Arroio Araçá, Ponta do Salgado, Acampamento de Pescadores, Mariscos e Peixes, Jacarés, Juncos, Passagens, Cobras e outros Bichos
O
que algumas pessoas conquistam com talento e profissionalismo, outras, as
medíocres,
obtêm com adulações.
Mederianas

Placa numa figueira da Ponta do Salgado
Era sexta-feira, dia 21 de Janeiro de 2005. Eu e o Pedro fomos de táxi até o clube para dormir no barco e partir no sábado pela manhã. Como todo bom adolescente, o Pedro esqueceu sua mochila no táxi, o que foi resolvido com a pronta atuação do celular, com que ele telefonou para o ponto do táxi. Conversamos um pouco à beira da piscina, fizemos uma sopa no barco e em seguida dormimos.
Soltei as amarras eram 7 horas da manhã, com o Pedro ainda dormindo. Como havia sido combinado um Velejaço até o Arroio Araçá, resolvemos tomar esse rumo. Próximo à Ponta Grossa, Pedro acordou e assumiu o leme. Vento de fraco a moderado. Passamos a Ponta Grossa e evitamos o banco de areia da Ponta das Ceroulas (não dá para navegar em linha reta da Ponta Grossa ao Arroio Araçá - é necessário desviar o banco da Ponta das Ceroulas, que fica a à esquerda). Aproximando-se do Araçá, evitamos a Pedra do Soldado (uma pedra submersa próxima a margem - ver carta abaixo).

Se a idéia fosse passar próximo de Barra do Ribeiro antes de seguir para o Araçá, seria necessário evitar a Pedra do Chagas que fica a Nordeste desta cidade (ver Carta abaixo) e evitar o banco de areia que aparece na Carta logo que passa Barra do Ribeiro no rumo Oeste, e a Pedra do Soldado.

Chegando à Ponta do Salgado, fomos margeando sua costa. São matas seguidas de praias diversas com muita areia branca. Belos locais para parar e descer.

Praias da Ponta do Salgado
Na enseada que dá ingresso ao Arroio, ficamos mais próximos da margem esquerda, pois na da direita há um baixio (assinalado em verde na Carta acima). Há uma pequena ilhota em frente à entrada do Araçá. A uns 70 metros antes dessa ilhota, encostamos (2 m de distância) na margem da direita, onde há uma passagem com profundidade de 1,60 m (no inverno pode chegar a 2,50 m). Vencida a passagem, baixamos a bolina para "ancorar" o LUMAR, descemos e fomos ajudar a desencalhar um veleiro do ICG que estava 10 metros a Oeste da passagem. Um no motor, outro puxando o veleiro por um cabo pela proa, eu, o Pedro e uma senhora puxando o topo do mastro pela adriça presa a uma extensão. Enquando adernávamos o barco, o motor e a força daquele que puxava a proa foram aos poucos desencalhando o veleiro, até este atingir a passagem bem junto da margem leste.
Ingressamos arroio adentro por uma meia milha. Vimos na margem direita um veleiro Bruma amarrado. Com um corrico (linha e isca artificial amarrada na popa do barco) tentamos, sem sucesso, capturar peixes no arroio. Demos meia-volta e rumamos para a ponta da Ponta do Salgado, onde tínhamos, na chegada, avistado alguns barcos de pescadores.

A beleza natural no interior do Araçá

Bem próximos à ponta, já dentro de sua passagem, jogamos a âncora e desembarcamos.
O LUMAR ancorado junto à "ponta" da Ponta do Salgado (dentro da passagem)
Encontramos morando ali os pescadores Silmar e seu pai, Dunga, este com mais de 70 anos;, o Preto e o Hulio, dois cachorros, pai Labrador e filho meio-sangue. Os pescadores do Guaíba em sua grande maioria têm dois domicílios:, o acampamento nas margens do Guaíba e a residência na cidade (Ilha da Pintada, Guaíba, Belém Novo, Barra do Ribeiro, Itapoã), onde ficam esposa e filhos. Esses acampamentos vão desde uma simples barraca até casas de madeira. O acampamento do Silmar era constituído por uma barraca feita de lona localizada numa clareira no interior da ponta e no meio da mata. A clareira, onde há três figueiras dando sombra (e inexiste melhor sombra que aquela proporcionada por figueiras), é extremamente agradável, porque o sopro do Leste e do Nordeste (ventos predominantes no Guaíba) passa por entre algumas aberturas da mata nativa junto a sua margem Sul. Essas áreas pertencem ao Estado, com ocupação por parte dos fazendeiros e dos pescadores. Os fazendeiros não costumam se opor à ocupação por parte dos pescadores, já que estes ajudam a vigiar o gado contra a ação de ladrões. Os bandidos agem à noite. Partem em pequenas canoas das cidades próximas, adentram fazendas, laçam a rês, matam à moda gaúcha - esfaqueando o pescoço e cortando a jugular -, carneiam e transportam os pedaços dentro das embarcações. Me contaram de um caso de um ladrão que levava a rês de arrasto dentro da água, presa por um cabo. Diante da aproximação de alguma embarcação, limitava-se a cortar o cabo que prendia o barco à rês.

