evolução para que esse conhecimento fique ao alcance do homem. Mas depois que o homem comprovar isso, o mundo não estará todo descortinado. Muitas novas indagações continuarão sendo perseguidas, inclusive a grande dúvida, a maior dúvida, ou seja, o porquê disso tudo. Por que existimos? Por que o Universo foi criado? Existem seres no Universo que já têm essas respostas “cientificamente comprovadas”. Os homens ainda não. Quando tiverem a resposta completa das razões pelas quais existimos e  o porquê do  Universo ter sido criado, então, nessa etapa, o homem conhecerá também a Deus e seu real  significado .

Flavio – E os sinais?

O Rio – Nunca uma pessoa lhe comentou de recordar do tempo de antes de sua própria concepção?

Flavio – Não. Nunca... Ou melhor. Talvez... Lembro de uma amiga que tive na adolescência. De certa feita, ela, olhando para o céu estrelado, exclamou: ‘Que sorte eu ter nascido!’ Diante desse seu comentário,  indaguei: ‘És tão feliz assim a ponto de bendizer teu nascimento?’ Ela me respondeu: ‘Não me entendestes. É que recordo do que eu era antes de nascido. Eu era eu, apenas eu, com uma vontade imensa de viver. Só que eu concorria com milhares de outros idênticos a mim, que também queriam ser concebidos e voltar à vida. Dentre todos aqueles que esperavam, eu consegui, eu fui escolhida. Chegou, depois de uma longa espera, a minha vez, eu vim à vida.

O Rio – A lembrança dessa moça não é incomum. Diversas pessoas a conhecem. Mas por se tratar de uma experiência muito íntima, poucos são aqueles que a referem. Esse é um sinal. Vou te contar outro. Recentemente os físicos e astrônomos reconheceram, através da teoria das cordas, a existência de outras dimensões. Descobriram que existem outros Universos, que não percebemos porque não estão ao alcance de nossos sentidos. A teoria das cordas não descreve um mundo de três dimensões, mas muito mais. Os físicos já não se perguntam se outras dimensões existem. Eles questionam onde elas estão e porque não as vemos. Apenas matematicamente é possível constatar a existência desses outros Universos. Os cientistas descobriram agora o que teólogos e filósofos já sabiam há muito tempo. Aliás, sempre foi assim o avanço do conhecimento. Primeiro, os bruxos, os mágicos, os ‘charlatães’, descobrem, depois os cientistas comprovam. Quando se fala de “eu” e de espírito, estamos falando de matéria invisível, não perceptível pelos meios que estão ao alcance da humanidade no momento atual. Estamos falando de energia de outra dimensão. De energia capaz de persistir no cosmos após a morte do corpo.

Flavio – Outro sinal?

O Rio - Em 1927, o padre e cosmólogo belga Georges Lemaitre,  a partir das equações de Einstein,  propôs que os desvios espectrais observados em nebulosas deviam-se à expansão do universo, que, por sua vez, seria o resultado da "explosão" de um "átomo primeval". Surgia a Teoria do Big Bang. Atualmente é essa a tese mais aceita  pelos cientistas para explicar a origem do Universo. De que imaginas que são feitos os sentimentos, os instintos, as emoções e a própria identidade espiritual do homem? Respondo: são feitos dos mesmos átomos que compõem os Universos, já que, conforme referido, outros há em distintas dimensões. De onde surgem e para onde vão esses átomos? De onde surge e para onde vai o Universo. A identidade, assim como os sentimentos e emoções humanas, seguem os mesmos rumos do Universo.  Quando ele se expande  e quando se contrai.

Flavio – É razoável a proposição. Mais algum sinal?

O RioSão vários. Vou expor mais um. Algo mais além da mera coincidência explica o fato de que as mais diversas religiões e filosofias reconhecem a existência de algo que transcende a vida e que se destina a um lugar paradisíaco. O que explica essa semelhança é que há por trás de todas essas diversas hipóteses um substrato de verdade. Moksha, da filosofia hindu, refere-se  à libertação do ciclo do renascimento e da morte. É a transcendência do fenômeno de existir, de qualquer senso de consciência do tempo, espaço e causa. É a dissolução do senso do ser individual, ou ego, e a perda total da forma. No Budismo, há o nirvana, que significa ‘extinção’ ou ‘1ibertação’. Siddharta Gautama, o Buda, descreveu o Budismo como uma jangada, que após atravessar um rio, permite ao passageiro alcançar o nirvana. Na cosmologia budista, o  último reino é o dos deuses, deva, e é composto por vários níveis. Nos níveis mais próximos do reino humano, vivem seres que, devido à prática de boas ações, levam uma vida harmoniosa. Os níveis situados entre o vigésimo terceiro e o vigésimo sétimo são denominados Residências Ruras, sendo habitadas por seres que se encontram perto de atingir a iluminação e que não voltarão a renascer como humanos. No cristianismo tem-se o Inferno em contraposição ao Reino dos Céus ou Reino de Deus, que é a comunhão universal de todos os homens de bem. Mas não precisamos ficar apenas no que dizem as religiões. Vamos aos mágicos, aos bruxos. Platão, em Phaedo (Fédon), 80, D, E; 81, A,  cita Sócrates dizendo: ‘A alma . . . se ela partir pura, não arrastando consigo nada do corpo, . . . parte para o que é como ela mesma, para o invisível, divino, imortal e sábio, e quando chega ali, ela é feliz, liberta do erro, e da tolice, e do medo . . . e de todos os outros males humanos, e . . . vive em verdade por todo o porvir com os deuses.” Como vês, o conhecimento intuitivo vem de longa data. A mágica se repete no curso dos tempos. Goethe, o pensador alemão disse: ’Para mim, o maior dos suplícios seria estar sozinho no Paraíso’. Sozinho no Paraíso é o Inferno dentro do Céu. É sentir-se só junto a todos. É a separatividade na comunhão. Qual maior suplício pode haver entre o céu e a terra?

Flavio – Quando iniciamos a conversa, disseste que, para compreender a solidão, precisava primeiro entender o que eu era antes de nascer e o que vou ser depois de morrer, em outras palavras, disseste que primeiro eu deveria entender o significado da alma. Por que?

O Rio – Porque a vontade maior que move a alma é a mesma que move a vida, porque aquela está dentro desta. O que a alma busca são os outros para atingir a comunhão universal, o início e fim do Universo. A vida é a oportunidade da alma de buscar a comunhão. Quando o homem nasce, sua vontade de viver é extremamente intensa. É o momento de maior intensidade dessa vontade em toda vida, porque é ao nascer que o homem está mais próximo de seu estado de pura alma, de puro espírito, de vontade preponderante da comunhão, de vontade de viver para poder realizar a comunhão. Crianças amam muito mais a vida do que velhos. Crianças tem todo uma vida pela frente para realizar e construir o seu destino, e os velhos já realizaram grande parte dele. Crianças olham para o futuro, têm uma obra a realizar, já os velhos voltam-se para o passado, onde está sua obra realizada. Os velhos que, olhando para o passado, conseguem ver uma boa obra, estão mais preparados para morrer. A morte já não lhes assusta tanto, pois cumpriram sua missão. A busca pela comunhão pode ser sentida na forma de emoção, cujo verbo é amar. A vida é apenas instrumento para a realização da comunhão, e daí a razão de que o verdadeiro e maior instinto que move o homem é o instinto de comunhão. Instinto que direciona a identidade, o homem, no rumo de seu próximo. Se pensares a solidão dotado desse ponto de partida, poderás compreendê-la melhor. Entender porque é importante a companhia dos demais; porque é importante ficar só sem sentir solidão; estar junto de outras pessoas mantendo sua individualidade, sem ser possuído ou dominado; porque,  à medida que nos deixamos aproximar dos outros, nos aproximamos de nós mesmos; porque todo o sofrimento, toda dor decorre da perda  ou do receio da perda. Se entenderes  a solidão, poderás entender o motivo pelo qual, em algumas ocasiões, foges, receoso de teus semelhantes, ou os ataca com ódio. Enfim, se entenderes  a solidão, poderás ser mais feliz.

Flavio – Compreendo agora o que quis dizer Rachel de Queiroz quando afirmou que ‘a gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto viver acompanhado.’ Quando nascemos, estamos como que nos evadindo desesperadamente da solidão e, logo ali adiante,  ao adquirirmos a compreensão e a consciência da vida, nos defrontamos com a convicção de que nos dirigimos  inevitavelmente de volta à solidão,  à morte. Daí nossa sede do outro em vida, daí o instinto de comunhão.

O Rio – Pegou rápido, amigo. Por enquanto, é tudo o que tinha a te dizer.

Flavio – Obrigado. Volte sempre para me iluminar ou mesmo quando quiseres apenas conversar. Devo agora te dizer adeus?

O Rio – Sim. Mas mais uma coisa...

Flavio – O quê?

O Rio – Rios não falam.

Flavio –  Tens certeza?

 

            Ele não me respondeu. Deve ter ficado ponderando. Nada mais falou. Não me importei com isso. Ele sempre retorna. 

            Subi para o cockpit. Acendi um cigarro. Já estava escuro. Avistei ao largo dois pescadores num barco revisando a rede para ver se tinham pego algum peixe. Abanei e eles responderam acenando também. Quanto maiores as distâncias, mais os homens buscam a aproximação. O vento prosseguia forte. Eram por volta de dez horas da noite quando chequei no arroio Araçá. Na entrada, avistei um veleiro. Aproximei-me. Nele estava um casal. Passando junto ao veleiro, trocamos rápidas palavras sobre o tempo e sobre a probabilidade de aumento da intensidade do vento. Prossegui, pois não desejava me intrometer na intimidade deles naquele recanto. Adentrei 200 metros no Araçá. Fiquei em dúvida. Ancorar ou não? Dormir ali ou voltar para Porto Alegre? Não costumo fazer grandes planejamentos de meus trajetos. Rara é a vez em que saio do trapiche sabendo para onde vou. Normalmente, só depois de deixar o canal do clube e chegar no rio propriamente dito é que decido se vou para o Norte ou para o Sul. Naquele momento, não sabia o que fazer. Voltar a Porto Alegre ou dormir as margens do Araçá? Procurei ouvir a voz da vontade. Ela determinou voltar, sem me dizer dos motivos. Voltar era decisão por razões inconscientes. Voltar era o destino. Retornaria cozinhando uma massa com bastante molho, bem temperada, jantando e pensando sobre a conversa que tivera com o Rio. 

 

Retirante. Pintura de Kiko Medeiros

           

Nem todas pessoas gostam de ficar sós.  Sentem-se solitárias. Em especial velejando, já que na companhia exclusiva da natureza, um lugar incomum, a sensação de estar sozinho é intensificada. Prefiro velejar só, como alguns outros velejadores que conheço. São minoria, mas formam uma pequena tribo. De certa feita, um velejador  comentou que se sair para velejar sozinho, já na primeira hora estará discutindo em alvoroço consigo próprio. Apesar de não me considerar um insociável, ficar só com certa freqüência me é absolutamente indispensável. Tão importante quanto comer, beber água ou respirar. Levo muito a sério o imperador romano Marco Aurélio, que aconselhou: Assegura-te constantemente um tal retiro e renova-te nele. Nele encontrarás essas máximas concisas e essenciais; uma vez encontradas dissolverão o tédio e logo te hão de restituir curado de irritações ao ambiente a que regressas . Normalmente não me sinto só estando . Por outro lado, com certos tipos de companhia, muitas vezes sinto uma densa e profunda solidão. Isso me lembra o velho e cínico Montaigne, que dizia: “Bebo não para me tornar interessante. Mas para tornar interessantes as demais pessoas.” Quando estou só, divago. Idéias diversas, teses, bobagens, piadas, coisas com algum ou nenhum sentido transitam na imaginação. Me dou conta de que minha mente dispõe de temas diversos capazes de distrair minha solidão.          

            Isso não significa que nunca sinta solidão. Claro que já a senti. Várias vezes. A solidão extrema é uma das piores dores, se não a pior, que alguém pode sentir. São variadas as razões que levam a ela. Uma perda, um grande aborrecimento, uma tremenda injustiça. A solidão é o porto de destino de toda grande melancolia. Um porto  terrível. Em seu estado extremo, pode levar a delírios, a perda do juízo. Isso ocorre quando perdemos a capacidade de admirar,  de olhar para fora. Nada mais do mundo externo nos interessa. Perde-se o interesse e o contato com a realidade fora de nós mesmos. Ali adiante se perde a noção do próprio corpo. Os braços, as pernas passam a ser objetos estranhos. As idéias voltam-se cada vez mais para dentro de nós, a ponto de estranhar-se nossos prolongamentos físicos. Não há futuro. Todo o futuro é  ameaçador e tenebroso. Só o que interessa ao solitário é o passado. Fatos muito antigos são lembrados em detalhes e em perfeita ordem cronológica. Na solidão extrema, perde-se tudo. Nada mais há à volta. Resta apenas a própria alma que, sozinha, não se suporta. Sim, definitivamente, estar só é estar nas trevas.  O solitário se deita na cama e dela não mais consegue sair, como se esta fosse dotada de insuperável força de atração. A vontade não é suficiente para erguer o peso do corpo. Fecha as janelas do quarto. Não quer ver a luz do dia. Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz (Platão). Dentro de si é noite, e o dia, a luz, lhe ofuscam. Por efeito de contraste, qualquer luz torna ainda mais negra a própria escuridão, e daí o terror à luminosidade. 

            Ao ser concebido, o homem vem ao mundo sedento de comunhão. A seguir, experimenta por nove meses a integração com a mãe. Geralmente, não rejeição, uma comunhão confortável. O nascimento é um grande susto. A primeira manifestação de vontade da vida do homem é o ato de sugar um conteúdo líquido que aflora no seio a partir do interior da mãe. Sua primeira atitude é de buscar o reencontro com ela. Assustada, desesperada, a criança quer voltar.  Nasce repleta de instinto de comunhão. Da necessidade de unir-se a seus iguais. É muito interessante ver uma criança ser amamentada. Os olhos miram fixamente os olhos da mãe, que retribuem o olhar. Olho no olho. Intimidade completa. Nenhuma relação é mais forte, mais intensa que essa de mãe-filho. É nesses primeiros anos de vida, com o auxílio de uma boa mãe, que a criança iniciará seu aprendizado do amor.  Ela cresce e cedo adquire a consciência de que sua vida não será eterna. Adquire a consciência de que a morte estará, ao final, lhe esperando. Como veio de um estado de morte, de não-vida, traz a certeza, absolutamente correta, de que, com o fim da vida, retornará para onde veio: a solidão. Deus costuma usar a solidão para nos ensinar sobre a convivência (Fernando Pessoa). Essa consciência apenas reafirma sua vontade de aproveitar ao máximo a vida no sentido da aproximação de seus semelhantes. O sentimento de separatividade é a força motriz para abandonar a prisão da solidão (Erich Fromm) e assim,  a solidão busca a sua própria negação (José Machado Pais). A solidão é a profundeza última da condição humana. (...) Nascer e morrer são experiências de solidão. Nascemos sozinhos e morremos sozinhos (Octávio Paz, em Dialética da Solidão).