Uma agradável clareira no interior da Ponta do Salgado

Acampamento do Silmar

Interior do barraco
Nessa filmagem (clique) está a clareira no interior da Ponta do Salgado. Aparece o barraco, a abertura na mata para o Guaíba, o Silmar sentado, o Pedro e as figueiras.
Alguns velejadores têm certo receio de aproximar-se de praias ou recantos onde estejam pescadores. Não há nada a temer. Os pescadores são pessoas simples, humildes, trabalhadoras, inofensivas e extremamente hospitaleiras. No máximo, há entre eles um que outro mão leve. Metade deles começa a beber cachaça já pela manhã, mas isso não os torna ameaçadores. Quem quiser comer muito peixe na grelha, beber sucos ou mesmo uma pura, fumar cigarros, é só se enturmar em um acampamento de pescadores. São generosos anfitriões.
No lado Norte da ponta, a alguns poucos metros da residência do Silmar, tinha um acampamento de pescadores. Estavam ali o inquieto Julio, fumando de quatro a cinco carteiras de cigarro por dia;, o Jorge, um caolho muito engraçado; bebendo sempre de duas a três garrafas de cachaça, o Véio, pai do Julio, completamente surdo; o Osmar, o mais sério de todos; o Leandro e o Manezinho. Estava por lá, também, o Nenê, um lancheiro, com toda família, pai, mãe, esposa e filhos.
Não tínhamos ainda almoçado, já eram 15 horas, e para nossa sorte, encontramos um fogo em brasa no chão com uma grelha. O Pedro pediu autorização para assar o vazio que levamos e aprontou um churrasco que ficou ótimo, macio e ensangüentado. Repartimos com os pescadores.
Grelha esperando pelo churrasco
Nem feita a digestão, o Pedro partiu para o banho no Guaíba, nesse local apropriado para tal, enquanto que eu fui dar uma organizada geral no LUMAR. Pedro ficou nadando e fazendo guerra de barro (tirado do fundo do rio) com, Guilherme e Renan, filho e sobrinho do lancheiro Nenê.
Depois de arrumar o barco, examinar se âncora estava bem presa no fundo, tirar o leme para ele não bater no chão caso entrassem ondas à noite, fui, por dentro da água, caminhando, explorar a passagem da Ponta do Salgado, cuja existência havia confirmado previamente com o pescador Silmar.
A passagem tem 1,60 m (sempre que falo em profundidades, estou me referindo àquelas que deveria constar da Carta - essas passagens não estão assinaladas na Carta). Naquele dia estava com 1,40 m porque o Guaíba estava 20 cm abaixo do nível da Carta, segundo a régua da Harmonia. A passagem é formada pela corrente da água subindo ou descendo o rio, que vai escavando o seu leito. Quanto mais próximo da ponta da Ponta do Salgado, mais a passagem se aproxima da margem. Bem junto à ponta, ela está a 3 a 4 metros da margem e tem uma largura de mais 4 metros. O fundo é de lodo, uma areia bem preta, escura, meio mole, na qual os pés afundam alguns centímetros. Atravessando a passagem, chega-se ao banco de areia (Coroa) da Ponta do Salgado, com 90 cm de profundidade (70 cm no dia). Ali, o solo já é bem mais firme, e a areia, mais grossa. Há muitas conchas de mariscos já mortos no banco, que tornam difícil a caminhada, com possibilidade de cortar os pés. Para quem está velejando, uma das maneiras de descobrir o rumo da passagem é descendo do veleiro e caminhando pelo rio. Há outras. Se não estiver ventando, a água, na passagem, é mais escura (porque é mais fundo). Se estiver ventando, as ondas ao saírem do banco de areia (mais raso) e ingressarem na passagem perdem, repentinamente, sua altura. Esse fenômeno é visível de cima do veleiro.
Aqui se faz necessária uma rápida explicação sobre ondas, já que em outra momento afirmei que elas precisam de profundidade para crescer. A onda é constituída por uma parte visível e uma outra parte que está abaixo da superfície. Se a parte que está abaixo da superfície for pequena (local de pouca profundidade), a onda não consegue crescer para cima da superfície, pois ela precisa crescer “para baixo” primeiro para poder crescer “para cima”. Se a onda vem de uma profundidade maior e encontra um baixio, ela tende, num primeiro momento, a crescer “para cima” (porque a sua parte debaixo é empurrada para cima pelo solo) e, algumas vezes, até a quebrar (estourar). Daí a razão das ondas do mar crescerem em altura e aumentarem sua verticalidade à medida que se aproximam da costa até o ponto em que quebram na rebentação (onde há um banco de areia). Se, ao contrário, a onda vem de uma profundidade menor e encontra, de repente, uma profundidade maior, ela "afunda", diminui de tamanho, pois a parte que está abaixo da superfície ganha mais espaço em direção ao fundo. Esse fenômeno ocorre tanto no Guaíba, como na Lagoa dos Patos, como em alto-mar. Em alto-mar ele é descrito em algumas passagens do livro da Família Schurmann.
A noite se aproximou. Aprontamos e comemos uma sopa a duas colheres e uma panela, eu e o Pedro. A conversa com os pescadores entrou noite adentro e lá pela uma da manhã esticamos a rede entre duas árvores, deitamos e dormimos. Quando se deita em rede no mato, sob a copa das árvores, é bom que se coloque um cobertor ou lençol por sobre ela, com suas pontas para fora, para que algum bicho que caia de uma árvore não vá parar ali, mas no chão. Como não fiz isso, uma aranha caiu na rede e acabou nas minhas costas. O Pedro, por volta das 6 da manhã, a hora do mosquito, teve seus braços e pernas atacados por uma esquadrilha. Passou repelente líquido na pele e voltou a dormir. Por volta do meio-dia, a fome, com mais autoridade do que eu, conseguiu despertá-lo. Os pescadores lhe ofereceram um prato arroz e feijão. Ele aceitou de bom grado e comeu. Só não aceitei o convite porque já tinha antes me alimentado com pedaços da carne que haviam sobrado do churrasco do dia anterior. E minha maior preocupação não era com comida mesmo. Andava muito preocupado, desde a noite anterior, com cigarros. Os meusjá estavam findando. Acordei pensando com o assunto. Tinha saído do clube com apenas três maços de propósito, para não fumar demais. Estava arrependido. Insinuei a um dos pescadores, que me vendesse alguns cigarros. Ele, prontamente, para minha completa e total alegria, me deu um maço inteiro e fechado. Cigarros de segunda, mas, sobretudo, cigarros. Aquela nuvem negra que se formava no horizonte naquela dia e que estava me incomodando desde que havia acordado dissipou-se totalmente. Me vem a mente uma frase de Oscar Wilde: A única restrição que faço aos cigarros é não poder fumá-los todos de uma só vez.

Fogão à lenha, onde é feita a comida dos pescadores

Da esquerda para a direita: pescador Júlio (fumante inveterado), Pedro Medeiros, pescador Osmar, eu, lancheiro Nenê, pescadores Leandro, Véio e Manezinho
Sentamos, eu e o Pedro, a à sombra da clareira, ao lado do acampamento do Silmar, para aproveitar o vento fresco que vinha do Leste. A seguir, o Pedro, o Hulio e o Preto ficaram brincando. O Pedro jogava longe um chinelo velho, os cachorros Hulio e Preto brigavam e um deles retornava com o chinelo na boca. Dois cães grandes, fortes, bem alimentados e bravos. Mas muito amigos, depois que se é apresentado a eles por seu dono, o Silmar. Senti falta do Walter, meu fiel cão de guarda, e, na altura do estômago, um terrível remorso por não tê-lo trazido daquela vez. Me senti um crápula, tamanha e inominável injustiça que pratiquei com o meu fiel guardião. Ele estaria adorando aquele lugar.
Neste momento são três horas da manhã e o Pedro está ao meu lado lendo o que escrevo. Sinto vontade de visitar a geladeira e peço a ele que continue a narrativa.
Escrito pelo Pedro:
Meu pai me sugeriu que eu pegasse uma tarrafa (para quem não sabe, é uma rede) emprestada com o Nenê e fôssemos pescar. Eu nunca tinha pescado com uma tarrafa, e ele não conseguia pegar peixe há dez anos. Eu e o velho, gordo com mais de cem quilos, suando feito um porco, ficamos no fundo aprendendo a jogar a rede. Jogando-a para o completo nada, até que enfim pegamos o jeito. Voltamos para o acampamento com as mãos vazias. O velho pediu para o pescador Osmar me ajudar a achar peixe. Osmar tem mais de quarenta anos de pesca. Se tu não pegar peixe com ele, não pega com mais ninguém. Fomos na beira, onde tinham cardumes de lambaris, com Osmar atraindo um monte com resto de comida. Eu jogava a rede e puxava com um monte de peixinhos. Deu para pegar mais ou menos duas dúzias de lambaris. Logo depois voltei para a água.
Arrumamos nossas coisas para ir embora. Não encontramos uma colher e um garfo. Levantamos as velas e a âncora rumo ao Jangadeiros. Ventos realmente muito bons. Vento Leste e, sendo assim, nosso percurso foi de 3/4 e través. O vento foi de 20 nós, com rajadas de 25 . Ventos muito constantes. A média do barco foi de 8 nós, sendo que fizemos todo percurso em apenas 1 hora e 40 minutos. Por causa disso, quis ficar no timão o maior tempo do percurso. No barco, meu pai percebeu que deixou seu chapéu lá no acampamento. O engraçado é que sempre esquecemos algo. Mesmo assim, esta foi a viagem mais organizada que fizemos. Nas outras era tudo só com dois pacotes de bolacha, leite condensado, sem dinheiro, sem roupas e que Deus nos guie e ajude.
Quando chegamos no clube, um pouco
depois das 19:30, meu pai tomou uma ducha. Eu comi umas torradas,
e ele, um prato de
comida e um enorme sorvete (como está de "dieta"). Vi meus numerosos cortes e
arranhões na sola dos pés causados pelos mariscos na areia do rio. Então, depois
de uma baita velejada e um acampamento, acabou nosso fim de semana.

Pedro, um índio?!
Sentado ali na clareira, eu, o Pedro e o Silmar, conversamos sobre diversos assuntos, entre os quais, animais que habitam as margens do Guaíba, cães, peixes e pescarias, mariscos e mulheres.
Como escrevi acima, o Preto é um cão da raça Labrador. Totalmente preto. Tanto ele quanto seu filho, o Húlio, são cães que cuidam bravamente do território de seu dono. Quando chegamos e eles ainda não nos conheciam, vieram latindo brabos em nossa direção. Fomos "salvos" pelo Dunga, que gritou para que parassem. Logo após, nos farejarem e nos conhecerem, tornaram-se nossos amigos, o que é próprio do sangue Labrador. Essa raça é utilizada para a caça aquática, porque eles têm grande mobilidade dentro de banhados e um excelente faro. Entre os dedos do da Labrador há uma membrana, semelhante a dos patos, que o auxilia a nadar. Teve uma época, no final da década de 80, em que eu criava cães da raça São Bernardo. Tinha seis fêmeas e um macho reprodutor de nome Don Corleone. Era um cão enorme, que, de pé, em duas patas, era mais alto que eu. A raça São Bernardo é utilizada para procurar e salvar pessoas perdidas na neve. Eles tem um faro excepcional e, com sua densa pelagem, não sentem frio. Ao encontrarem uma pessoa congelada na neve, se deitam sobre ela, lambendo-a e aquecendo-a. Outra característica interessante é que ele não pode ver uma pessoa nadando que imediatamente se atira na água e "agarra" o nadador com a boca com vistas a levá-lo de volta à margem. Caso o nadador se agarre firmemente ao São Bernardo, ele passa a nadar transportando a pessoa. A maioria dos cães dessa raça fazem isso sem que precisem ser ensinados. Herdaram esse comportamento da raça Terra Nova, umas das que lhe originaram. O Terra Nova era utilizado por pescadores no hemisfério Norte para salvar pessoas que caíssem na água. A bondade ao extremo é o traço distintivo da nobre raça São Bernardo e se expressa em seu olhar doce e quase humano, que busca o fundo de nossos olhos.
Pelo temperamento e atitudes do Preto e do Hulio, conclui que se tratam de cães amados por seu dono. Cães amados desenvolvem um temperamento tranqüilo, são dotados de um saudável orgulho próprio e são afetuosos. Não são muito diferentes dos homens.
Conversamos com o Silmar sobre alguns bichos que vivem às margens do Guaíba, tais como:, jacarés, cobras, aranhas, lontras, mão pelada, ratão do banhado, capivaras, graxaim, tartarugas e bugios.
Os jacarés são poucos, mas existem. Ali pela Ponta do Salgado tem um que anda rondando ultimamente. O vi numa noite de 2003, passando próximo a ponte da Ilha dos Jangadeiros e confirmei com os porteiros que de fato há um jacaré que anda por ali. É fácil de reconhecer um jacaré nadando na superfície. Fica para fora da água os seus dois olhos e para trás deixa um risco na superfície. Dizem que no Araçá tem vários, especialmente mais acima desse arroio. Eles não atacam. Só se tornam perigosos se pisarmos neles. Por isso, andando próximo a juncos, pedras de margens e matas de margens, é bom fazer barulho batendo na água. Isso os espanta.
Cobras não são muitas. Mas há. Inclusive venenosas. Os locais onde se encontram mais cobras são os matos da Ponta Grossa, a Ilha do Presídio, a Ponta das Pedras (fica ao Sul da Ponta do Salgado - na mesma margem), o Morro da Formiga, localizado na Lagoa dos Patos, e as diversas ilhas do Jacuí. Deve-se ter muito cuidado ao adentrar os matos de eucaliptos. No chão, há toda uma vegetação que cai dessas árvores, formada por folhas e galhos, onde tem muitas cobras, especialmente quando esta vegetação está seca. Cobras, como os jacarés, não atacam se não forem pisadas. É necessário cuidar ao colocar os calçados que se encontravam a campo ao acordar, pois por serem um abrigo quente, algumas vezes as cobras neles se instalam, à noite, especialmente em se tratando de botas.
Aranhas são encontradas muitas nos matos da Ponta Grossa. Ali habita a caranguejeira, uma aranha preta, peluda e que chega a ter o tamanho de uma mão aberta. Sua mordida dói às pampas.
As lontras aparecem volta e meia. Estão em extinção. Graxaim também.
O mão pelada é um animal muito parecido com um cão ou uma raposa. Vi um à noite, no início da década de 80, naquela estreita faixa de areia que separa o Saco de Tapes da Lagoa das Patos. Seus olhos brilhavam na noite. Voei para o barco que estava ancorado no Saco de Tapes. Dizem que não ataca. Não acredito. Um desses já colocou meu irmão a correr no Morro da Ponta Grossa. Talvez fosse uma fêmea cuidando de suas crias.
Ratão de banhado e capivara existem aos bandos no Guaíba e, mais ainda, na Lagoa dos Patos. Pescadores, peões de fazenda e lavradores costumam comer esses bichos. Sua caça é proibida, assim como é proibida a caça do jacaré, da lontra, do mão pelada, do graxaim e dos bugios. Já provei a carne dos dois no distrito da Solidão, município de Mostardas, quando me foi oferecida por lavradores de arroz. O ratão do banhado não é bom. Uma carne seca, dura e sem gosto. Além do que trata-se de um rato! A Capivara, ao contrário, tem uma carne extremamente gordurosa. Mas também não me agradou. Muito forte. O número de capivaras, diferentemente do que se previa anos atrás, tem crescido bastante ultimamente, e há quem diga que, não demora, terão de liberar sua caça, assim como liberaram a caça do javali no interior do Rio Grande do Sul, que havia tornado-se uma verdadeira praga, especialmente para as lavouras.
As tartarugas são bastante comuns e fáceis de serem vistas no Guaíba. Em toda a sua extensão, próximo às suas margens, podem ser vistas cabeças de tartarugas para fora da água.
Os bugios habitam o Parque de Itapoã e alguns morros próximos. São uns macaquinhos muito simpáticos e que quando encontram um veleiro aberto e desabitado, fazem o maior carnaval, tirando tudo do lugar e inclusive furtando objetos e alimentos.
As variedades de peixes no Guaíba são muitas. Tem lambari, bagre, cascudo, piava, tainha, pintado e outros. Cada pescador tem em média de 30 a 60 redes. Segundo me contou o Silmar, alguns pescadores, os mais preguiçosos, limitam-se a retirar e recolocar suas redes uma vez ao dia. Já ele, tem 30 redes, que são retiradas e recolocadas uma vez ao dia e mais outras 30 para a pesca da tainha. A tainha não pode ficar presa à rede para ser recolhida apenas no dia seguinte, porque morre rapidamente e, boiando, apodrece. Dessa forma, o bom pescador fica navegando lentamente a motor, procurando por cardumes de tainha. Quando avista um cardume, ele o cerca com um grande número de redes (aproximadas 30), espera duas horas até a tainha "malhar" (prender-se na rede) e recolhe as redes. A seguir, sai novamente em busca de outro cardume, prosseguindo com a operação por todo o dia. Alguns (poucos) pescadores de tainha batem na água com taquaras depois de cercá-la, para que os peixes corram em direção às redes. Essa prática é proibida, pois se todos fizessem isso, o barulho dentro da água seria tão grande que espantaria os peixes das águas do Guaíba e da Lagoa dos Patos. Peixes são avessos à poluição sonora. O resultado diário da pesca é muito variável. Vai desde não pescar coisa alguma até pescar de 500 a 600 kg de peixe. O quilo de peixe (Piava, por exemplo) é vendido pelo pescador a U$ 0,5 e é comprado por nós no mercado público por U$ 2. Nos meses de novembro, dezembro e janeiro a pesca é proibida. Nessa época, os pescadores recebem um salário mensal para não pescarem. Caso sejam surpreendidos pescando com redes, perdem a licença de pescador, as redes e até a embarcação, além de serem multados. Sabe-se que muita gente que não é pescador tem a carteira, somente para receber os salários nos meses da pesca proibida. Esse assunto vem sendo examinado pelas autoridades graças a uma recente atuação da imprensa. Se tem coisa que mexe com autoridade é cutuco de imprensa.