        A vida adquire sentido quando dela se faz uma preparação para a morte. Uma morte serena só é digna e só é ofertada àqueles que conseguiram doar-se em vida, já que tudo que se leva daqui é a lembrança que se deixa nos que ficam. E os que ficam serão as identidades que estarão a nossa volta quando eles também partirem. Quanto mais tivermos amado em vida, menos sós nos sentiremos na morte.  Sendo o da comunhão o nosso instinto mais elementar, tememos a solidão. Nosso terror mais essencial, mais primitivo, é o da solidão. Dele derivam todos demais receios, aflições, incertezas e angústias. Dessa maneira, quem busca a paz interior há de,  antes, vencer o receio da solidão. Ao contrário de outros temores,  esse não se supera indo  ao seu encontro, mas no rumo oposto. É preciso ir em direção à vida, em direção ao mundo que está fora de nós, no lado oposto de onde se encontra a solidão, fazendo-nos úteis e necessários a nossos semelhantes. Seja trabalhando,  amando e convivendo com alguém, seja fazendo e criando filhos, seja cuidando de nossos pais,  ajudando o próximo de qualquer maneira, é imprescindível nos despertencer. À medida que nos doamos às realizações coletivas, reduzimos nosso receio da solidão.

        Aquele que tem sua existência em pedaços repartidos e transportados cuidadosamente por outros não teme a solidão. E apenas quem não a teme é capaz de ficar só, circunstância essa absolutamente indispensável para nosso crescimento, já que é na solidão – quando tocamos nossa própria alma – que podemos nos rever com a mais absoluta liberdade, distantes de quaisquer regras ou convenções, o que nos possibilita nos transformar e melhorar. O problema da dor só pode ser resolvido enfrentando perdas e receios de perdas num comportamento ativo que busca o outro. Diferentemente do que se diz, nosso instinto mais fundamental é o instinto de comunhão. Para sermos felizes, devemos procurar nos comportar de acordo com esse nosso instinto. Quanto mais no interior estivermos de nossos iguais, mais no interior estaremos de nós próprios, já que os outros somos nós na medida em que a essência e a natureza da identidade que se encontra repartida entre todos nós é a mesma.

        No início dos tempos, a identidade era uma. Depois dividiu-se. Mas esse fracionamento não as tornou desiguais. Continuam todas umas iguais às outras, mas distintas pelo fracionamento. O fracionamento não importa em desigualdade, implica apenas separatividade. O outro sou eu. Por isso que é no fundo do olhar do semelhante que nos encontramos. Ama teu próximo como a ti mesmo, pois tu és o teu próximo. É ilusão acreditar que teu próximo é outro, e não tu (Radhakrishnan). A distância que nos encontramos de nós próprios é idêntica a que nos encontramos dos outros e quanto maior é ela, maior a nossa infelicidade e insatisfação. O apego provoca sim, sofrimento, como admitem algumas doutrinas filosóficas, mas só enfrentando com coragem a dor, podemos nos libertar do egoísmo e da solidão, que são as maiores causas da infelicidade. Quando estamos em comunhão com o cônjuge, com os filhos, com os irmãos, com os colegas de trabalho, com os amigos, não tememos ficar sós, porque estando sós não sentimos solidão. É absolutamente indispensável à felicidade aprendermos a não sentir solidão e isso só é possível com o estabelecimento de vínculos amorosos efetivos e intensos.  

 

Músicos. Pintura de Kiko Medeiros

Todos os nossos sofrimentos, angústias e dores resultam da não realização de nosso instinto de comunhão. Resultam da perda ou do receio da perda. Inexiste sofrimento que se deite sobre o divã da psicanálise que não se relacione com a perda ou com o receio dela. A perda de um parente. A violência sexual contra a menina,  que implica possibilidade da perda de sua capacidade amorosa e sexual  na vida adulta. O péssimo relacionamento no casamento, que resulta da possibilidade de perda do amor conjugal. O desemprego, que ocasiona a perda da capacidade de trabalhar em conjunto e em prol da coletividade. Até a dor física guarda relação direta com a perda. A natureza criou a dor física para nos proteger, sinalizando, da morte. E o que é a morte se não a perda de todas relações?   

Por outro lado, buscar a comunhão não significa o excesso de relacionamento social, já que esses excessos, muitas vezes, são sinais de que a pessoa não consegue ficar sozinha, foge de si própria, foge da solidão. Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças, pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão (Arthur Schopenhauer). Pessoas de vida social intensa, muitas vezes, estão fugindo do encontro consigo mesmas. Da possibilidade de concretização do amor origina-se o risco do abandono. O medo de amar decorre do receio da perda. Muitas vezes, algumas pessoas, não sabendo amar e se fazerem amadas, buscam ser admiradas. O que de nada serve, porque a admiração provoca também a inveja e está, por sua vez, o ódio, quer dizer, o desamor. Se queres ser amado, sê modesto; se queres ser admirado, sê orgulhoso; se queres as duas coisas, usa externamente a modéstia e internamente o orgulho. Mas o próprio orgulho pode ser modesto, raramente se deixando ver, e nunca se deixando ouvir (Will Durant, em Filosofia da Vida).

Essas pessoas acabam sendo possuídas pelos outros. Abrem mão de sua individualidade, transformando-se em pessoas estranhas para si próprias, sempre na dependência dos outros.  Procuram estar sempre na moda, sempre conforme as últimas idéias e convenções de última hora. Quem não souber povoar a sua solidão, também não conseguirá isolar-se entre a gente (Charles Baudelaire). Falta-lhes ficarem sós, falta-lhes sentirem-se sós, falta-lhes solidão. O temor que sentem da solidão é o mesmo que sentem de seus semelhantes, já que suas relações são estabelecidas de forma superficial, num comportamento defensivo, atitude de todo aquele que receia se entregar,  que teme amar, formar vínculos intensos e efetivos.

À medida que  aprendemos a amar o próximo, aprendemos a amar a nós mesmos. Essas pessoas devem esforçar-se para estabelecer vínculos verdadeiros com seus iguais, imobilizando o temor que as separa da comunhão. É verdade que algumas lutas exigem forças que parecem estar fora de nosso alcance e que todo o esforço será em vão. Mas é preciso lutar. A felicidade não está ao alcance dos pusilânimes. Onde não há coragem, a felicidade é impraticável. As forças do destino, das correntes, das marés, são potentes, não raro violentas, mas não são completamente invencíveis. Temos, sim, maneiras de construir e reconstruir nossos destinos. Apercebo-me dos meus erros, mas não os corrijo. Isso só confirma que podemos ver o nosso destino, mas somos incapazes de o mudar. Apercebermo-nos dos erros é reconhecer o destino, e a nossa incapacidade para os corrigirmos é a força do destino (Alexander Puschkine, em Diário Secreto). É a esta incapacidade de nos corrigirmos que não podemos sucumbir. 

            Demorei mais da metade da viagem de volta preparando a massa. Assolado - e devastado -  por essas reflexões sobre solidão, não percebi o tempo passar. O preparo do molho não foi fácil. Cortar as cebolas dentro da cabine me fez chorar. Foi só passando a Ponta Grossa, já próximo do Morro da Serraria, que a massa ficou pronta. Ficou suprema. Deliciosa mesmo. Minha janta durou até a aproximação do Morro do Sabiá. Em seguida, estava de volta ao clube. Já eram umas três ou quatro horas da manhã. Fui para casa. O Walter me esperava deitado à soleira da porta. Tomei um banho, deitei e dormi.

 

O Piloto Automático

 

 Não são as idéias que devem dominar e render aquele que se propõe a desvendar os mistérios da natureza humana. O inverso.

                                                                                                                                 Mederianas

           

Aos poucos, vou aderindo às modernidades. Neste ano, adquiri um piloto automático. Sem qualquer sombra de dúvida, uma das aquisições mais proveitosas que fiz para o Lumar.

             Antes, quando desejava largar o leme para poder me ocupar com outras coisas, ou mesmo para não fazer coisa alguma, precisava amarrá-lo. Mas o problema é que não é em qualquer posição que dá para amarrar o leme. Em geral, os barcos com o leme preso só mantêm o rumo se estiverem orçando ou no través. Se velejando a favor do vento, na posição ¾ (com o vento pela alheta) ou em popa, de nada adianta amarrar o leme, pois o barco sai de sua posição em relação ao vento.

 

O piloto em funcionamento

 

             Nem todos veleiros são assim. Mas a imensa maioria o é.  Joshua Slocumque deu a primeira volta ao mundo num pequeno veleiro no final do século IX, em sua clássica obra Sozinho ao Redor do Mundo, conta que seu veleiro Spray, uma vez com o leme amarrado, mantinha o rumo, independentemente se estivesse orçando ou empopado. Creio que isso acontecia por ser um veleiro de 36 pés, bastante pesado, com quilha longa, dois mastros e tanto no centro do barco quanto na proa e na popa. Esse conjunto de circunstâncias o dotava de uma excepcional estabilidade no rumo. A propósito, Slocum tinha muito orgulho do Spray em razão dessa possibilidade de amarrar o leme. Naqueles tempos, não tinham sido inventados nem o piloto automático nem o leme de vento.

             O fato é que para quem veleja por várias horas, ficar todo esse tempo segurando o leme é bastante cansativo. O velejador fica preso, deixando de fazer um monte de outras atividades a bordo. Se tiver outros tripulantes para dividir o tempo de timão, tudo bem. Mas quando se está sozinho, a coisa complica. Outras atividades a bordo? Ora, um monte. Costurar velas, fazer pequenos reparos no barco, fazer um café, cozinhar, ler um livro, dar um rizo na vela grande, trocar a genoa ou mesmo deitar e descansar olhando a paisagem. Há muito mais tarefas interessantes a se dedicar a bordo do que ficar cativo ao leme.

             Pilotos existem em diversas potências. Quanto maior o barco, mais potente deve ser o piloto. Seu funcionamento é bastante simples. É portátil. Pode ser desinstalado e guardado a qualquer momento. Uma vez instalado, seu corpo fica preso ao convés do barco e seu braço segura o leme. É elétrico e deve estar conectado a uma corrente de 12 volts. Uma vez instalado, coloca-se o veleiro num determinado rumo e aperta-se o botão de acionamento. O veleiro manterá sempre este rumo. Existe uma bússola magnética dentro do piloto que fará as correções. Quando o veleiro, em função dos ventos e das ondas, sair daquele rumo pré-determinado, o braço do piloto entra em ação e movimenta o leme fazendo que o veleiro volte a seu rumo inicial. Além do botão para acionar o piloto, existem outros cinco. Um para mudar o rumo em +10 graus. Outro para diminuir em – 10 graus. Um terceiro botão para mudar o rumo em +1 grau. O quarto para alterar o rumo em – 1 grau. E o quinto botão para “desligar” o piloto, travando o braço. O consumo da bateria é pequeno. Com uma combinação dos botões, pode ser reduzido o consumido, o que torna o piloto mais lento, menos sensível, com respostas mais lerdas. Duas outras combinações dos botões permitem alterar o rumo em + 90 graus ou em – 90 graus, o que é útil para virar o bordo.

             Os pilotos atuais ainda são relativamente lentos quanto à movimentação do braço. Disso resulta que com ventos fortes e muito pano, a resposta do piloto fique atrasada. O piloto corrige o rumo, mas corrige muito lentamente, o que pode implicar não apenas numa arribada indesejada como numa atravessada na onda se o veleiro estiver em popa. Com o desenvolvimento da tecnologia, esse problema dos pilotos deverá ser resolvido. Enquanto isso, diante de ventos fortes ou se baixa o pano ou se pega no leme. A demora dessa resposta é uma das razões pela quais, em grandes travessias no mar, a preferência é pelo leme de vento. A resposta é mais rápida e enérgica nos ventos fortes. Além disso, ele não consome energia, apenas vento.

             Para rios, lagos, velejadas não muito longas na costa do mar, o piloto automático é mais vantajoso se comparado ao leme de vento. É que a regulagem do automático é mais rápida e simples. Outro motivo é que o leme de vento constitui  uma verdadeira traquinana na popa do veleiro. Uma terceira razão diz respeito ao preço. E a quarta e última está em que, pelo que sei, não existem fabricantes nacionais de lemes de vento.

             Resta acrescentar que, para aqueles que velejam sozinho, o piloto automático constitui fator de segurança, já que equivale a ter mais alguém a bordo. Enquanto o automático está lá encarregado da direção, o velejador pode conferir a carta náutica, examinar os rumos, os obstáculos a frente, trocar uma vela e outras atividades indispensáveis a uma boa navegação. Dessa maneira, o piloto não é apenas um fator de conforto.

             Já velejei em circunstâncias em que me vi obrigado a ficar dois ou três dias segurando o leme. É muito estafante! Never more!

  

GPS

Se as coisas são inatingíveis... Ora, não é motivo para não querê-las. Que tristes caminhos, se não fora a presença das estrelas."


                                           
Mario Quintana

 

 

GPS da marca Garmin 

           

            Ainda me rendendo às modernidades, acabei por adquirir o tão falado GPS. Aparelhinho extraordinário! Creio que surgiu em meados da década de 80. Esse sistema de localização via satélites foi desenvolvido pelos norte-americanos para fins militares. Adiante, eles resolveram disponibilizá-lo ao público. Aleixo Belov, o primeiro brasileiro que deu a volta ao mundo num veleiro em solitário, no início da década de 80, não dispunha dele. Belov navegava tendo por referência as estrelas. Ele precisava captar o exato momento em que o sol desaparecia no poente, o que, com ondas, não era fácil e, em dias nublados, impossível. Fazia navegação estimada. Vale dizer, estimava onde se encontrava, mas nunca sabia ao certo. Impressiona, de certa forma, que pouquíssimos anos a navegação em alto mar era feita de maneira tão rudimentar. A margem de erro do GPS, fornecendo a latitude e a longitude, é muito pequena. Ouvi falar que dificilmente passa de 150 metros.

 

Página dos Satélites

           

Mas vamos ao seu funcionamento. O aparelhinho dispõe de uma tela. Ao ser ligado (12 volts), aparece na tela a primeira página, mostrando os satélites sendo conectados. Dentro de casa ou embaixo de copas densas de árvores, ele não consegue localizar os satélites.

 

 

Depois disso, aperta-se a tecla PAGE e vai aparecer uma nova página.  Essa página contém o rumo magnético do veleiro, sua velocidade, a altitude, a latitude e a longitude.

 

 

 

Página do traçado onde aparecem os waypoints

 

Clicando novamente em PAGE, ele vai mostrar o traçado do rumo já realizado pelo veleiro e também os WAYPOINTS mais próximos desse rumo. O que é WAYPOINT? É um local qualquer em que o usuário fornece ao GPS a sua latitude de longitude. Uma pedra no meio do rio, por exemplo. Fornecendo ao GPS as coordenadas dessa pedra, ele passa a mostrá-la na tela juntamente com o traçado que o veleiro está fazendo.

 

 

Página de Navegação: Araçá é o Waypoint destino. BRG (rumo em graus do Araçá) DST (distância do Araçá) TRK (rumo em graus da embarcação) VEL (velocidade) ETE (tempo de demora para chegar no Araçá). A fotografia foi tirada dentro de casa (sem a localização dos satélites e por isso os campos encontram-se não preenchidos).