Diversas redes de pesca

As bandeiras para assinalar as redes são construídas de forma rudimentar, sem maiores custos. Como bandeira, um pedaço de plástico. Uma haste de madeira. Um pedaço de isopor preso no meio por um cabo de nylon. Uma pedra embaixo para com seu peso manter a bandeira de pé.

As âncoras são fabricadas entortando-se chapas de ferro e soldando as chapas entre si. Simplicidade, economia e total eficiência.
Enquanto o Silmar enrolava para mim um de seus cigarros de palha, lhe indaguei se os mariscos que apareceram no Guaíba nos últimos anos não estavam contribuindo para tornar o rio mais piscoso. Esclareço que esses mariscos, segundo comentam, infestou o Guaíba depois que um navio vindo do Oriente teve seu casco desencracado em nossas águas. Me respondeu que não. Que os mariscos contribuíram, sim, para diminuir os cardumes de peixes. É que, segundo explicou, esses mariscos se prendem às raízes dos juncos, derrubando-os, e o limo que se forma na haste submersa dos juncos constitui em alimento dos peixes. Recordo-me do Guaíba há anos atrás. Efetivamente havia muito mais juncos. As coroas (bancos de areia que se formam a partir dos pontais do Guaíba) eram infestadas de juncos e hoje estão peladas completamente. Recordo, também, que, quando criança, encontrava várias hastes secas de juncos na beira da praia da Ponta Grossa. Hoje são poucas. Lembro dessas hastes porque as utilizava para fazer "armadilhas". Cavava um buraco de meio metro na praia, colocava hastes secas de junco sobre ele, em seguida botava um jornal por cima, e, por final, tapava o jornal com areia da praia. Meus irmãos, ou um vizinho desavisado, vinham tranqüilamente caminhando pela praia e caíam no buraco.

Um juncal, com parte dele derrubada pela ação dos mariscos.

Os mariscos prendem-se às raízes dos juncos. O juncos perdem a sustentação e caem. Sobram apenas as raízes às quais os mariscos continuam presos. Na foto ao lado dá para ver as raízes, que sobraram, tomadas pelos mariscos. Uma espécie de galinha do mato teve seu estômago aberto por um pescador, onde ele encontrou diversos mariscos. Seria um predador?
Mulheres..., sim, mulheres... Silmar me indagou se minha esposa não costumava me acompanhar nas velejadas. Disse-lhe que no máximo ela dava umas voltinhas rápidas próximo ao Clube e que seria pretensão demais de minha parte querer que ela gostasse de velejar num barco pequeno, apertado e sem vaso sanitário, como o Tchê. Silmar, por sua vez, me contou que sua esposa não quis lhe acompanhar e que preferiu ir para uma "praia de mar": Praia de mar é coisa pra gente rica, não para mim. Quando ela se foi, me pediu dinheiro, dizendo que só tinha seis reais. Respondi que fosse com seus seis reais e que eu não ia lhe dar nada. Onde já se viu?! Me pedir dinheiro pra ir pra praia de mar?! Ela que se vire! Nem da perereca sinto falta! Dia dessas me telefonou querendo voltar. Disse que não a queria de volta e que ficasse por lá mesmo. Comigo mulher se trata assim. Se não, dá uma mão, querem te comer inteiro.
Havia uma pequena tarrafa na redondeza e achei que era hora de ensinar o Pedro a jogá-la. Depois de algumas tentativas, ele pegou o jeito. Osmar lhe ajudou a pescar alguns lambaris.

Na tarde de domingo, uma enorme quantidade de biguás pescando em cima de um cardume de pintados. Os pescadores estão bastante otimistas quanto à pesca nesse ano, cuja temporada está começando. Parecem haver mais peixes no Guaíba que nos anos anteriores. Mais à tardinha, em nosso retorno a Porto Alegre, pudemos observar no trajeto diversos peixes saltando do Guaíba. Fico a me indagar se a infestação de algas do mês anterior não teria contribuído para o aumento da população de peixes.
Já eram quase seis da tarde quando levantamos âncora após nos despedir. Vento forte constante. Havia virado para Leste. Deixávamos para trás um local para onde, com certeza, voltaríamos.
No meio do trajeto de volta, me dou conta de que esqueci meu querido chapéu na Ponta do Salgado. É impressionante como ando me esquecendo de coisas ultimamente. Deve ser esclerose. Mas em parte é algo que já está se tornando uma espécie de hábito e que, ao contrário do que se possa pensar, julgo tratar-se de um hábito saudável. Passei a maior parte de minha vida correndo atrás dos ponteiros do relógio. Eles, sempre a minha frente. Eu, sempre com aquela sensação de estar atrasado. Sempre com pressa. Com pressa de fazer, de acontecer, de realizar. Vida insana. Completamente insana. Só o que se obtém com a pressa é aumentar nossas probabilidades de errar. É semelhante a um cruzeiro à vela. Quando houver pressa de chegar, maiores são as possibilidades de não chegar. De uns anos para cá, aderi à prática da lentidão, da preguiça, da tese da menos ação com mais meditação. Menos é mais. Esquecer, não anotar, não buscar previsões próximas da perfeição, não planejar detalhes, faz parte dessa nova estratégia de vida. Deixar acontecer, para só depois optar por um rumo. O próprio mundo está a exigir isso de todos.
Essa correria louca com vistas às rápidas realizações pode nos levar a caminhos equivocados. O mundo precisa de freios. Tudo está acontecendo rápido demais. É conseqüência, em grande parte, da rapidez com que se processam hoje as trocas de informações. O acesso a elas se tornou muito mais fácil e rápido. Os avanços da tecnologia e da ciência estão se verificando em crescente processo de aceleração. É fácil de entender isso. Toda idéia nova, toda nova invenção, nova técnica, novo remédio, seja lá o que for, é resultado da comparação entre idéias e experiências anteriores. Há tempos atrás, para que um cientista obtivesse o conhecimento de uma nova idéia, tese ou teoria, podia levar anos. Dessa maneira, para contrapor suas próprias teses com as que já existiam, demorava, também, anos.
Hoje, o conhecimento se tornou universal. E mais que isso: imediatamente universal. A troca de idéias e a comparação entre elas se processa de maneira muito rápida e assim, o progresso, a evolução das técnicas, a própria história do homem, acontece mais rapidamente. Do vôo de Santos Dumont em 1906 até o homem pisar na Lua demorou quase um século. Da primeira nave que pousou em Vênus até o homem vir a estabelecer uma população em um dos planetas do Sistema Solar deverá demorar apenas mais duas ou três décadas. Em menos de setenta anos, boa parte da população da Terra estará vivendo no espaço. É que em razão da aceleração do procedimento de troca de informações não podemos medir o tempo do progresso futuro tendo em conta o tempo que demorava o progresso no passado. Isso tudo é ótimo por um lado. Mas por outro, se faz necessário cautela. Essa rapidez toda pode levar a todos a ingressar num rumo perigoso. A filosofia do caracol, da lesma, é criação dos franceses, um povo latino essencialmente poético, subjetivista e insuperável no que diz respeito à compreensão da natureza humana. É um movimento recente. Deverá tomar conta do pensamento universal nos próximos anos. John Lennon dizia que a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro. É o movimento "Slow Food" se contrapondo ao "Fast Food", ao "Do it now".
Enquanto meu filho Pedro, em praticamente todo o trajeto, se responsabilizou pelo leme, essas idéias transitaram por minha cabeça e guardam relação com o dia em que ele me disse que não queria mais participar da flotilha de Optimist. Falou que estava cansado de treinar regatas dois dias no meio da semana mais um no final de semana. Fora os finais de semana em que havia regatas. Reclamou que não conseguia mais ver seus amigos, tocar guitarra e ensaiar com sua banda. Inicialmente, fiquei um pouco chateado com sua decisão, mas não coloquei objeções. Aos poucos, o tempo me fez ver que essas flotilhas são uma verdadeira loucura. Já escrevi sobre assunto em uma passagem anterior. A filosofia ali incutida é a de vencer, correr, cruzar primeiro a bóia. É curso de pilotagem, não de vela. O consumismo e o desconhecimento de todos os temas náuticos que não se relacionam com "cruzar primeiro a linha de chegada" é completo e absoluto. Eles não são ensinados, e por isso não tem a menor noção, de como fazer um pequeno reparo em um casco de fibra de vidro. Nunca os vi navegarem sozinhos, brincando. Só navegam com a presença do instrutor e exclusivamente para treinar. Por trás disso, há o interesse dos dirigentes dos Clubes que querem mostrar serviço. Por trás disso, a tradição da vela brasileira. Não acredito que a vela européia siga por esses mesmos caminhos. Nossa opção pela competição me parece coisa de nação colonizada. O que chega de lá até aqui através dos meios de comunicação é o aspecto da competição. Evidente, pois é isso que vende ao grande público. Os aspectos europeus do esporte, enquanto cruzeiro, projeto, construção, prazer, diversão, não vendem jornal e por isso não chegam aqui. Subdesenvolvidos, inclusive culturalmente, imitamos aquilo que nossos olhos vêem e, dessa maneira, completamente equivocada, nossa "tradição" é a da competição.
Flotilhas envolvendo atletas crianças deveriam dar principal atenção ao aspecto lúdico da vela. Crianças devem ser ensinadas a amar a vela. Só isso. Depois, algumas optarão por competir. Outras se tornarão cruzeiristas. Algumas, projetistas e construtores. Não aconteceria o que hoje se verifica, ao chegarem aos 15 ou 16 anos, 90% abandonam definitivamente a vela.
Chegamos ao clube antes das 20 horas. Fiquei impressionado com a velocidade média do Tchê no trajeto: 8 nós. Tenho certeza de que o Pedro se divertiu bastante. O convidei para daqui a dois finais semana partirmos eu, ele e dois amigos para uma nova velejada. Ficou muito contente com o convite, mas exigiu que nessa vez fôssemos para um lugar com menos gente. Fico a me perguntar se ele vai continuar gostando de velejar quando for adulto. Espero que sim.
Chego em casa, abro a porta e o Walter salta por cima de mim. É só quem me dá ouvidos em minha casa.
Nessa filmagem (clique), Pedro timoneando rumo à Porto Alegre.
A Amizade
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Pai, não se preocupe, este ano vou me sair bem no colégio: até aqui estou
entendendo tudo que os professores ensinaram.
Pedro
Medeiros, irônico, na 8a. Série do 1o. Grau, após voltar do primeiro
dia de aula do ano.
Tem vezes que um assunto qualquer se pára a martelar em minha cabeça durante vários dias. De uns dias para cá, me vi às voltas com a amizade.
Quando era criança, e adiante, na adolescência, tinha o costume de ler muito. Lia autores diversos sem qualquer sequência lógica ou organização. Lembro de uma estória, cujo autor não recordo:
Um filho gabava-se a seu pai dos diversos amigos que tinha. O pai lhe advertiu que nem todas as pessoas que parecem ser amigas, o são realmente. O filho desacreditou o pai e este resolveu dar-lhe uma lição. Propôs ao filho que batesse, à a noite, na casa de seus amigos, pedindo abrigo e dizendo-se perseguido pela polícia por ter praticado um grave delito. E que após depois voltasse para contar os dizer dos resultados. O filho foi, bateu na porta dos amigos, um após o outro, e todos lhe negaram socorro, com medo da polícia. O filho retornou ao pai e contou-lhe, desapontado, o sucedido. Então, o pai disse-lhe que fosse bater na porta de um velho amigo seu, João Pedro, e que dissesse quem era seu pai e pedisse abrigo. O filho obedeceu e, de imediato, recebeu proteção do amigo do pai, que o recebeu em sua casa.
Essa estória que li em minha infância teve grande influência sobre mim no curso dos anos. Passei a crer que a amizade só é verdadeira quando a pessoa se dispõe a transpor os muros da penitenciária para acompanhar o amigo. Como, tirando meus pais, nunca encontrei alguém que manifestasse disposição para tanto, nunca tive muita fé no valor das amizades.