 

 

Clicando novamente na tecla PAGE, o GPS vai para para a mais útil de suas páginas, que é a página de navegação. Para que todos os dados sejam preenchidos, deve-se clicar no botão GOTO. Uma vez acionado deve-se selecionar um WAYPOINT, vale dizer, um local qualquer para onde se queira ir e cujas coordenadas já havíamos fornecido. Clica-se, por exemplo, no WAYPOINT Araçá. A seguir, clica-se em ENTER, e daí o GPS retorna para a página de navegação. Nessa página estará visível o nome do WAYPOINT, no caso ARAÇÁ, a distância que nos encontramos dele, o rumo em que o veleiro está navegando, o rumo que o veleiro deve navegar para ir direto ao Araçá, a velocidade do veleiro e o tempo que vai demorar para chegar ao Araçá. Quando aumenta o vento, aumenta a velocidade indicada no GPS e, imediatamente, diminui o tempo previsto do trajeto. Diminuindo o vento, reduz a velocidade e aumenta a previsão da demora para a chegada. (parágrafo) Apertando novamente a tecla PAGE, vai aparecer a página do MENU PRINCIPAL. Essa página contém as mais diversas funções. É só ir clicando ENTER para ingressar numa função ou QUIT para voltar à página anterior. É no MENU PRINCIPAL que vai ser encontrada a função WAYPOINTS onde se pode fornecer diversos waypoints ao GPS. Outra importante função do MENU PRINCIPAL são os AJUSTES DO MENU. Ali podem ser feitos diversos ajustes, inclusive programar alarmes diante da aproximação de certos waypoints.

            O aparelho funciona com pilhas recarregáveis. Pode ser ligado, com um cabo especial,  à bateria 12 volts do barco. À noite, a tela dispõe de luminosidade para que se possa enxergar suas informações. O aparelhinho é muito útil. Até mesmo para quem navega no Guaíba. Recordo que numa noite, voltava da Lagoa dos Patos, já tinha adentrado o Guaíba e estava no rumo da Ponta do Salgado. Naquele caminho há uma pedra semi-submersa que fica a uns 400 metros do canal de navegação. O que fiz para evitar essa pedra? Dei as coordenadas dela para o GPS e, a seguir, acionei a função GOTO (IR PARA) e determinei que fosse no rumo da pedra. Quando me encontrava a aproximados 300 metros do “destino”, desviei 30º  e,  dessa maneira, evitei a pedra.

            Existem ainda os tais dos DATUMs. Datums são “regulagens” ou “calibragens” do GPS.  Cada Carta Náutica é feita para um determinado datum. A maioria das Cartas do mundo são feitas para o DATUN WGS-84.  O DATUM das Cartas Náuticas do Guaíba e da Lagoa dos Patos é o CORREGO ALEGRE. O datum padrão do GPS é o WGS-84, já que a maioria das Cartas Náuticas do mundo é feita para esse datum. Para selecionar o DATUN no GPS utiliza-se a página do MENU PRINCIPAL. Caso se utilizar o DATUM WGS-84 nas Cartas Náuticas do Guaíba ou da Lagoa dos Patos, o ponto marcado na carta vai estar 0,04' MN para o sul e 0,15' para o oeste. O erro é muito pequeno e se não for feita a correção, não se deixa de chegar ao destino pretendido, pois que 0,15 MN equivale a  277,8 metros, o que não é muito para quem está percorrendo grandes distâncias.

             Já existem GPSs que podem ser acoplados a computadores a bordo e, nesse caso, pode ser vista na tela a Carta Náutica e a posição da embarcação. Cada vez se torna mais fácil navegar.

             Sem dúvida trata-se de um briquedinho fantástico. Extremamente útil. E mais um importante fator de segurança numa velejada. Para a Lagoa do Patos, é indispensável.

             De qualquer maneira, é sempre bom lembrar que nada substitui a experiência do marinheiro aliada aos seus cinco sentidos, especialmente visão e audição, e a sua inteligência e bom senso.

 

Cruzeirando com o Bety Bupp

 

 Comer cachorro quente do Rosário e etiqueta são incompatíveis.

                                     Pedro Medeiros

    

Nesse lugar no qual sabemos muito pouco ou quase nada de onde viemos, onde estamos, porque viemos e para onde vamos, me causam espanto – e profundo e íntimo desrespeito – todos aqueles que são capazes de se levar a sério ou de se conceder qualquer importância.

                                        Mederianas

 

           

            Dia 2 de Fevereiro de 2007.  Feriado de Nossa Senhora dos Navegantes. O Lumar está machucado. Quebrou o mastro. Está fora da água, já que estava na hora de repintar o fundo, o que se faz de três em três anos.

 Depois de comermos sentados na calçada um delirante cachorro quente do Rosário de almoço, estávamos eu e o Pedro no clube. Sol forte. Calor daqueles! Tive uma idéia. Pedro, vamos velejar? Indaguei. Como, se o Lumar está em terra? Perguntou ele. Vamos com o Optimist de tua irmã. Respondi. Mas o Optimist da Juliana não é submarino, pai!  - ironizou. Vamos lá! Vamos ver. Talvez ele não afunde. E lá foram meus 105 kg de quase 50 anos acompanhados dos 55 kg dos 15 anos de meu filho anos preparar o Optimist para colocá-lo na água.

 Estávamos com o barco na água, com o leme já instalado, junto à rampa, prontos para subir no pequeno veleiro de 2 metros de comprimento por 1 de boca (largura), e alguns funcionário que estavam próximos da rampa riam. Bobalhões! Depois do Pedro subir e sentar no bordo de sotavento, subi rapidamente pelo barlavento. Abaixamos a bolina e o barco saiu  velejando de través. Flutuando! Apertamos a orça. Estávamos meio desconfortáveis e procurando posições em que nos ajustássemos melhor dentro daquele reduzido espaço. Tudo ia muito bem. O vento era fraco. Ia muito bem até quando tivemos de virar de bordo. Daí foi confusão. A retranca, muito baixa, atrapalhando tudo. Solta o burro! Lá pelas tantas, na virada de bordo, colocamos peso demais para o barlavento e começou a entrar uma cachoeira de água para dentro do barco por cima da borda. Para o outro lado, para o outro lado! O veleirinho recuperou rapidamente o equilíbrio. Mas ficou com água pela metade. O Pedro, ex-optimisteiro experiente, pegou a caneca e começou a jogar rapidamente água para fora. Olha o vexame perto do Clube, meu filho! Olha o vexame! O que vão pensar de nós? Que somos de primeira viagem!!!

Já com o bordo trocado, o veleiro reequilibrado e com água suficiente apenas para refrescar a bunda, aproamos a Ilha do Presídio. Eu ia sentado no fundo do casco, na popa, segurando o leme, no barlavento. O Pedro ficou mais próximo à proa, sentado no bordo, junto da bolina, no sotavento. Foi a melhor maneira que encontramos de equilibrar a embarcação. Dessa forma, ficaram 105 kgs na popa a barlavento, e 55 kg mais para o lado da proa, a sotavento, para onde o barco tende a inclinar com a força do vento na vela e no mastro. Na volta, trocaríamos essas posições, dividindo a pior acomodação, a da proa, meio a meio, com justiça. Resolvemos dar o bordo até a cidade de Guaíba, com planos de lá comermos sorvete.

 

Algumas vezes passeio de barco com essa menina

 

 Fiquei estupefato com a flutuabilidade do pequeno Optimist. Raciocinando um pouco – o que é útil algumas vezes – conclui que essa grande flutuação está relacionada com sua boca que é grande de fora a fora, ou seja, de proa a popa. A popa é bastante larga e a proa, pelo fato de não partir de um vértice (como todos os barcos) mas de uma borda (o Optimist é uma espécie de caixote sem bico de proa), também alarga em seguida. O costado forma um ângulo de 90 graus em relação ao convés. Ou seja, é muita área de casco “pisando” na água e este é o seu grande segredo em termos de navegabilidade, com pouco arrasto sob a água. Dá para se dizer que o Optimist é um bom caixote flutuador. Se a idéia era a de fazer um barco pequeno com um máximo de flutuação, o projetista (se é que teve um) acertou em cheio.

 O vento estava de Sudeste e com velocidade em torno de 15  nós. Estávamos nos aproximando da Ilha do Presídio quando, exigindo nosso direito de preferência, cruzamos a proa de um veleiro 36 pés que orçava do Norte em direção Sul. Preferência concedida (ou não fomos vistos), atravessamos a proa do veleiro. A seguir, deixamos a Ilha do Presídio a sotavento. Ultrapassada a ilha, arribamos e passamos a dar pequenas surfadas nas ondas.

Sem muito o que fazer, a não ser dizer besteiras, bobagens e asneiras em geral, o Pedro, que estava na proa olhando para as ondas que se aproximavam pela popa, me advertia do tamanho delas. Lá vem uma onda de 8 metros. E te prepara que as seguintes são uma série de 12 metros cada uma! As tainhas davam saltos faceiros pelo Guaíba. Acabo de ver um peixe voador! Adiante, ainda empopados, cruzamos um peixe boiando, gordo, inchado, morto. Cuidado, DESVIA, uma baleia dormindo!!!  Eu e o Pedro havíamos resolvido antecipar nossa travessia ao Horn e já estávamos lá. PAI!!!! VEM UMA ONDA DE 20 METROS ESTOURANDO!!! CADÊ OS CINTOS DE SEGURANÇA!!!  Pôxa, dessa vez o grito e a emoção dele foram tão intensos que me assustou de verdade!! Mas, graças ao bom Deus, foi surfando que vencemos aquela onda fantástica que jorrava água de seu topo como uma enorme cascata.

Fiquei a pensar o que sentem  crianças de 8 anos velejando esses pequenos barquinhos com ventos de 20 nós no Guaíba. No Optimist não se vê as ondas de cima como em outros veleiros. Elas são vistas de baixo. A partir da cava, para ser mais preciso, um ponto mais abaixo do nível médio do rio. As ondas de metro e meio a dois do Guaíba, aos olhos dos pivetes, devem mesmo se transformar em enormes e assustadores vagalhões. Foi quando o Pedro interrompeu meus pensamentos: PAI!!! UM ICEBERG!!! Passamos tangenciando a bóia do canal dos navios que fica a Noroeste da Ilha do Presídio. Passado algum tempo, já havíamos cruzado o Horn e indaguei ao Pedro que distância faltava para chegarmos na latitude 40º, onde estaríamos safos daquelas loucas e enfurecidas frentes frias das baixas latitudes. Pedro me informou que devíamos estar a apenas uma milha da cidade de Guaíba. Como falei do Horn muitas vezes para o Pedro, de certa feita, ele comentou que o sonho de minha vida era morrer esborrachado contra os penhascos do Horn. Noutra oportunidade lhe indaguei se eu fosse ao Horn se ele iria junto. Me disse que sim, já que alguém tem de cuidar do velho maluco.

 

O famoso e temível Cabo Horn. A mais difícil travessia do mundo. O Everest dos mares.

 

 Nos aproximamos em través da praia de Guaíba. Bem próximos, surfando a 3 nós, no momento exato, o Pedro sacou a bolina e eu desprendi o leme. Aterrissagem perfeita sobre a areia. Puxamos o barco para cima da praia. Tiramos o mastro para não deixar a vela panejando ao vento, com riscos de rasgar. Havia uma grande movimentação por ali. Era a preparação para a festa da Nossa Senhora dos Navegantes. Tinha palanque. Grandes bandeiras sendo colocadas na praia. O povo desfilando pela passarela. Música. Um louco dançando em frente aos alto falantes. Subimos na calçada, sob a vista de olhares curiosos, atravessamos a rua e nos dirigimos direto à sorveteria. Aproveitei para comprar um maço de cigarros, já que o anterior havia ficado imprestavelmente molhado. Que esse barco encha de água e vá a pique e que tenhamos de ficar umas duas horas boiando de salva-vidas pelo Guaíba até chegarmos a uma praia... tudo bem. O brabo seria agüentar todo esse tempo sem fumar! Foi o que havia argumentado enquanto navegávamos.

 Comemos dois copos gigantes de sorvete cada um. Afinal, merecíamos nos alimentar substancialmente depois da travessia do Horn. Não ficamos muito tempo na cidade. Em seguida, retornamos ao barco, dispostos a voltar. Colocamos o Optimist na água. Instalei o leme. Subimos. Saímos orçando no rumo do Jangadeiros. Estávamos a uns 30 metros da praia quando achei que já havia profundidade suficiente para baixar a bolina. Baixei. O barco estancou imediatamente. Não era  tão fundo quanto pensei. A bolina encostou no chão.  O veleiro aproou o vento. Retranca na cabeça. Escota amarrada nos pés. O barco bate e sacode com as ondas. O Pedro se desequilibra e TBUMMM!!! Caiu na água! Homem ao mar! O veleiro quase vira. O Pedro se levanta. O nível da água sequer bater no saco. Que vexame!! Tenho a impressão de ter ouvido algumas gargalhadas na praia. Ufa, ainda bem que estamos longe dos trapicheiros do clube! Resgatado o Pedro, assumimos novamente o controle da embarcação.

O retorno foi um pouco menos emocionante, já que o vento diminuiu bastante. Deve ter caído para 10 nós. Sem grandes rajadas, grandes ondas e emoções, ingressamos numa fase mais meditativa. Tenho a convicção de que uma das funções de nós, pais, é a de passar a nossa experiência para os filhos. Experiência conta muito. Afinal, se uma pessoa com 50 anos não aprende coisa alguma para passar aos filhos durante todo esse tempo, é um verdadeiro inútil. Entre outros temas, debatemos o pum. Expliquei-lhe que os puns dos moços são mais agudos. Eles fazem um som Ttrrrraaaackkkkk.  À medida que o tempo vai passando, a bunda vai arriando, e daí os sons passam a ser mais graves, num estilo mais frouxo, mais cansados vamos dizer assim. Os sons passam a ser BBBllllluuuuuuuuppppplllllluuuuppppp. Como a vida não é apenas teoria, passamos a fazer alguns testes. Mas isso não é definitivo - prossegui explicando a meu filho – e aproveitando para fazer a defesa do mais velhos. Dá para estabelecer um determinado controle sobre os sons dos puns. Mesmo um senhor, já afrouxado, com um pouco de treino e técnica,  pode apertar e criar uma nota aguda. Talvez uma nota Sol. Talvez Lá. Si, não. Si, só crianças e jovens. E assim, a travessia foi passando. Pedro é músico. Ensinou-me que todo e qualquer som é emitido numa determinada nota musical. Conhecimento interessante.

 Já a uns 1000 metros do Jangadeiros,  aproximou-se a lancha do clube com o marinheiro Jefferson no leme. Deu a volta no Optimist e parou ao nosso lado.  Contou que haviam lhe dito que tinha um adulto e um jovem num Optimist  e que era bom dar uma olhada por onde andavam, já que isso não era muito normal. Disse a ele que, tirando aquele vento fraco, estava tudo bem, e que não precisávamos de reboque. Tranqüilizado, o Jefferson tomou de volta o rumo do clube.

 Senti necessidade de fumar um cigarro. Levantei-me no barco para pegar a carteira, que estava no bolso da camisa amarrada no alto no mastro, único lugar seco que encontrei. Tentando me equilibrar naquele minúsculo barco, me veio à mente a idéia de um elefante de circo se esforçando, sob a mira de um domador e seu chicote, para se manter em cima de um cone redondo de apenas 1 metro de diâmetro. Foi muito peso lançado sobre uma de minhas patas e a proa desnivelou. Uma onda, daquelas mais granditas, entrou por inteiro pela proa e tapou completamente o barco de água. A borda ficou no mesmo nível do Guaíba. Tivemos ambos de sair do barco e fazer a caneca trabalhar. Aproveitamos para tomar banho,  nos refrescar e nadar. Água muito gostosa. Bem morna.

 Resolvemos ingressar na ilha do clube pela lado Norte, já que não havia mais vento para enfrentar a corrente que vinha de Sul. Tivemos de passar por baixo da ponte. Para isso, contrariando minha idéia de virar o barco para passar, o Pedro preferiu tirar o mastro. Se soubesse que era tão fácil tirar e colocar o mastro de um Optimist, teria logo concordado com ele. Chegamos na rampa do clube são e salvos. De minha parte, estava admirado e surpreendido com o barquinho.  Da parte do Pedro, percebi que lhe bateu uma certa saudade de velejar um Optimist

Riscos da velejada? Evidente que absolutamente nenhum. O Optimist tem dois compartimentos estanques nas laterais, dentro do casco, mais uma bolsa de flutuação na popa. Pode encher de água, mas não afunda. Basta tirar a água e subir nele novamente. Fora isso, mesmo que afundasse, como se trata de verão e a água está quente, poderíamos sobreviver mais de oito horas boiando no Guaíba, tempo suficiente para chegar a qualquer margem. Grave mesmo seria a falta de nicotina durante todo esse tempo.

 Estamos acostumados a ver exclusivamente crianças velejando Optimist. Ele também parece ser um barco muito pequeno (mas sua superfície sobre a água não é tão pequena assim). São as razões pelas quais imaginamos que se trata de um barco que só possa ser velejado por crianças. Grande equívoco. Ele pode ser tranqüilamente velejado por um adulto de peso normal (de 70 a 80 kg) sem sofrer perda significativa de flutuabilidade (e aumento do arrasto), mantendo a mais perfeita navegabilidade. Acredito que com um adulto ele possa chegar até 4,5 nós na orça com vento de 20 a 25 nós em local em que as ondas forem pequenas. No través e em ¾ com ventos de 25 a 30 nós, ele deve atingir uns 6 nós de velocidade. Com ventos superiores a 30 nós fica complicado de velejar nesse barco, já que a vela não permite rizos. Com uma vela que permitisse rizos e uma bomba de água manual a bordo, é possível velejar com qualquer vento. Em resumo, excelente barquinho. Vou velejar mais seguido nele.

 

 

Barco no Gel X Barco de Fibra. Repintando o fundo com tinta venenosa e pintando uma faixa no costado. Algumas dicas de limpeza, polimento, gel, pintura e conservação do casco.

 

Gosto de eu mesmo fazer pequenos reparos no Lumar. Além de ser uma distração, vai se conhecendo cada vez mais o veleiro e aprende-se o que fazer quando ocorrem problemas velejando. Para aqueles que pretendam fazer cruzeiros mais longos no mar, isso é essencial. Aprendi essa lição do velejador alemão Rolf Eberhard, do veleiro Wunderbarque está ancorado no trapiche do Jangadeiros. Ele está velejando pelo mundo fazem oito anos. Já esteve por vários países do Mediterrâneo. Esteve na África. Entrou no rio Amazonas. Está descendo a costa brasileira há três anos. Partindo de Porto Alegre, depois de conhecer o Uruguai e a Argentina,  irá atravessar o Canal de Beagle em direção ao Pacífico e  à costa chilena. Depois, pretende retornar ao Atlântico cruzando pela segunda vez o Cabo Horn. E depois, nem ele sabe exatamente para onde vai. Deu uma palestra no clube e uma das lições que enfatizou foi a de que em alto mar não tem marcenaria, não tem soldador, não tem funilaria, não tem metalúrgica, mecânica, eletricistas e, portanto, o velejador tem de estar preparado para fazer pessoalmente todos esses tipos de serviços. Para chegar lá, só “colocando as mãos”. (parágrafo) Dia desses, meu piloto automático pifou. Abri o aparelho e descobri que o eixo do motor elétrico girava normalmente, mas deslizava na engrenagem que devia fazer mover. Em um primeiro momento, pensei que deveria encontrar uma forma de colar a engrenagem no eixo. Foi meio por acaso que descobri que bastava pressioná-la contra o eixo que tudo voltava ao normal. O Rolf está certo, é preciso “colocar as mãos.

             Não sei de onde tiro essa disposição para estar sempre cuidando, fazendo pequenas melhorias e reparos no barco. De certa feita, minha esposa se aproximou pelo trapiche do barco e tomou um susto. Ficou estupefata ao me ver encerando o Lumar. Sou incapaz de fazer qualquer manutenção em minha casa. O simples ato de trocar uma tomada, ou mesmo uma lâmpada, em casa, exige de mim um esforço descomunal. Prefiro pagar para que alguém faça essas tarefas. Creio que acabei criando uma relação de afeto com o barco. Mas verifico que isso não é algo completamente anormal. Pelo contrário, vários são os donos de barcos completamente apaixonados por seus veleiros. Não é para menos que invariavelmente as esposas têm ciúmes deles. Além do que os veleiros exigem alguns gastos com a manutenção. Isso para elas é o fim. Deve representar uma concorrência inaceitável. É a velha rivalidade. De qualquer forma, penso que as esposas de donos de veleiros deveriam se conformar com isso, já que antes seus maridos estarem gastando com suas embarcações do que com amantes, essas sim, não raro, muito mais caras.

             Já se iam três anos da última aplicação de tinta venenosa no casco. Resolvi retirar o Lumar da água para repintá-lo. Após o simpático Pedro Bicudo, um excelente prestador de serviços especializado em resina poliéster e pinturas, retirar com lixa a tinta antiga, pensei em eu mesmo pintar (é simples, basta utilizar um rolo, pintando por primeiro com a intertuf, da marca international, e depois a venenosa). Mas acabei deixando essa tarefa para o Pedro. Encarreguei-o também de trocar os quatro parafusos de 4 mm de diâmetro do suporte inferior do leme por outros 4 parafusos de 8 mm. Esses parafusos, com mais diâmetro, são mais difíceis de as polcas se soltarem com o esforço normal do leme e mais fáceis de apertar caso necessário. (parágrafo) Concentrei-me em pintar uma faixa azul junto à linha da água (acima da venenosa). A razão de ter de pintar essa faixa estava em que o gel, próximo da linha da água, no costado de boreste e do centro para a popa, começou a apresentar pequenas fraturas (com 2 a 3 mm cada), descobrindo a resina da camada limítrofe ao gel. Quando adquiri o Lumar, ele já veio com essas falhas do gel. Como o problema só apareceu num dos costados, deduzo que esse lado deve ter ficado muitos anos voltado para o Oeste ou para o Sul, pois são nessas posições que quaisquer superfícies em nosso Estado ficam mais úmidas (aquele que se perder em uma mata ou capão no Rio Grande do Sul e tiver o conhecimento de que os musgos dos troncos das árvores estão todos voltados para o Sul, não ficará andando em círculos).

         O gel, conforme expliquei em outra passagem, é a primeira resina poliéster (normalmente branca) que é colocada na forma do barco quando ele é fabricado. Essas pequenas fraturas são resultado do desgaste do gel, causado pela umidade e sol. Foi justamente em razão da maior umidade (proximidade com a água) que existe próximo da linha da água que as fraturas foram aparecer nesse local. É bom frisar essa questão: o que desgasta o casco de um barco de fibra são o sol e a umidade. A sujeira e o vento também desgastam, mas por razão indireta. O vento traz a sujeira (pó que se acumula por toda a superfície do casco), e esta retém a umidade junto ao casco por mais tempo. Barcos de fibra resistem tranqüilamente durante trinta anos. Se não forem bem cuidados, chegarão a essa idade com o casco já bem desgastado, provavelmente sem o gel e necessitando de pintura. Todavia, se bem conservados, mesmo deixados na água e sob as ações do vento, sol e chuva, calculo que possam durar mais de cinqüenta anos.

        E o que é cuidar bem de um casco feito de resina poliéster (fibra)? Uma lavagem mensal com esses detergentes de lavar pratos (para tirar a sujeira) e uma encerada geral (para proteger contra a sujeira) de dois em dois meses (após a lavagem). Mas não dá para aumentar esses prazos. Para diminuir, sim. A lavagem não deixará acumular pó e sujeira, que  retêm umidade,  e a cera protegerá contra a sujeira. Quando era criança, recordo que na minha rua morava um médico que tinha um Sinca Chawbord preto com um chofer. Lembro que de três em três dias o Sinca era lavado na calçada e semanalmente encerado. Aquele Sinca preto estava sempre brilhando, como se estivesse sempre novo. A lavagem, ao contrário do que pensam alguns, assim como não tira a tinta, não tira o gel. O que tira é a sujeira e a umidade impregnadas. De dois em dois anos, o casco pode ser polido com massa de polir n. 2. O antiderrapante do convés se pole com uma escovinha, e suas partes lisas e o costado, com uma estopa.

              Prosseguindo na pintura da faixa azul. Primeiro, demarquei a faixa com fitas adesivas em ambos os costados (bombordo e boreste). A seguir, passei a lixar o gel com lixa amarela de madeira n. 250 (é muito boa para essa finalidade) Isso tem por fim emparelhar os bordos das pequenas fraturas e retirar pequenas lascas que ainda não  tenham se soltado, além de preparar a superfície (deixando-a mais áspera) para a tinta da faixa aderir melhor. A seguir, com o auxílio de uma espátula, as pequenas fraturas do gel foram preenchidas com massa plástica. Lixei de novo para emparelhar as superfícies onde foi colocada a massa. Por final, três demãos de tinta automotiva azul, aplicada com um rolinho. Depois de completamente seca, para completar o serviço, lixa d´água 400, seguida de massa de polir aplicada com estopa. Serviço terminado.

             Como o restante do costado estava meio amarelado pela sujeira que se impregna no gel, passei ácido oxálico (nome comercial “Semorin, do tipo que tira ferrugem) no restante do costado. A seguir, massa de polir n. 2 com uma estopa. O ácido oxálico se passa com um pano, rapidamente sobre a superfície que se quer limpar. O efeito é imediato. Segundo após, a superfície clareia. Em seguida, é preciso jogar água para retirar o ácido (não creio que seja recomendável deixar tal ácido agindo por mais de um ou dois minutos). Depois de enxaguar, pode-se ou passar massa de polir ou encerar (de preferência com cera contendo silicone).

             Sempre ouvi falar que um barco usado que ainda se encontra no gel (ainda não foi necessário pintar) é melhor que um barco pintado. Não sabia qual era a razão disso. Foi lixando o gel que encontrei a resposta.  Primeiro, tem-se que um barco usado com dez, vinte ou trinta anos e que ainda se encontra no gel (como é o caso do Lumar), é sinal de que foi bem cuidado por seus donos. Em segundo lugar, quem possui um barco todo no gel pode, a qualquer momento, num simples passar de lixa d’água (primeiro a 400 e seguida da 600) nas superfícies lisas e de massa de polir esfregada com uma pequena escova no antiderrapante do convés, ter diante de si um casco completamente novo e praticamente tão branco e reluzente como um novo. O gel tem de 1 a 3 mm de espessura, dependendo do barco. Quando se lixa (0,3 mm digamos), a nova superfície que ficará descoberta nunca sofreu os efeitos do tempo e é completamente livre de sujeiras impregnadas, vale dizer, obtém-se um novo casco.  Dessa maneira, penso que agem de maneira equivocada os donos de barcos que, diante dos primeiros desgastes do gel no costado ou no convés, vão desde logo pintando todo o barco para que ele “fique mais bonito”. Muitas vezes, limitam-se a seguir as sugestões dos prestadores de serviço, que têm, por razões óbvias, interesse na pintura, e não o bom senso ou a opinião de velejadores mais experientes e isentos.

mariana corrigiu até aqui

Esposas X Veleiros

 

            No título anterior, entre outros temas, tratei das razões porque as esposas não gostam de barcos à vela. Eles são suas rivais. Não é costume das mulheres aliar-se às  rivais. Mas há uma outra razão.

            Minha esposa é a típica mulher. Não gosta de velejar. Foi também, antes de casarmos, a típica namorada. Fingia gostar de velejar. Fingia outras coisas também. Fingia saber cozinhar. E como fingia bem! Fazia excelentes pratos. Verdadeiras iguarias. Depois que casou desaprendeu. Topava qualquer parada. Lembro que de certa ocasião ela subiu a serra a noite comigo numa motocicleta Honda 125 cc. Era inverno. Frio de lascar. Coloquei uns jornais por dentro das roupas dela para diminuir o frio. Velho truque de motociclistas. Fomos eu, ela, meu cachorro fox terrier, de nome Paco, este dentro de uma casinha de madeira de viagem para cachorros na qual ele só podia colocar a cabeça para fora e um passarinho dentro da gaiola, esta em cima da casinha do cachorro. Meu destino era Vila Oliva. Não dispunha de mapa, mas sabia que era lá para as bandas de Caxias do Sul. Iria perguntando no caminho sobre os rumos e estradas a tomar. Ao chegar em Gramado, alguém me deu a dica de tomar um atalho para a Vila Oliva. Segundo o informante era uma estrada de chão, porém encurtaria a distância. Tomei a tal de estrada de chão já por volta de uma da madrugada e por ela perambulei a noite inteira completamente perdido. Eu na direção, minha namorada, atual esposa, na carona dormindo agarrada a mim, o Paco tentando pegar o passarinho e o passarinho assustado pulando na gaiola com medo do Paco. Na manhã, por volta das 10 horas, chegamos exaustos à Vila Oliva. Montei a pequena barraca próximo a um capão e dormimos. Não tanto como merecíamos porque chovia e a barraca tinha o teto furado. A paixão é uma força mesmo muito poderosa. Minha mulher se submeteu a grandes sacrifícios com vistas a conquistar seu objetivo final que era o de casar comigo. Acabou conseguindo. Evidente que após o casamento tornou-se uma mulher normal, ou melhor dizendo, uma esposa normal. Nunca mais quis saber de velejar. Esqueceu como cozinhar e acabou contratando uma doméstica para fazer a comida e viajar, só se com destino a hotel ou a uma boa residência. Quanto a seu gosto por animais, basta dizer que ela conta a idade do Walter de trás para frente, ou seja, ela não conta quantos anos meu querido companheiro Maltês possui, mas quantos faltam para ele bater as botas.