Quadro de Lucinha Medeiros Lenz
Mas por esses dias, conclui que estive por longos anos enganado. Goethe escreveu que há pessoas que meditam nas falhas dos amigos e com isso não se ganha nada. Por mim, tenho sempre considerado os méritos dos meus adversários e tenho me dado bem. Goethe estava certo e eu, equivocado. Não se deve nem se pode exigir demais de nossas amizades. Em verdade, existem graus ou níveis de amizade. A intensidade da amizade é variável. Pais e filhos costumam ter uma amizade extremamente intensa. Chama-se amor. E o que é o amor? O amor é a amizade em sua intensidade máxima. Quanto ao amor que une homem e mulher, é o mesmo, só que acrescida do componente sexual.
A amizade em relação a nossos amigos é muito variável. Há aquelas pessoas que chamamos de "conhecidas". São pessoas com as quais nutrimos um leve sentimento de amizade. Um sentimento que nunca chegou a amadurecer, mas que pode, de uma hora para outra, tomar esse rumo. Temos também os "amigos". São aqueles pelos quais nutrimos o sentimento com intensidade média. E temos os chamados "amigos de verdade" ou "amigos íntimos" e que o que sentimos por eles é forte e recíproca amizade.
Como disse em outra passagem, o rumo do amor, onde se enquadra a amizade, nos coloca numa posição muito vantajosa no Universo. Ter amigos, fazer amigos, significa nos aproximar mais dos outros, fazer com que nossa alma toque a dos demais. Como disse Aristóteles, o amigo é um outro eu. Sem amizade o homem não pode ser feliz.
A amizade é o poder de amar, de se aproximar, de unir, de igualar. A amizade nos encaminha para a unidade do universo. É um dom precioso.
Alguém de certa feita disse que nossos amigos são nossos espelhos. São nossos amigos que nos possibilitam a consciência de nossa identidade. Num local hipotético completamente estranho, numa época totalmente distinta, onde não conhecêssemos ninguém e por ninguém fossemos conhecidos, perderíamos nossa identidade. Com o passar do tempo, esqueceríamos quem somos, pois não existiram ali nossos amigos para nos lembrar. Fica fácil de compreender o desgosto crescente dos velhos à medida que morrem os amigos de sua geração. Fica fácil de entender porque muitos deles vão aos poucos se entristecendo, perdendo a memória, se mantendo distantes, isolados, numa conversa ou reunião de pessoas mais jovens. Quando tomam aquele ar distante. Porque alguns velhos crêem que já é a hora de partirem. Porque acreditam que esse tempo não é mais o tempo deles. Se você morrer antes de mim, pergunte se pode levar um amigo* . Claro, nem todos os velhos são assim. Entretanto, muitos são. É que as amizades, as mais preciosas, são as mais antigas. Nada, jamais, substituirá o companheiro perdido. Velhos camaradas não se criam. Estas amizades não se refazem: ao plantar um carvalho, é vã a esperança de pode gozar brevemente da sua sombra (Saint-Exupéry). A amizade, ao contrário do que se diz, não precisa ser constantemente cuidada, protegida, como se fornece água periodicamente a uma flor no vaso. A amizade perdura por anos, mesmo que os amigos não se vejam. É como o vinho, quanto mais velho, melhor. Costumamos continuar nutrindo o sentimento de amizade por amigos de infância ou da juventude mesmo que nunca mais os tenhamos visto. Essa é uma das mais belas características desse sentimento e é aquela que o torna nobre. O maior valor da amizade encontra-se em sua estabilidade. A distância, não raramente, alimenta e fortifica a amizade. Melhor que fazer novos amigos é conservar os velhos. Se a distância acaba com a amizade, é porque ela nunca existiu.
Costuma-se dizer que a inveja é incompatível com a amizade. É verdade. Mas o ciúme, não. Onde há amizade há ciúme, como o álcool no vinho. A amizade pressupõe desejar o bem e a felicidade do amigo, mas, mesmo assim, nela está sempre presente o ciúme. Há, sim, ciúmes entre amigos. Esse sentimento que merece um exame à parte, é inerente ao homem. Tanto está presente na amizade, que costuma haver muito ciúme entre irmãos. É porque é grande também o afeto. Onde está o amor e a amizade, como que uma sombra, acompanha sempre o ciúme. O que é indispensável é o controle sobre ele, para que não cresça ao ponto de ofuscar os outros sentimentos ou se transforme em inveja. O ciúme, se controlado, fortalece, faz crescer e torna mais produtiva a amizade. É com ele que procuramos, em algumas ocasiões, nos tornar melhores que somos, igualando-se aos outros ou até superando-os. Se subtrairmos completamente da humanidade o ciúme, os malefícios serão, possivelmente, maiores que os benefícios.
A idéia da amizade está também diretamente relacionada com a ajuda mútua. Costuma-se identificar a "verdadeira amizade" nos momentos difíceis, quando precisamos da ajuda ou conforto do amigo. Diz-se que o verdadeiro amigo é aquele que aparece quando o resto do mundo desaparece. Não devemos condicionar nossa amizade à exigência do amparo na necessidade ou do comércio na prosperidade. Para termos amigos é necessário, antes, sermos amigos. Substituir o amor próprio pelo amor aos outros é trocar um tirano insuportável por um bom amigo (Concepción Arenal). Quem tem sido bom amigo tem forçosamente bons amigos (Maquiavel). Sabendo dar amizade, que significa doar-se, receberemos a amizade, podendo, inclusive, conquistar nossos adversários. Não é a glória conquistar o adversário pela amizade ao invés da luta?! Agindo assim, de maneira sinceramente despretensiosa, as dádivas desse sentimento aparecem ao natural. Um adulado pode não perceber a amizade interesseira,; mas, de pouco serve isso:, o Universo percebe. Este é mais inteligente que o mais esperto dos homens.
* As frases em itálico foram escritas por alguém cuja autoria não me recordo.
A Incrível Viagem de Shackleton
Quando partimos, o que levamos nada vale e o que
deixamos é só o que fica. Se deixarmos a lembrança de um homem em seu
significado pleno, teremos nos aproximado e nos assemelhado um pouco mais ao
Criador.
Mederianas