 

        

        Há anos atrás, como referi em outra passagem, possuía um veleiro Guanabara. Num certo dia - não num belo dia – meu irmão Kiko, o pintor, resolveu levar a esposa para velejar. Deu um temporal no meio da navegada. Ela nunca mais colocou os pés num veleiro. Essa história, que pela primeira vez ouvi de meu irmão, retornei a ouvir sucessivas vezes no meio náutico. Logo que me casei fui morar na rua Sete de Abril no bairro Floresta. Era um apartamento térreo. Este bairro tem problemas com o escoamento da água das chuvas. É que todo o bairro fica num nível muito próximo do nível do Guaíba e, assim, está sujeito a freqüentes inundações. Certo dia a chuvarada foi muito intensa e o pátio deste apartamento se encheu de água, já que a água subia pelos esgoto pluvial em vez de descer. Sentado na porta da cozinha que dava para os fundos do apartamento, um metro acima do nível do pátio, fiquei contemplando, meio maravilhado, aquele pátio todo inundado com água com profundidade de até meio metro. Achei bonita aquela visão, o quintal todo transformado numa grande piscina. Pois não é que minha esposa chega em casa, vê aquele aguaceiro e se pára a gritar feita uma maluca, dizendo que aquilo é o fim da picada, o caos, um desastre completo!!!  Naquele momento não consegui compreender seu desespero.

         Como se sabe, o curso da história da humanidade e de suas necessidades grava em nosso código genético algumas características, sentimentos, receios. Mesmo que as circunstâncias que deram origem a gravação daqueles caracteres tenham mudado, continuamos atavicamente os transportando e transmitindo a nossa descendência. São necessárias muitas gerações para que um carácter desses, não mais necessário, desapareça do código genético.

         A mulher no curso da história, por muitos milhares de anos, ficou responsável pela casa e pelo filhos e o homem, pela caça. Enquanto que o homem saia para buscar alimentos, a mulher ficava em casa, cuidando dos filhos. Saia e não levava qualquer conforto da casa (caverna, tenda, habitação rudimentar...). Muitas vezes dormia ao relento, passava frio, pegava chuva. A mulher ficava e, preferencialmente, numa habitação que oferecesse um mínimo de segurança. O que é uma habitação que oferece esse mínimo de segurança? É aquela que não sofre com os maus humores do tempo. Basicamente era aquela que não inundava quando chovia forte e que não virava e caia desabando quando ventava forte.

        Pois bem. O que é um veleiro sob mau tempo? É justamente o pesadelo maior dessa mulher pré-histórica que habita toda a mulher moderna. O veleiro não deixa de ser uma pequena habitação. Num temporal, sob ventos fortes, essa pequena habitação não apenas faz água como também aderna, quase vira, quase desaba. O inconsciente da mulher dispara. Todos os alarmes de seus receios profundos e orgânicos disparam. É o pânico. A habitação, não apenas faz água como também se inclina 45 graus ou mais. Vai virar! Vai desabar! A água está entrando, por cima e, as vezes, por baixo. É o quadro da desgraça completa que se desenha na mente feminina. Dá para entender porque as mulheres preferem lanchas. Para navegar contra o vento, não adernam, e rapidamente evitam e fogem do encontro com o mal tempo.

             De qualquer maneira, o curso dos anos de um longo casamento, realizado com a mulher que amo, me demonstrou que o fato de as esposas não gostarem de veleiros é um de seus maiores atrativos. Sair para velejar representa um alvará para sair sozinho ou com os amigos. É um bom momento para se dar uma pausa ao casamento. Alguns instantes para refletir, longe de casa e da tagarelice das esposas. Por isso, sou daqueles que só vê vantagem no fato de esposas não gostarem de velejar. E se um dia, minha mulher, por uma razão qualquer começar a tomar gosto por velejar, não hesitarei em levá-la para um pequeno passeio com ventos de 45 nós ou mais.

 

Anatomia da Inveja

  

Dedico esse artigo àqueles que sofrem por me invejar. Com amor e sem a menor admiração.

 

 A inveja é uma merda, e por isso, imperativo a quem quiser dela se resguardar, conhecê-la.

 Noutra passagem narrei que na infância andava pelo bairro Moinhos de Vento em Porto Alegre a pular muros. Descobrir novas passagens, novos caminhos, novos esconderijos, era meu passatempo predileto. Mais adiante, na adolescência, cogitei de construir um veleiro e sair mundo afora. Encontrar novos mundos. Ultimamente, que faço? Tenho velejado em meu pequeno veleiro, descobrindo alguns recantos do rio Guaíba. Em vez de sair mundo afora, projeto que não abandono nem realizo, fico a velejar interiores. São tantas as palavras a serem descobertas. Aceitação, admiração, afeição, afeto, apego, arrependimento, beleza, bondade, caridade, confiança, desapego, entusiasmo, esperança, generosidade,  humildade, paciência, pânico, perdão, piedade, prudência, remorso, respeito, renúncia, saudade, solidariedade, surpresa, ternura, tolerância, vergonha, são ambientes abarrotados de mistérios, os quais podem ser descobertos. Necessário descobrir a vida. Parte de seu significado há de estar contido nos sentimentos, quem sinceramente a movimenta. Muito se tem dito e escrito sobre os principais sentimentos. Frases soltas. Idéias avulsas. Conceitos desirmanados. Poucos são aqueles escritores que vão além da superfície construindo um sistema ordenado e lógico. Mesmo em livros que tratam de psicologia, excepcionadas as emoções básicas amor, medo e ódio, pouco se encontra.

 A inveja. Decidi dissecá-la. Em meio caminho quase abdiquei. Duas razões. Primeira, um sentimento ruim. Segunda, não conseguia desmembrá-la. Atrapalhei-me. Fiquei confuso. Não estava disposto a escrever sobre um sentimento que não conseguia entender completamente. Um banho quente de chuveiro, o que sempre ajuda a colocar os conceitos em ordem arredou tanto a primeira como a segunda razão. Quanto à primeira delas, a consideração que jamais conseguiremos descobrir aquilo que temos de melhor se fugirmos ao exame do que temos de pior. Caminhos não podem ser evitados. Precisam todos de investigação. Não raro, dos piores momentos, das trágicas experiências, dos atos insanos, podemos tirar as melhores lições. Não existe experiência não vivida. Não há os experientes naquilo que não sentiram. Só quem sofreu - e algumas vezes bebeu - as dores, pode delas falar, dizer e contar. A experiência de vida é, com certeza, monopólio dos que serviram-se dela com intensidade, com liberdade, com coragem, que erraram mais, que perambularam mais, que pecaram mais. Os protegidos, aqueles que se colocaram a salvo e ao abrigo, seja por prudência, precaução ou falta de coragem, do frio, borrascas, paixões, dos prazeres, excessos, dos vícios, aprenderam apenas parte da existência e, assim, apenas parcialmente a compreendem. Dizia o velho Francisco Octaviano, num de seus mais conhecidos poemas, quem passou pela vida em branca nuvem, e em plácido repouso adormeceu, quem não sentiu o frio da desgraça, quem passou pela vida e não sofreu, foi espectro de homem, não foi homem. Só passou pela vida, não viveu. Quanto a segunda razão, creio ter conseguido devassar a inveja e descoberto sua anatomia.

 

 

 Só aqueles que desconhecem as fábulas de Esopo não gostam das fábulas de Esopo. É bastante difundida aquela que se intitula a raposa e as uvas. Nesta estória, a raposa não podendo obter a posse do bem, o desdenha. É uma estória milenar, que já era contada antes do nascimento de Cristo, e que representa a inveja. Conta Esopo: Uma Raposa, morta de fome, viu alguns cachos de uvas negras e maduras, penduradas nas grades de uma viçosa videira. Ela então usou de todos os seus dotes e artifícios para alcançá-las, mas acabou se cansando em vão, pois nada conseguiu. Por fim deu meia volta e foi embora, e consolando a si mesma, meio desapontada disse: ”Olhando com mais atenção, percebo agora que as uvas estão estragadas, e não maduras como eu imaginei a princípio.

Na tradição católica, a inveja é um dos sete pecados capitais. A inveja é muito temida, especialmente pelos mais rudes – com razão -, que a chamam de olho gordo. É um sentimento tão forte e intenso, que o genial Liberati acredita que no sepulcro do invejoso deveria estar escrito – “Por que o túmulo do lado é mais bonito que o meu?” No conteúdo da inveja está presente a cobiça. Cobiçar é verbo que se conjuga com o olhar. Com a cobiça, os olhos crescem e, realçados, estreitam o rosto. Por isso se diz, ao invejoso emagresce-lhe o rosto e incha-lhe o olho. A inveja deita origens na concorrência, na disputa pelo poder, riquezas e na vaidade. São coadjuvantes necessários o invejoso, o invejado e o objeto da inveja.

Sentimento complexo e dinâmico. Complexo porque se compõe de um conjunto de sentimentos e dinâmico porque esses sentimentos vão se sucedendo até completar-se o ciclo da inveja, quando ela se consuma.

São seis elementos. Sucedem-se seis momentos. No sexto momento, ela se realiza. Depois, pode haver a fase de exaurimento, quando começa a produzir efeitos em relação ao invejado.

Os seis elementos (ou momentos) da inveja são: 1) admiração; 2) desejo; 3) noção da possibilidade de obter o objeto da inveja; 4) crença na pouca probabilidade de obter o objeto; 5) ódio a si próprio pelo fracasso; 6) ódio ao invejado.

Na fase de exaurimento o invejoso lança palavras e/ou ações contra o objeto da inveja e/ou o invejado.

O contrário da inveja não é a admiração. O invejoso, em verdade, primeiramente e sobretudo, tem grande admiração pelo invejado, pelo objeto da inveja e pela própria admiração que o invejado produz. Mas a admiração é oculta, velada, disfarçada. O invejoso utiliza uma máscara, que confunde a ele próprio. É que a inveja, de in-vidia, invidentia, é não-ver, não querer ver o bem do outro. Faz parte deste complexo processo subjetivo a negação do valor do invejado. A admiração, este é o primeiro momento mental daquele que inveja. Momento esse que será posteriormente encoberto pelo ódio.

Mas para invejar não basta admirar. Há aquilo que se admira, mas não se deseja. Para invejar é preciso também desejar. Desejar é o segundo elemento. Se o objeto do desejo não for único (fortuna, posses em geral, etc), o invejoso pode limitar-se a desejar ter algo semelhante. Mas se o objeto for único, um objeto determinado, o desejo leva o nome de cobiça, que significa que o invejoso deseja para si exatamente aquilo que é possuído pelo invejado. Normalmente, o objeto do desejo na inveja não se limita ao bem, alcança também a admiração que o invejado provoca. O invejoso quer para si a admiração do invejado.

O objeto da inveja não pode ser algo completamente fora de alcance. O dono de uma carroça inveja o dono de outra carroça melhor e mais sofisticada, não o dono de uma Mercedez. Inveja-se quem está próximo, quem é parecido, quem está num mesmo nível. Como refere Santo Tomás de Aquino, é freqüente que homens que exercem o mesmo ofício se comportem insidiosa e invejosamente entre si. É como diz o provérbio: "oleiro inveja oleiro" e não carpinteiro. (Super Ev. Io cp 3, lc 4). O terceiro componente da inveja: a possibilidade de obter ou alcançar ou possuir o objeto, vale dizer, sua proximidade. Importante a observação de que a inveja prefere os vaidosos, os soberbos, os orgulhosos. Uma das razões disso está em que nestes, o juízo que fazem de suas possibilidades de obter ou alcançar ou possuir o objeto é distorcido. Costumam julgar que podem obter mais do que aquilo que realmente está ao seu alcance. Falta-lhes humildade para reconhecer que determinados bens, valores ou riquezas estão completamente fora de sua capacidade aquisitiva. A vaidade por si só já obscurece a razão. Quando vem acompanhada de certo grau de deficiência intelectual, a catástrofe é completa. Daí a razão de ser comum aos idiotas invejar às celebridades. O que explica também o sucesso dos folhetins que exploram o ramo das celebridades, é que o número de vaidosos e idiotas não é pequeno. A ignorância pode vir acompanhada da humildade, o que muito lhe beneficia. A vaidade pode se fazer presente junto com a inteligência brilhante e o talento, o que pode ser extremamente produtivo. A pior associação que a vaidade pode fazer é com a ignorância. Quando essas duas senhoras se encontram num mesmo indíviduo, ambas potencializam suas forças negativas. Uma combinação da qual é prudente manter-se distante.

Ao mesmo tempo em que o invejoso vislumbra o objeto dentro de seu círculo possibilidades aquisitivas, acredita que tem poucas probabilidades, poucas chances de alcançá-lo. Crê que, por uma razão ou outra, mesmo se esforçando, não conseguirá obtê-lo. De certa maneira, desiste de correr atrás. Este o quarto elemento da inveja: a crença na improbabilidade da obtenção do objeto. A inveja é a homenagem que a inferioridade tributa ao mérito.

No quinto momento do ciclo constitutivo da inveja, o invejoso odeia a si próprio pelo fracasso, pelo seu convencimento de que não conseguirá obter o objeto da inveja.

No sexto momento, o invejoso passa a odiar o invejado. A inveja toma todas as formas de ferir.  É exatamente nesta etapa é que se consuma o processo da inveja. Se todas as etapas anteriores foram concretizadas em sua completude, a inveja passa a existir. Esse deslocamento do ódio explica-se pela circunstância de que o ódio de si próprio pelo fracasso reflete o ódio ao outro. Tudo o que se odeia nos outros são meros reflexos daquilo que odiamos em nós próprios. É que, em última análise, os outros somos nós apenas. É porque o invejoso odeia o invejado é que a admiração que aquele tem por este (primeiro elemento da inveja) fica oculta, ofuscada. A admiração, na inveja, é como que a face oculta da lua provocada pela sombra do ódio. Quem inveja a quem canta bem não ama ao que canta bem. Sim, é possível admirar e odiar. Amar e odiar, não. É muito comum esse ódio vir acompanhado do sentimento de injustiça. Emoções não toleram a orfandade. Toda emoção, sensação, sentimento, busca motivação, justificativa. E a injustiça, substituindo o próprio fracasso, constitui sempre uma boa razão para se odiar. Além do mais, alguns elementos da injustiça se fazem presentes: se sou igual ou muito parecido com ele, por que não mereço, por que não me é dado?

As ações e palavras que se sucedem contra o invejado não são mais um elemento da inveja, são conseqüências. A inveja é sentimento ruim. Faz sofrer quem a transporta. O invejoso quer ver arrasado, destruído e destituído, o invejado. Nem toda a inveja chega a tal ponto. Há aqueles que conseguem sofrer em silêncio. Mas mesmo estes, na primeira oportunidade em que puderem interferir para pior nos destinos do invejado, com certeza, o farão. O ódio na inveja é intenso e verdadeiro. Por isso, a inveja dos inimigos é uma forma de admiração muito mais sincera que a lisonja dos amigos (Malheiro Dias), a inveja é o mais sincero dos elogios (Churton Collins) e  os inimigos sempre dizem a verdade (Schopenhauer). Na inveja crônica, o invejoso nada mais quer ganhar ou obter, destruir para ele é o bastante. Uma vez consumada, toda inveja é ruim. A inveja é a arma dos fracassados, daqueles que sucumbiram sem lutar, dos derrotados, dos amargos. Os ataques da inveja são os únicos em que o agressor, se pudesse, preferia fazer o papel da  vítima (Niceto Zamora).