A Livraria Moana tem me dado algum prejuízo ultimamente. Nesses últimos dois meses, li três livros relacionados com Vela. O último deles, A Incrível Viagem de Shackleton, sem qualquer dúvida, é o melhor deles.
Há ocasiões em que ser um perdedor pode significar a vitória. Aliás, as derrotas são muitas vezes mais interessantes de serem vivenciadas, porque, não raro, encerram mais paixão. Quando era menino, por quatro anos joguei basquete no Grêmio Náutico União. Dentre todas as partidas e campeonatos que participei, o jogo que tenho melhor gravado na memória foi uma derrota que sofremos para o Clube Petrópolis por apenas uma cesta de diferença. Saímos derrotados, mas foi uma partida inesquecível.
Shackleton foi um grande aventureiro. Um perdedor nato, que venceu. Por duas vezes tentou ser o primeiro homem a conquistar o Pólo Sul e falhou. Como, logo a seguir, o Pólo Sul foi conquistado, decidiu que deveria estabelecer um novo recorde: atravessar o Continente Antártico de um lado a outro, passando pelo Pólo. Falhou também. Em Setembro de 1921, partiu de Londres para mais uma expedição na Antártida. Morreu em 5 de Janeiro e 1992 ao largo da Ilha Geórgia do Sul, antes de chegar em seu destino. Não obstante suas sucessivas derrotas, foi um vencedor. Sua coragem, sua determinação, sua fibra, sua indiscutível capacidade de liderança, seu louco otimismo correram o mundo, e Shackleton tornou-se um dos mais famosos aventureiros do século passado. Foi tratado como celebridade. Deu diversas palestras sobre suas aventuras. Recebeu o título de cavaleiro e foi condecorado por todos os países mais importantes do mundo. Afirmo que Shacklenton venceu porque seus objetivos últimos eram dinheiro, posição social e fama (e isso tudo ele obteve). Mas não que o prazer da aventura não lhe interessasse ou fosse secundário. Pelo contrário, Shacklenton era audacioso e, como todo aventureiro, gostava de correr riscos.
A obra A Incrível Viagem de Shackleton foi escrita pelo inglês Alfred Lansing. Muito bem escrita. Lansing refez a história com base nos diários dos homens que o acompanharam e em entrevistas que fez com eles. É um clássico da literatura. Embora Lansing em nenhum momento tenha escrito isso, a conclusão a que cheguei ao ler seu livro é a de que Shackleton, além de ter sido um grande líder, como reconhece Lansing, foi também um grande trapalhão, tamanha a quantidade de falhas que se sucedem em suas aventuras. Um trapalhão muito corajoso, determinado, otimista e dotado de uma sorte excepcional, já que sobreviveu.
Em 1901, Shacklenton participou de uma expedição, chefiada por um famoso explorador inglês, Robert F. Scott, que chegou a 1.198 km do Pólo Sul, a penetração mais profunda no continente naquela época. Em 1907, com sua própria expedição, Shacklenton chegou a 156 km do Pólo. Teve de voltar neste ponto porque os alimentos estavam acabando. A volta foi uma corrida contra a fome. Em 1912, o norueguês Roald Amundsen, numa corrida contra Scott, conquistou o Pólo. O inglês Scott e seus três companheiros morreram tentando retornar à base.
Os ingleses, muito orgulhosos de suas explorações, haviam sido superados na conquista dos dois Pólos:, o do Norte pelo americano Robert Peary, em 1909, e o do Sul, pelo norueguês Amundsen. Foram tomados por um sentimento de derrota. Foi quando Shacklenton anunciou sua próxima expedição com o objetivo de atravessar o continente antártico.
Seu plano era ingressar na Antártida pelo Mar de Wenddell com seis homens, trenós e cães. Enquanto isso, um navio chegaria pelo Mar de Ross, no ponto oposto da Antártida. O grupo do Mar de Ross deixaria mantimentos entre sua base até próximo ao Pólo. Da base em Wendell até o Pólo Sul, Skacklenton transportaria seus próprios mantimentos e, a partir do Pólo até a base em Ross, faria uso dos mantimentos deixados por esta base. Shackleton era um otimista crônico, e, assim, tinha convicção inabalável de que seu plano daria certo. Não tinha idéia do que o esperava pela frente.

No dia 18 de janeiro de 1915, quando encontrava-se a aproximados 300 km da baia Vahsel, local previsto para o desembarque na Antártida, seu barco, o Endurance, se viu cercado por gelo e acabou aprisionado. A partir daí, e com a aproximação do inverno, o Mar de Weddell passou a congelar, formando uma extensa banquisa. Nos meses que se seguiram, o Endurance, preso no banco de gelo, derivou por centenas de milhas no sentido noroeste, aproximando-se da Península Antártica. Com a chegada da estação quente, o gelo começou a derreter, renovando a esperança de todos.

Todavia, em 27 de outubro de 1915, a movimentação do gelo, sujeito a fortíssimas pressões causadas pelo movimento do mar, acabou por esmagar o Endurance, que afundou. A deriva do acampamento prosseguiu na direção norte. Os suprimentos foram se esgotando e o grupo partiu para a caça de pingüins para alimentar-se. Os cães tiveram de ser sacrificados. Ao aproximarem-se do Estreito de Drake, o Mar de Weddell começou a derreter, e a tripulação lançou-se ao mar com três barcos salva-vidas.

Desembarque na Ilha Elephant
A duras penas, conseguiram desembarcar na Ilha Elephant, bem ao Norte da Península Antártica. Em abril de 1916, com o melhor dos barcos salva-vidas, Shackleton e mais quatro marinheiros partiram com destino à ilha Geórgia do Sul, distante 1500 km a Leste. A seu favor, a corrente e os ventos de Oeste. Contra, tudo o mais: um barco frágil e pequeno, o frio, ondas de 12 a 20 metros, ventos fortíssimos de Oeste de mais de 100 km/hora e a própria dificuldade em encontrar, naquele imenso mar, uma pequena ilha de 40 km de largura. Ultrapassá-la seria lançar-se a um mar sem fim. Quase que milagrosamente, após duas semanas navegando, chegaram na Ilha, mas entraram pelo lado errado (Oeste), já que a estação baleeira norueguesa localizava-se no lado oposto.