Então, para bem compreender os elementos da inveja, retorno às uvas: Uma Raposa, morta de fome, viu (2- desejo e cobiça) alguns cachos de Uvas negras e maduras (1 - admiração), penduradas nas grades de uma viçosa videira (3 - possibilidade de obtenção). Ela então usou de todos os seus dotes e artifícios para alcançá-las, mas acabou se cansando em vão, pois nada conseguiu (4 - crença na improbabilidade). Por fim deu meia volta e foi embora (5 - ódio a si própria e fracasso), e consolando a si mesma, meio desapontada disse: ”Olhando com mais atenção, percebo agora que as Uvas estão estragadas(6 - ódio ao objeto), e não maduras como eu imaginei a princípio.”

A inveja pode ser dividida em construtiva ou imprópria e a destrutiva. A inveja construtiva é aquela que não se realizou completamente. Não é propriamente inveja. Inveja imprópria, portanto. Existe nela os três primeiros elementos (admiração, desejo e possibilidade de obtenção), mas falta-lhe a crença na improbabilidade de obtenção do objeto. O invejoso crê que é provável que possa alcançar o objeto e, por conseqüência, esforça-se para tal. Ele pode até odiar o invejado, mas esse ódio não é intenso porque não é intenso o ódio que sente por si próprio já que não se considera fracassado. A inveja construtiva, que como disse, não é propriamente inveja, já que nela o ciclo da inveja não se completou integralmente, é necessária à espécie humana. Teve alguém que, após muito pesquisar sobre o conceito de valor, disse que valor é o ser dirigido a seu fim. Acho que foi Rui Cirne Lima. Permito-me acrescentar que valor é o ser dirigido a seu fim na mão da pessoa certa. A inveja cumpre esse papel darwinista. Ela propicia, cria condições ao acaso, que alguém tão bom quanto outrem, ou melhor, ocupe o seu lugar ou, não tomando seu lugar, ocupe posição igual ou melhor. Assim, a inveja construtiva é positiva, é um bem.  Se não fosse a inveja, o primata ainda estaria catando pulgas na caverna primeva. Daí a importância do “olho grande” do primata pai no sucesso do vizinho em caçar seus bisões com uma nova arma feita de pedra e madeira e da primata mãe na decoração da caverna de sua comadre pré histórica. Desta forma desenvolveu-se a tecnologia e a arte (Liberati).

Já a inveja propriamente dita é um mal. Nela inexiste a disposição do invejoso de alcançar ou superar o invejado. O invejoso não acredita em suas probabilidades. Não aposta nelas. Diante do desafio, mantém-se, com as mais variadas justificativas, inerte. Fracassou. Isso o entristece,  aborrece, o que, refletindo no espelho da alma, passa a odiar o invejado. Está completo o quadro. É um mal para o invejoso porque lhe é prejudicial. A inveja lhe consome. É um mal para o invejado porque o ódio transforma-se em ações e palavras. É um mal para a espécie porque é improdutiva, é desconstrutiva e não oferece alternativa. A inveja é vergonhosa e por isso a dificuldade de reconhecê-la e, acaso reconhecendo, de confessá-la. É uma declaração tácita de inferioridade. Por isso que ela não é revelada. É dissimulada. O invejoso não quer se mostrar inferior (Napoleão).

Sendo a inveja algo que faz mal, é preciso evitá-la. A primeira tarefa é dispor de humildade suficiente para reconhecê-la. É uma tarefa difícil, especialmente para os vaidosos, os quais sofrem muito mais para reconhecerem suas falhas. Uma inteligência limitada também constitui outro impedimento ao reconhecimento da inveja, inclusive porque, o exercício da inveja, da intriga, das fofocas, o interesse pela vida alheia, são os principais prazeres da camada intelectual mais baixa em todas sociedades. Tirar a inveja dessa gente é subtrair-lhes uma de suas principais, quando não exclusivas, atividades, a maledicência. Se cortar-se a língua desses indivíduos, órgão vital, são capazes de finar-se de melancolia. Uma vez reconhecida a inveja, o passo seguinte é tentar retirar dela qualquer um de seus elementos. O primeiro elemento que se deve procurar retirar, por ser a atitude mais positiva, é a crença na improbabilidade da obtenção do objeto. O invejoso deve se esforçar para alcançar o objeto. Todavia, convencendo-se que não há chances, resta tentar excluir os demais elementos. Deve se indagar se a admiração pelo objeto da inveja merece persistir. Será que não houve uma idealização? Um juízo incorreto quanto ao valor? Não estará presente um defeito oculto? Deve perguntar a si mesmo se o objeto admirado merece seu desejo. Não existirão outras coisas mais desejáveis, mais importantes? Precisa questionar se o objeto desejado não é algo inatingível, fora do alcance. É preciso conformar-se com as limitações. A compreensão da limitação e a conformidade a ela podem evitar a sensação de fracasso e ódio a si próprio e pelo outro. Outro aspecto importante é que a vaidade está intimamente relacionada com a inveja. Quem quiser domesticar sua inveja precisa examinar sua vaidade. O vaidoso ama pouco a si próprio. Para compensar esse déficit, busca a admiração dos outros. Daí seu desejo de subtrair do invejado a admiração dos outros. E como ele também admira o invejado, deseja também subtrair para si sua própria admiração.

Epicuro dizia que dos homens só se devia temer o ódio, a inveja e o desprezo. Deve-se procurar evitar provocar inveja. Quem inveja está sempre a espreita, aproveitando uma oportunidade, ou para praticar uma ação ou lançar uma palavra ferina. Preferivelmente pelas costas. Só gosta de provocar inveja quem se sente inferior ou infeliz. Um dos poucos escritores que se dedicaram a fazer um estudo mais sério da inveja foi Flávio Gikovate. Disse acertadamente que se a intenção inicial das pessoas que buscam o destaque é, através dos seus desempenhos, acima da média, obter admiração e o amor dos que lhe são próximos, o resultado na prática é bastante diverso deste. O sentir-se amado pode efetivamente representar uma importante atenuação do desamparo original, sendo um remédio eficaz para o desespero que deriva da consciência da solidão, de modo que seria legítimo buscar esta solução, ainda mais que ela estaria na mesma direção da que determina o prazer erótico ligado ao sucesso. O que perturba esta solução, aparentemente muito boa porque resolve os dois anseios - afetivo e erótico -, é que a admiração determina o surgimento da inveja e não do amor. Acredito que a maioria das pessoas que buscam o destaque social só percebe muito tardiamente que seu sucesso desperta muito mais freqüentemente a inveja do que o amor; e, mais, que vive esta constatação surpreendente como profundamente decepcionante e geradora de uma grave crise íntima.

A admiração nem sempre provoca inveja. Depende como ela é plantada. Se ela é plantada com o amor que sentimos pelos outros, colhe-se frutos verdadeiros de admiração. Se, diversamente, plantada com o amor que desejamos sentir por nós próprios tendo por instrumento a admiração alheia, colhe-se a inveja. A semente faz a diferença.

 

 

Alegria até a Ponta da Alegria com as Gurias

 

 

 

 

 

 

 

Dia 26 de outubro de 2007, sexta-feira, lua cheia.  Eram 18 horas quando eu, minhas duas filhas, Juliana e Gabriela, e a amiga delas, a Rafa, chegamos no clube.

 

Encarreguei minhas marujas de irem buscar gelo no restaurante e enquanto isso fui içando as velas.

 

Tínhamos uma churrasqueira nova para inaugurar, a qual elas haviam me dado de presente em meu aniversário.

 

Levávamos carvão, cebola, alguns refrigerantes e alguns biscoitos caso elas não gostassem do assado que pretendia fazer do outro lado do rio.

 

     

 

 

Saímos rumando em direção sudoeste em direção da Ponta da Alegria. As gurias foram fazendo farra. Cantando. Cantaram muito. Essa idade, a partir dos 10 anos, é uma fase em que muitas crianças aprendem a gostar de músicas e cantos. É algo que deveria ser mais incentivado. Em tempos que inexistia televisão era dada mais importância a música. Era mais comum ter um piano em casa ou algum outro instrumento musical. Sem ter muito o que fazer, as famílias se reuniam em volta dos instrumentos e da música. Até hoje sinto muito não ter aprendido a tocar um instrumento. Até tentei com violão, mas não tinha o menor dom. Meu filho, dia desses achou que podia me ensinar. Desistiu nas primeiras tentativas. Disse que meus dedos são completamente duros. Talvez devesse tentar tocar tamborim. Não descarto de mais adiante tentar aprender piano. Se meus dedos não sabem prender cordas, isso não significa que, talvez, ele não possam teclar bem sobre um piano. Pelo menos, na datilografia sou excepcional. Pode ser um começo. Mas não estou deixando se suceder a mesma falha que se verificou comigo. O Pedro toca guitarra desde os 12 anos e agora está aprendendo saxofone. A Juliana já começou no violão. Daqui mais um pouco entra a Gabriela. Vou tentar colocá-las no canto também. Dá-se, em nossa cultura e tradição brasileira, muito importante para os estudos das ciências. Pouca ou nenhuma para as artes. Nos países europeus, música, canto, teatro, artes plásticas, são ensinadas nas escolas desde os primeiros anos. Aqui, quase nada. Como se as artes não tivessem importância, fossem algo secundário, improdutivo, quando, se sabe, boa parte do dinheiro que enviamos para o exterior é para pagar direitos autorais relativos à música e ao cinema.

 

 

 

      

 

 

 

Mas velejávamos e cantávamos. Não estava preso a essas idéias relativas a nosso comércio exterior. O barco velejava com segurança empurrado por um sopro de 10 nós. A lua cheia, enorme, levantou no horizonte a leste. Um espetáculo. Pouco tempo depois ela já estava no alto iluminando todo o rio. Tal a força do luar que parecia estarmos velejando de dia. Quantos watts tem a lua? O destino era a Ponta da Alegria, onde moram uns dois ou três pescadores, de quem compraríamos peixes, assaríamos e o comeríamos, para depois, voltar. Estava esfriando e as gurias vestiram as diversas camisas e calças que sempre levo no barco, uns trapos que em vez de colocar fora deixo para servir de agasalho ou cobertor no barco e no final acabam se transformando em panos de limpeza. Próximo da ponta não vi nenhuma luz, do que conclui que nenhum pescador deveria estar por ali. Então levei o barco até a margem oeste do rio um pouco mais ao sul da ponta, onde há um pequeno vilarejo, ou melhor dizendo, uma rua de terra com casas de pescadores umas do lados das outras. Quem passa por ali velejando sempre verá ancorado nas margens dos rio uma meia dúzia de barcos de pescadores. Cheguei ao local, ancorei bem próximo a praia, desci do barco e fui buscar os peixes. Consegui alguns pintados, uma lingüiça e meia dúzia de batatas e retornei em seguida ao barco, onde as meninas me esperam já com fome.

 

 

 

 

 

Montamos a churrasqueira, levei para fora do barco e dependurei no estai de popa uma lâmpada de 40 watts. Iniciado o braseiro e temperado o pintado, foi colocado a assar junto com a lingüiça e as batatas colocadas direto em cima da brasa. Aprendi a assar batatas direto na brasa com um primo. Ficam muito boas. Não se tira a casca para assar. Ficam bem mais saborosas que batatas cozidas. Depois que elas assam, se tira a casca, corta a batata em fatias e se come com manteiga e sal.

 

Comemos para valer. Em seguida, a Juliana e a Gabriela foram deixar no interior da cabine. Pegaram no sono devia ser umas 10 ou 11 horas. Eu e a Rafa ficamos comendo e conversando até depois da meia-noite.

 

 

 

 

 

 

 

Lavados os pratos, voltamos. Mas o vento ficou fraco. Tive de acionar o motor algumas vezes. Logo a gasolina acabou. Não tinha chegado a tempo de abastecer no clube. Mas a bordo ia tudo tranqüilo. Havia prometido a minha esposa chegar a uma da manhã. Tive de desligar o rádio por falta de bateria. O mesmo aconteceu com o celular. Perdi a noção da hora e só lembrei de telefonar para minha mulher já eram duas e meia da manhã. Ela estava muita assustada com a falta de notícias. Culpa minha. Mas em seguida chegamos de volta ao clube.

 

Deu pena ter de acordar aqueles bichinhos dormindo e cobertas no ambiente aquecido da cabine. Cogitei de dormir também e passarmos a noite ali. Mas a Luciane tinha passado por um susto e era melhor levá-las para casa. Meio sonâmbulas consegui levá-las para o automóvel. Dormiram de novo. Acho que gostaram. Eu gostei. Não apenas das cantorias, do passeio, da lua, mas também da churrasqueira recém inaugurada que coube com perfeição no cockpit.

 

 

 

 

 

 

 

 

Certo dia, o Paco pulou o muro e fugiu

 

 

 

 

Se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará.

 

       Edward Murphy, capitão da Força Aérea americana, em 1949

 

 

 

 

            O Tarcísio é advogado. E o Pires, analista. Convidei-os para velejar no final de tarde e fazermos um churrasco a bordo. Como o Pires não conhecia o Lumar, tratei de adverti-lo ao telefone, que se trata de um veleiro pequeno.

 

            A maioria das pessoas me acha esquisito. Considero esquisita a maioria das pessoas. Não sei exatamente quando foi que me consideraram esquisito pela primeira vez. Talvez tenha sido quando a diretora do colégio Piratini, ao final do primeiro ano primário, chamou minha mãe e lhe disse que eu teria de repetir o ano, já que não captava nada do que era ensinado em aula. Deu a entender que sofria de alguma espécie de deficiência.  Minha mãe se ofendeu e me trocou de colégio. Colocou-me num público. Sem razão, já que a diretora devia estar mesmo certa. Recordo dos primeiros anos no colégio. Não sabia exatamente onde estava, o que estava fazendo ali e pouco ou nada entendia do que os professores falavam na aula. Fossem os dias que correm talvez tivessem me diagnosticado com déficit de atenção, a última moda da psiquiatria. Pode ter sido quando estava lá pelo 3º. ou 4º. ano primário, uma monitora ingressou na sala de aula e a professora lhe mostrou meus cadernos cheio de orelhas e com uma escrita ilegível, como exemplo de aluno bagunçado. A decepção que causei aos professores nos meus primeiros anos escolares foi recíproca. Fiquei por igual muito chateado com os professores. Antes de ingressar no colégio fazia perguntas diversas aos meus pais, tantas que ultrapassavam o limite da paciência humana. Esgotados, respondiam dizendo que todas minhas dúvidas seriam esclarecidas quando entrasse no colégio. Que desapontamente tive ali adiante! A professora ensinava que b com aba, que c com aca. Eu perguntava: mas por que b com a ba? Por que não dá fa ou ga? Ela não sabia explicar. Não entendia que queria ir um pouco mais além. Queria saber o porquê das coisas. Faltou àquela professora me elucidar que b com a ba porque havia sido convencionado que a junção das duas letras resultaria naquela determinada expressão sonora. Daí quem sabe a razão de não conseguido aprender coisa alguma no colégio em meus primeiros anos. Minhas principais dúvidas não eram respondidas. Devo ter me desinteressado. Tinha certa razão. Entre colégio e universidade dedicamos quase vinte anos de nossas vidas ao estudo e em todo esse tempo nenhum professor consegue nos responder com coerência as três perguntas mais elementares da existência: De onde viemos? Para onde vamos? Por que existimos? Sabemos responder essas três perguntas tão mal como qualquer pessoa que sequer tenha sido alfabetizada. Mas pode ser que tenha sido mais tarde que me descobriram esquisito. Quiçá quando tinha uns 11 anos de idade e minha primeira namorada, sem modéstia a mais linda da praia, me indagou por que eu não usava calças um pouco mais compridas que não aquelas cuja bainha ficava a um palmo de distância do chão. Mas o fato é que sou mesmo diferente da maioria das pessoas. Por exemplo, não dou a menor importância para as roupas que visto. Não tenho a menor preocupação com minha aparência. Minhas calças, camisas, sapatos, cuecas, tudo o mais, uso até o aniquilamento. Não vejo razão para a maioria das pessoas não usarem camisas ou cuecas com alguns simpáticos remendos. Estão boas ainda. Podem durar muitos anos. Além do que gosto de costurar roupas e pregar botões. Para que trocar um par de tênis enquanto os pés e os dedos ainda estiverem dentro deles? Não consigo ver a menor necessidade. Aliás, uma calça antiga, de vários anos, veste muito melhor que uma calça nova. De tão acostumada com a gente, parece que a calça caminha sozinha. Ela se acostuma com nossos passos. Basta colocá-la que ela já parece saber para onde vamos. E um casaco velho, então... Ele traz consigo o aroma de vários invernos passados juntos. É um crime colocar fora um velho casaco amigo. Um abandono. Uma ingratidão com aquele que nos aqueceu em noites de frio rigoroso. Isso tudo não é esquisitice. Esquisitice é abandonar uma camisa só porque ela está perdendo a cor. Esquisitice é largar uma calça só porque apareceu nela um pequeno e insignificante furo ou porque está desbotando. O que fica velho não fica feio. Não há nada de feio num tênis velho. Um tênis velho, ao contrário de um novo, é único, ganha personalidade própria, já que construiu uma história própria, uma identidade. Andou por lugares que outros tênis jamais passaram. Um tênis novo sequer história possui. Na verdade, insisto em dizer e com convicção, esquisita é a grande maioria das pessoas. Não sabem distinguir o que é essencial do que é acidental, aleatório, acessório, sem importância. Roupa é para vestir, só isso. Importante que seja limpa, apenas isso. Sapato, tênis, sandálias são para calçar, nada mais. Veículos, por exemplo... Tenho uma motocicleta CB 450 DX ano 1989. Mais dois anos completará 20 anos. É uma relíquia. Uma antiguidade. Meio beberrona, é fato.  Mas ótima. Nunca me deixa na mão. Uma vez ao ano visita a oficina para fazer o check up de rotina. Geralmente pouco há para ser feito. Sua utilidade é a locomoção. Só isso. Daí a razão pela qual nunca me preocupei em lavá-la. Só é enxaguada quando chove. Para que lavar uma moto? Não faz sentido. Inclusive lhe é prejudicial. Até para a pintura. Como ela anda por essa cidade poluída, forma-se sobre a pintura uma fina camada de óleo que a protege contra a corrosão. Ninguém me convence do contrário: esquisito é a inutilidade, é preocupar-se com tudo aquilo que não é essencial e verdadeiramente importante.

 

            O barco estava perfeito. Tudo no lugar. Todos pequenos defeitos corrigidos. Mas existe a regra dos três números, um derivativo da Lei de Murphy, que por sua vez deita origem no antigo ditado que é sempre repetido pela sabedoria das avós de que o mal nunca vem desacompanhado ou desgraça pouca é bobagem. Pois é, foi uma velejada em que tudo pifou, ou como disse o Pires, o que não falhou é porque iria falhar.

 

            Cheguei no clube primeiro. Enquanto isso, o Tarcísio e o Pires passavam no supermercado para apanhar a carne e bebidas. Sal, tábua, churrasqueira, farinha, garfos, facas, panos, álcool, papel, tudo o mais para o churrasco já tinha dentro do barco. O Lumar tem tudo a bordo. É um veleiro absolutamente completo. Como o vento era relativamente forte, 20 nós com rajadas de 25 a 30, dei um rizo na vela grande. Mas como o barco ia velejar pesado (três tripulantes) resolvi deixar na proa a genoa grande. Esperei os dois com o barco pronto. Chegaram abarrotados com caixas de mantimentos e fiquei me questionando se eles imaginavam que estávamos partindo para uma espécie de safári ou para uma travessia oceânica. Nada comentei. Percebi que o Pires, que não conhecia o barco, estranhou o tamanho do veleiro. De certo idealizava que fosse um pouco maior. Ele nada comentou. O Pires veio todo bem arrumado, a rigor, e trouxe até umas taças de champanhe. Vai ver que imaginou que iria tomar champanhe, sentado à popa, segurando uma roda de leme. Lembrei de um texto que li numa tabuleta num barco: Bem-vindo a bordo... Relaxe Nosso barco não é sempre assim... Às vezes é pior. O Tarcísio, por sua vez, já veio mais preparado. Sabia que se tratava de um pequeno veleiro. Tinha conhecimento, através de amigos em comum que já tinham velejado comigo, que o veleirinho era extremamente simples. Naquela oportunidade, os tais amigos em comum ficaram muito assustados na volta de um passeio quando o vento parou e lhes noticiei que embora o Lumar tivesse motor, não tinha – e não costumava ter – combustível. De qualquer maneira, mesmo sem vento, o barco retornou ao clube com o auxílio das correntes do rio. Não fosse um pequeno tropeço numa das bóias que demarcam o canal na entrada no clube, aquela velejada teria sido perfeita.

 

            Já fazia muito tempo que estava devendo aquela navegada tanto para o Pires como para o Tarcísio. O Tarcísio, alguns dias antes, havia me dito que cogitava de se associar ao clube e começar a velejar, já que estava procurando por um hobby, preferencialmente ao ar livre. Desamarrei o barco do trapiche, empurrei-o e logo ele ingressou no vento. Como se tratavam de marinheiros de primeira viagem, nunca antes tinham velejado, tratei de, como sempre faço com iniciantes, tranqüilizá-los. Inclusive com o intuito de prevenir o enjôo, que se verifica mais comumente quando o tripulante sente medo. Informei-lhes que o Lumar era extremamente seguro. Que o lastro disponível na quilha não permitia que o barco virasse, por mais fortes que fossem ventos e ondas. Disse-lhes que tinha a bordo uma balsa inflável para até cinco pessoas, muitos salva-vidas e até pés de patos. Aproveitei para elogiar o barco e tentar desfazer aquela impressão que imaginei que a primeira visão do veleiro provocou no Pires. Esse barco tem de tudo. Rádio VHF para comunicar-se como clube e outros veleiros, rádio AM/FM, televisão para assistirmos o jornal nacional mais tarde, fogão, cartas náuticas, GPS, velas diversas, inclusive para temporal, piloto automático, bateria reserva, carregador, voltímetro, cozinha completa, ferramentas diversas para emergências, lixadeira, furadeira, armário completo para quem passar frio, cobertores, remédios para enjôo, dor de cabeça, etc., etc., etc.. Olhei de través para o Pires para verificar os efeitos de meu discurso. Seu semblante não manifestou sinais de otimismo. Deixamos o canal do clube e em seguida estávamos no rumo da Ponta Grossa. O destino era a praia do sossego, onde protegidos do vento e das ondas pelo morro, poderíamos ancorar e fazer um aprazível churrasco cercados pela densa floresta e por aquela bela paisagem. A lua era cheia. Vento sudeste. O barco velejava bem. Seguia firme no seu rumo, calçado no piloto automático, enquanto bebíamos uma cerveja gelada. O sol se punha no horizonte e a lua nascia. Seria uma bela noite com o rio iluminado pelo luar. Estava no meio do caminho entre o morro do Sabiá e a Ponta Grossa quando recordei que foi naquele local, há muitos anos atrás, que peguei um temporal com um veleiro Guanabara e passei por um sufoco. Estávamos eu e meu cachorro, o Paco, um fox terrier pelo de arame com excelente pedigree, mas meio pancada, retornando da ilha Chico Manoel em direção ao ICG. Um temporal vindo de sul se aproximava. Estava com preguiça e fui adiando a retirada da genoa. O vento entrou com toda a força e eu com a genoa em cima em um veleiro com nenhum lastro. O Guanabara saiu planando sobre as ondas. Navegando em alta velocidade, assustado, dei todo o leme para sotavento para o barco aproar o temporal. A guinada foi rápida e a velocidade era grande. Com a bolina cravada na água, o barco fez a curva e quase capotou lateralmente. Foi por muito pouco que o mastro não bateu na água. Se batesse,  o veleiro não teria desvirado e teria afundado. Guanabaras viram e não voltam. Quando o barco ficou de pé preocupei-me em saber por onde estaria o Paco. Talvez ele tivesse caído no rio. Procurei pelas bordas, na proa e não o achei. Olhei para dentro da cabine e lá estava ele, em cima da mesa, me olhando com os olhos arregalados apavorados. Subiu na mesa para escapar da água que estava a meio metro de altura dentro da cabine. Nunca mais esqueci aquele seu olhar indagando: E agora, que vamos fazer? Vamos escapar vivos? O Paco era completamente maluco. Era uma época complicada e talvez eu o tenha deixado assim. Maluco e sacana. Quando eu colocava as mãos sobre as bordas do barco voltando de um banho, ele as mordia, irritado e rosnando, tentando impedir minha subida a bordo. Eram os idos de 1986 quando minha mãe herdou um pedaço de campo no município de Mostardas, distrito da Solidão, a beira da Lagoa dos Patos. Desde meninote, graças a minha experiência de passar verões numa Fazenda de um primo trabalhando com o gado junto com a peonada, transportava pretensões agropecuárias. Aquele desejo contido, com a chegada do quinhão hereditário de minha mãe, aflorou. Abandonei uma promissora carreira de advogado criminal, um cargo de professor universitário na faculdade de Direito, peguei o Fuca, joguei uma mochila com salsichas, arroz, feijão e sopas em pó dentro dele, o Paco, e tomamos o rumo da estrada do Inferno em direção ao campo. Lá chegando, nada havia, só grama e um mato. Não havia estradas no campo, não havia água, luz, casa, nada. Armei a barraca no meio do mato e assim dei início a minha tão meteórica quanto curta carreira de fazendeiro. O Paco passou por maus bocados nessa época. As condições de conforto eram muito precárias e ele era um cachorro de cidade. Mas, mesmo assim, ele encarou bem aquela aventura. Lembro que ele gostava muito de correr na Estrada do Inferno. Abria a porta, ele saltava do carro e saia correndo a minha frente. Era como se ele quisesse me mostrar o caminho. Mas queria também chegar na frente, pois que quando eu tentava ultrapassá-lo pelo lado, ele fechava o automóvel com o corpo. Era doido o Paco. Nessa época eu tinha alugada uma casa no final da rua Anita Garibaldi. Um belo dia, o Paco pulou o muro da casa e fugiu. Nunca mais voltou. Nunca mais o vi ou ouvi falar dele. Foi procurar outro dono. Deixou saudades o Paco. Estava navegando nessas lembranças quando o leme, inesperadamente, soltou e o barco aproou no vento com as velas panejando e fazendo muito barulho. Soltou o leme, gritei, abaixem as cabeças para não tomarem um retrancaço!  Foi exatamente neste momento que o Pires me olhou com os olhos arregalados. Eu vi o Paco. Mas não se assustem que vou consertar. Na popa, inclinado, com o peito para fora da borda, de cabeça para baixo junto ao costado,  recoloquei, não sem alguma dificuldade, o leme no lugar. O pino do leme havia escapado do suporte inferior. Tudo normalizado, prosseguimos. Mas o sinal de que a regra dos três números e suas derivações ia ser acionada estava dado. Logo ali adiante o leme escapou de novo. E já muito próximos da Ponta Grossa escapou por uma terceira vez, só que desta vez o pino inferior do leme partiu. Daí tornou-se muito complicado de orçar contra o vento. Tivemos de mudar os planos e tomar o rumo da praia de Ipanema. Com o pé eu ia calçando o leme em sua parte inferior, tentando, dessa forma, substituir o pino quebrado. Mas é difícil calçar um barco de 600 kg com um pé. Quase quebro o pé. O Pires sugeriu ligarmos o motor, ao que lhe disse que não tinha gasolina a bordo. Justifiquei explicando que barco a vela dispensa motor e, por conseqüência, gasolina. Complementei afirmando que se tivesse gasolina, provavelmente o motor não funcionaria, já que há muito tempo não era acionado e motores em barcos a vela só funcionam quando são desnecessários. Foi quando pela primeira vez o Tarcísio sugeriu chamarmos o clube pelo rádio VHF para que nos enviassem um barco socorro para nos rebocar de volta. Cogitei de dizer um velho ditado náufrago: Reze em direção ao céu, mas reme em direção à praia. Preferi acalmá-lo dizendo que logo que chegássemos à praia consertaria o leme, eis que, afinal, era para isso que dispunha de uma oficina a bordo. O Pires comentou que estava com vontade urinar. Ofereci-lhe o penico que tinha debaixo do paiol do cockpit. O Lumar tem tudo.  Refugou. Preferiu esperar pararmos próximo à praia. O vento estava forte. As rajadas eram rápidas, violentas. O barco ia devagar para a frente calçado pelo meu pobre pé. As vezes não tinha como evitar que uma rajada maior fizesse com que ele virasse o bordo. Como eu estava com o pé no leme, não alcançava as escotas da genoa e, assim, o Pires, pouco experiente, demorava para soltar as escotas quando o barco virava o bordo e o que sucedia é que a genoa ficava atravessada no barlavento inclinando e quase virando o barco. Mas fomos ganhando terreno, ou melhor, água, aos poucos e finalmente, meio cansados, chegamos na praia de Ipanema. Joguei a âncora, baixei os panos e, a seguir, indaguei: E então, vamos fazer nosso churrasco? Os dois se entreolharam. O vento estava forte mesmo junto da praia. Tarcísio indagou se não haveria risco de o veleiro incendiar com fogo a bordo. Assegurei-lhe que não havia esse risco e que qualquer chama poderia ser apagada com um extintor de incêndio que tinha a bordo. O Lumar tem tudo.

 

            Embora o mal nunca venha desacompanhado, às vezes ele dá um tempo e o vento amainou um pouco, o que nos permitiu acender o braseiro e colocar a carne para assar na churrasqueira armada no cockpit bem na popa. Como fazer churrasco no escuro é a pior das gauchadas, orgulhosamente prendi no estai uma lâmpada de 40 watts com a respectiva extensão. Tem tudo. E a lâmpada acendeu iluminando a carne. Busquei nos armários e apresentei ao assador Tarcísio a faca de churrasco, a tábua, o sal grosso e a farinha. Enquanto a carne assava fui para a oficina dentro da cabine consertar o leme. Para substituir e fazer as vezes do pino inferior do leme enfiei um parafuso de ponta em cada lado do leme um pouco abaixo do pino inferior. Depois passei dois cabos pelo cano que esgota a água do cockpit e que vai dar na popa um pouco abaixo do suporte inferior do leme. Entrei na água com o leme. Prendi os cabos por uma ponta nos parafusos e na outra na ferragem que prende as amarras do barco e estiquei bem. Pronto, o leme estava consertado. Com pouco pano em cima, sem fazer grandes esforços, o barco estava perfeito para a volta. Foi quando retornei ao barco que todas as luzes começaram a se apagar. Ficamos às escuras. Verifiquei o voltímetro. A voltagem havia caído para menos de 10 volts. Não se preocupem, disse eu. Temos uma bateria reserva. Troquei a bateria. A nova tinha menos carga ainda. Procurei a lanterna. Achei. Tentei ligar. Sem pilhas. Buenas, meus amigos, ainda temos velas. Acendi quatro velas dentro da cabine, ao que o Tarcísio, comentou que aquilo já estava ficando parecido com despacho e que só faltava galinha no assado.  Bobagem. Comemos a picanha que ficou excelente, mesmo assada às escuras. Comemos a luz de velas e debaixo da lua iluminada. Fossem o Pires e o Tarcísio duas moças teria sido romântico. Resolvi fazer um contato com o clube pelo rádio apenas para me cientificar se havia algum barco a disposição caso se fizesse necessário nos buscar, mas o rádio não funcionou. Claro, as baterias estavam sem carga. Foi quando pela segunda vez o Tarcísio, mesmo me assegurando que a velejada estava ótima, que estava curtindo muito, etc e tal,  repetiu a idéia de chamarmos o reboque do clube pelo celular. Assegurei-lhe que agora estava tudo bem, que a volta seria rápida porque o vento seria a favor e que demoraria mais tempo chegar o reboque do que estarmos de volta ao clube. Enquanto isso, o Pires comia a picanha e olhava insistentemente para a praia de Ipanema. Foi quando cogitou que poderíamos descer na praia e voltar de táxi. Lembrei do Paco pulando o muro. Protestei. Eu não vou. Além do mais, consideraria isso um verdadeiro motim. Uma deserção. Eles riram. Riram nervosos, talvez. Mas dali para frente, eu tinha certeza, não poderiam surgir mais problemas. O vento era favorável e o leme estava bem preso. Seria levantar a âncora e encostar no trapiche do clube. Num tapa. Pá pum. Claro que a gambiarra podia não funcionar e sem leme o vento leste nos empurrar para o canal de navios e, sem iluminação, sermos atropelados por um cargueiro. Viver é estar aberto a todas as possibilidades. Mas era uma possibilidade remotíssima. Terminamos de comer a vaca e levantamos panos e âncora.

 

            O barco foi muito bem até o Morro da Conceição. Do Morro do Sabiá até o da Conceição, com tudo normalizado, a fome saciada, o que acalma os nervos, ventos fracos a moderados, pouca vela em cima, o Lumar deslizava com suavidade sobre as águas. O luar era refletido pelo rio. Mas a confirmar que solução do problema apenas muda o problema, em frente ao Morro da Conceição o barco parou. Terminou o vento. E com a corrente, começou a andar de para trás. Foi quando pela terceira vez o Tarcísio lembrou do reboque. Coloquei todas velas disponíveis e aos poucos o Lumar foi vencendo a corrente. Já estávamos próximos ao clube quando o Tarcísio me confessou que a velejada foi toda ela muito agradável, todavia, aquela função toda de levanta e baixa velas, sobe e desce âncora, tira e põe leme, estava lhe parecendo muito trabalhosa e que ele imaginava que velejar fosse algo mais descansado. Pelo menos, a velejada tinha servido para ele concluir que definitivamente velejar não era a sua praia. Entramos no clube pelo norte dos molhes. Estava a 20 metros a leste da ponta norte dos moles quando - PANC - ouvi um estrondo. A quilha havia batido numa pedra. Já tinha passado diversas vezes por aquele local e nunca tinha encontrado tal pedra. Nem nunca tinha ouvido falar da existência dessa pedra junto dos molhes. Mas deixa para lá. Não dei importância. Nem me dei ao trabalho de ir verificar a base da quilha para ver se não estava entrando água. Foi velejar mais alguns metros e – BUM – batemos de proa em uma bóia do canal. Absurdo. Barbeiragem completa. Estou ficando mesmo negligente. Simplesmente esqueci daquela bóia. Há questão de um mês atrás, velejava a noite, quando subi com o Lumar nas baleias da Ponta Grossa. Por sorte e por méritos exclusivos do construtor o barco não foi a pique. Estou sofrendo de excesso de confiança.  Ou Alzheimer.

 

            Finalmente encostamos o barco no trapiche. Tínhamos planejado voltar por em torno das 11 horas da noite do dia anterior. Eram três da manhã. Tão logo o barco parou,  Tarcísio e Pires, que já estavam de pé na proa com malas e cuias a mão, saltaram para o trapiche. Já fora do barco, e eu ainda dentro, o Pires foi incisivo: Flavio, vou ser bem franco, ou troca de barco ou troca de amigos. E ambos dispararam. Deus, a existir, há de ser meio gozador, ou não teria criado duas figuras tão à-toa como esses dois amigos. Fiquei só e com todas minhas convicções abaladas: será que plantar um extenso mato de eucaliptos traz mais felicidade do que plantar alguns pés de limoeiro, bergamotas e laranjas? Será que criar um rebanho de gado traz mais alegria do que criar uma meia dúzia de galinhas? Será que edificar alguns prédios traz mais satisfação do que construir uma pequena cabana com vista para um lago? Será que possuir e dirigir uma BMW dura feita um pau pode fazer alguém mais feliz do que flutuar num belo e confortável Ford Galaxy Landau ano 80? Ser um investidor profissional da bolsa de valores ou um jogador amador do bicho na bodega da esquina? O que pode ser melhor, comer uma fritada de lambaris recém pescados em uma praia remota de Itapoã ou ser servido a mesa num caro e tradicional restaurante francês? Será que um barco maior é mais prazeroso que navegar que o velho e bom Lumar?  Dúvidas existenciais. Talvez troque mesmo de barco ano que vem. Um pouco maior. É preciso experimentar para saber. Mas não muito maior, pois que como justificou aquele viajante russo que cruzou o Atlântico em um veleiro de três metros: Big boats, big troubles. Além do que não quero passar por excêntrico. Como diz meu amigo, o filósofo Jackson Busato: para a excentricidade só me falta dinheiro, idéias idiotas eu já tenho.

 

            Fechei o barco e subi na motocicleta mais antiga que meu casamento. Estava na altura do hipódromo do cristal quando a antiguidade tossiu. Ela nunca tinha feito isso antes. Pelo sim, pelo não, reduzi a marcha e retornei para casa devagar e com toda cautela.

 

 

 

Velejada à Tapes com uma banda de rock

 

                                                                   

 

 

 

Bodji & os pegando fogo - Kubiaki (baixo), Bernadete (baterista), Bodji (guitarra e vocal) e Pedro (saxofone)

 

 

Nesse último final de semana, meu filho e sua banda de rock tinham  um show marcado no sábado a noite em Tapes, distante 60 milhas náuticas de Porto Alegre. Para tirar uma onda resolveram ir velejando. Fomos lá, eu, meu filho, o saxofonista, mais dois componentes da banda, o vocalista Bodji e o baixista Kubiaki, duas guitarras, um baixo, os pratos da bateria, um saxofone e o Walter, meu fiel cão de guarda. Saímos as 18 horas da sexta-feira. Nessa viagem duas antigas teses se confirmaram. A primeira é a de que aqueles que vão ao mar por diversão são capazes de descer ao inferno a passeio. A segunda é a de que stress, esgotamento nervoso e tensão são genéticos, a gente herda dos filhos. Outra coisa que descobri é que pior que velejar com minha esposa no espaço confinado de um veleiro de 17 pés, é velejar com a banda de meu filho. Quando velejamos só eu e o Pedro, ele é um baita parceiro. Pega junto em tudo. Mas com a banda... Me transformei em capitão, marujo, timoneiro, navegador, proeiro, cozinheiro e faxineiro. A rapazeada coloca tudo fora do lugar, não arruma nada. Mas deixei passar, já que eu não era menos pior quando tinha a idade deles. No trecho clube/Ponta Grossa (5 milhas), tanto na ida como na volta, fiz com a ajuda do motor de popa. Entramos na Lagoa dos Patos devia ser umas 11 horas da noite do sábado. Passando a ilha da Barba Negra, o pau comeu. Eram mais de 30 nós de vento nordeste, com rajadas que chegavam a 35 nós. Com a vela grande no 2o. rizo e o tormentin na proa, o barco surfava nas ondas com velocidade entre 5 até 7 nós. Uma onda maior chegou quebrando pela popa, passou por cima da mesma e cascateou pela portinhola do cockpit para dentro da cabine molhando todos lá dentro. A noite estava clara graças à lua cheia. Mas as vezes algumas nuvens escondiam a lua gerando uma grande sombra pela lagoa. Meu filho não tem medo de velejar comigo, por maior que seja a roubada, mas ele confessou que ficou preocupado quando aceitei um gole da cachaça que estava roda. Não bebo mais. Até meus 30 anos bebi o suficiente por essa vida e algumas mais. Esgotei todas minhas cotas. Chegamos em Tapes as três horas da manhã. Tirei o fogão duas bocas do veleiro e o instalei junto ao trapiche na beira do rio. Como o vento estava muito forte, já eram seis horas da tarde quando a primeira porção de massa para quatro famintos se transformou num caldo de sopa de massa, já que a água, com aquele ventão, não esquentava. Foi quando tive uma boa idéia. Resolvi fazer as demais porções da massa dentro da casinha do vigilante noturno. A massa ficou boa, mas, o vigilante não. Ficou puto com aquela invasão de domicílio e massas e molhos esparramados pelo chão de sua casinha. O caso só não foi parar na diretoria do clube porque amaciei o homem com uma dialética de quase 30 anos de advocacia, adornada pelos trapos que estava vestindo na ocasião. Convenci o Belo de que éramos náufragos, sobreviventes de um furacão na lagoa,  e que estávamos famintos, no que, nesta parte, não menti. O cara acabou se tornando meu amigo. Tapes cresceu muito nesses anos. Mas o que mais me impressionou - e muito - foi o crescimento do Clube Náutico Tapense. A última vez que estive lá fazem 26 anos, quando aportei com um Guanabara acompanhado de mais quatro bêbados. Era um clubinho de um trapiche só. Transformou-se num grande clube, muito organizado, até com sauna e cancha de tênis. Estão de parabéns os tapenses.  Meu filho, e sua troup, depois da janta foram fazer o show. Fui dormir no barco porque passei a noite anterior de olho navegação. Retornaram às 7 horas da manhã e antes de ingressarem no barco resolveram tomar um banho de roupa, sapatos e tudo o mais no Saco de Tapes para curar a carraspana, posto que a idade deles é a ideal para fazer merda. A volta no domingo foi mais rápida que a ida. Vento leste na lagoa e sudeste no Guaíba. Saímos as oito da manhã e chegamos no clube as dez horas da noite. Quatorze horas de velejada, o que dá uma média de velocidade aproximada de 4,3 nós. Para um Tchezinho 17 pés, nada mau. Como Jesus é misericordioso, a banda Bodie & os Pegando Fogo fez todo o trajeto de volta dormindo, quietinhos e imóveis dentro da cabine. Ao chegarmos de volta indaguei ao Bodji se sentiu medo na noite anterior quando percorremos a lagoa com ventos fortes. Respondeu-me que não sente medo quando nada pode fazer diante da adversidade. Que nessas condições, resigna-se aos fatos, com consciência de que sentir ou não o medo não fará a menor diferença. Interessante filosofia. Quanto ao Kubiaki, não fiz a mesma pergunta porque sabia que não sentiu. O Kubiaki é pancada. Mas, enfim, o Walter adorou a velejada.

 

 

 

Reclamações de leitores. Pausa para explicações

 

      Em 1 de dezembro de 2008.  Ou por aí, ou nos trapiches, ou no rio, ou através de emails, algumas pessoas reclamam que não tenho escrito novos capítulos. Isso me deixa contente. Demonstra que alguns estão gostando da leitura de meus textos. Sou um ficcionista frustrado. Tomei gosto pela leitura ainda criança. O primeiro "livro" que li do começo ao fim, foi uma revistinha em quadrinhos de Walt Disney, talvez um almanaque Tio Patinhas. Lembro até hoje onde o li. Foi na rua Barão de Santo Ângelo, em frente a casa que morava, número 198, sentado na calçada. Devia ter uns oito ou nove anos. Desde então nunca mais parei de ler. Tintim, Érico Veríssimo, Morris West, contos diversos. Durante muitos anos alimentei o sonho de escrever um romance. Mas creio que não tenha criatividade suficiente para tal.  De certa feita, até tentei, era um romance policial, mas acabei me perdendo e me enrolando no roteiro e fiquei sem saber para onde ir. Acabei escrevendo uma meia dúzia de livros técnicos, livros sobre Direito. Direito, lei e interpretação são algo muito semelhante a um quebra-cabeça, tema chato portanto. Então, o que sobrou foi esse Diário. O fato de não escrever há um bom tempo, tirando o capítulo anterior que é bem recente, não significa que o Diário tenha chegado ao final. Diria que é bem provável que esse Diário continuará a ser escrito por vários anos, claro, partindo do princípio de que eu venha a viver vários anos. Há muita coisa a ser dita. Não apenas sobre Vela, mas também diversas idéias, concepções, conceitos, doutrinas, enfim, besteiras em geral, que no curso desses anos construí dentro de minha cabeça. O projeto de subir a costa brasileira num veleiro está cada vez mais definido no grupo de minhas intenções e projetos. E aí, mas uma razão para continuar escrevendo, já que na medida em que escrevo, aprendo e registro observações e informações úteis. Breve escreverei um pequeno capítulo sobre truques, macetes e dicas de manutenção e melhoria de um veleiro. Vou antes tirar algumas fotografias que serão úteis às explicações.  Tenho feito, pessoalmente, diversas pequenas melhorias no LUMAR e aprendido muito com isso.  Posso dividir esses conhecimentos. Tenho, também, lido bastante ultimamente sobre cruzeiros e temas diversos relativos à Vela, tais como, meteorologia, oceanografia, regulagem de velas, de mastro, história da Vela, furacões, correntes marítimas. Aliás, essa é uma das razões porque tenho escrito pouco ultimamente, tenho lido muito. Creio ter devorado mais de uma dúzia de livros de Vela só este ano.  Então, material é que não falta para escrever. Apenas, solicito paciência. No mais, continuem escrevendo e reclamando para meu email [email protected]

 

 

 

 

 

 

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