Desembarque na ilha Geórgia do Sul
A travessia da ilha até chegar à estação, apenas com o auxílio de algumas cordas, é até hoje admirada por alpinistas profissionais. Após duas tentativas frustradas, Shackleton conseguiu resgatar seus companheiros que estavam aguardando na Ilha Elephant.
Aterrando o Barco
A proteção contra raios é de extrema importância em veleiros. Abaixo a reprodução de um artigo escrito por Plinio Fasolo, uma das pessoas que melhor trata do tema.
Aterre seu barco
Por Plínio Fasolo
O título pode sugerir que você jogue seu barco contra a praia, mas não é isso que desejo que você faça. Deus nos livre de uma coisa dessas! Ao contrário , desejo aconselhar você a navegar com segurança. Navegar longe da costa é um procedimento tão importante para os que amam a segurança quanto ter os metais de convés, principalmente mastros e estaiamentos muito bem aterrados através de grossos fios de cobre, todos interligados e conectados à quilha metálica da embarcação. Também você não deve esquecer que pelo menos uma parte da quilha , preferentemente a parte mais inferior, deve ser "descascada", deixando o metal em contato direto com a água. Você pode ainda fazer como eu: depois de tudo interligado à quilha ainda parafusei uma chapa de cobre no casco, externamente, junto à quilha. No grosso parafuso solidário à chapa, passante pelo casco, também foram ligados todos os cabos de cobre do sistema que foi conectado à quilha. Seria exagero? ... Não sei! ... O que sei é que sobre um barco bem aterrado não cai raio.
Tenho conversado com muitos navegadores experientes e, via de regra, eles apontam o raio como o componente mais temível de uma tempestade. Parece portanto que munir a embarcação com um sistema confiável à prova de raios compensará os gastos realizados no empreendimento. Desde que meu sistema (do meu barco) mostrou eficiência na dissipação das cargas elétricas induzidas pelas nuvens de tempestade sobre o mar, nunca mais fiquei apreensivo pelos raios. Não se tem notícia de alguma embarcação que tendo bom aterramento tenha sido atingida por algum raio. No entanto, sabe-se que todos os que foram atingidos por faíscas atmosféricas não possuíam aterramento ou seus sistemas eram precários e defeituosos.
Como funciona o mecanismo de proteção contra raios? Na realidade ele é muito simples, lógico e de fácil entendimento, especialmente por aqueles que não foram "contaminados" pelas frase ridículas que são mostradas pelos livros escolares a respeito dos pára-raios e do "poder das pontas". Inicialmente é necessário esclarecer que o pára-raios não deve "atrair" os raios. Se assim fosse, ninguém desejaria instalar pára-raios em seus prédios.
Mas de onde vem a idéia comum de que um pára-raios atrai os raios?
Por incrível que pareça vem dos livros de Física para as escolas de ensino básico.
Um dos livros de Física mais utilizados pelos professores e alunos que freqüentam as escolas de ensino médio apresenta o assunto assim:
Definição de pára-raios
e sua função apresentada no livro "Curso de Física 3", dos autores
Beatriz Alvarenga e Antônio Máximo, 5ª edição, 2000.
Na página 73 , encontramos:
"... Quando uma nuvem eletrizada passa sobre o local onde os pára-raios foram colocados, o campo elétrico estabelecido entre a nuvem e a Terra torna-se muito intenso nas proximidades de suas pontas. Então, o ar em torno das pontas ioniza-se, tornando-se condutor, fazendo com que a descarga elétrica se processe através das pontas. Em outras palavras, há maior probabilidade do raio cair no pára-raios do que em outro local da vizinhança. Naturalmente, como o pára-raios está ligado ao solo a carga elétrica que ele recebe da nuvem é transferida para a Terra sem causar danos."
Em outro texto examinado, "texto dos "Bonjornos", encontramos também explicações sobre o funcionamento dos pára-raios. Novamente a mesma incoerência na interpretação do fenômeno:
"...os aviões são providos de pontas metálicas nas suas asas, através das quais eles descarregam as cargas elétricas que se formam pelo atrito dos metais com o ar, dessa forma não se tornam alvo dos raios durante as tempestades." Em seguida, há o seguinte parágrafo sobre pára-raios:

Texto retirado do livro "Os
Fundamentos da Física" dos "Bonjornos".
Nota-se uma incoerência entre a descrição acima reproduzida e a que descreve o poder das pontas:
"...que descarregam o excesso de eletricidade do solo (ou do avião) para o ar, fazendo com que a intensidade do campo entre a nuvem e o solo (avião) diminua, e portanto diminuindo a probabilidade de haver descarga elétrica entre a Terra (avião) e a nuvem"
Com as afirmações destacadas acima, com respeito à probabilidade de pára-raios atraírem raios, parece que os autores gostariam de chamar os pára-raios de apara-raios.
Um bom pára-raios é
justamente aquele sobre o qual jamais um raio irá cair.
![]() (a) |
(a) – Uma
atividade de simples realização, que demonstra a verdadeira função
de um pára-raios, consiste em colocar um gerador de Van de Graff
produzindo faíscas entre ele e uma esfera metálica.
|
![]() ( b ) |
(b) – No lado oposto à faisca, cola-se na esfera um percevejo com a ponta para fora simulando o pára-raios. Enquanto o percevejo está afastado da região da faísca, esta se mantém visível. |
![]() (c) |
(c) –
Girando a esfera menor, quando o percevejo se aproxima da região que
está faiscando, a faísca desaparece.
Continuando com a rotação da esfera
menor, quando o "pára-raios" de percevejo se afasta da região
de menor proximidade entre as esferas, as faíscas reiniciam. |
Na realidade o mecanismos dos raios sobre as águas e sobre os barcos funciona mais ou menos da seguinte forma:
Em primeiro lugar, não existem nuvens neutras ou descarregadas. Todas as nuvens são formadas por gotículas d'água em suspensão no ar constituindo uma mistura tipo "colóide" de líquido em gás. Os experimentos demonstram que mais de 90% das nuvens possuem carga positiva, especialmente em sua parte mais inferior. Essas nuvens induzem uma "mancha" (zona) de cargas negativas sobre as águas (ou sobre o solo) - Figura 1-
A presença de um barco, com mastro aterrado, no interior
da "mancha" corresponde a um pára-raios. Ele drena (escoa) para a
atmosfera as cargas da "mancha", "desmanchando" a mancha de
cargas negativas em sua proximidade, - Figura 2 - fazendo com que a diferença
de potencial entre o barco (e sua região próxima) e a nuvem diminua, impedindo
que ocorra descargas violentas sob a forma de faíscas (raios).
![]() Figura : 1 |
![]() Figura : 2 |
|
Portanto, vamos lá... aterre o seu barco! Ou então... não enfrente as tempestades, pode ser perigoso.

Travessia da Lagoa dos Patos num Dingue no início da década de 80
São dois os tipos de sonhos: os sonhos
para sonhar e aqueles para realizar. A inteligência, as vezes, está na
capacidade de distinguir uns dos outros.
Mederianas
Seguidamente me indago. Não conheço com certeza quais são as razões que levam uma pessoa a gostar de enfrentar desafios que não possuam qualquer outra finalidade, a não ser a de vencer o desafio em si. É algo contrário ao bom senso. Desafios implicam riscos e, portanto, do ponto de vista racional, só se justificam diante da possibilidade de algum ganho, da satisfação de alguma necessidade.
Desde pirralho, esses desafios e conquistas inúteis exerciam forte atração sobre mim. Quando criança, morava na rua Barão de Santo Ângelo, em Porto Alegre, na quadra da Barão com a Hilário Ribeiro, Dinarte Ribeiro e Santo Inácio. Gostava muito de pular muros. Um dos meus primeiros desafios foi o de cruzar a referida quadra partindo da Dinarte Ribeiro e, pulando muros, enfrentando lobos selvagens (cães), inimigos cruéis (vizinhos mal humorados) e descobrindo passagens secretas, chegar até a Nova Terra (rua Hilário Ribeiro). Eu tinha lá uns 6 ou 7 anos de idade quando, um dia, venci todo o trajeto. Lembro minha alegria, satisfação e orgulho quando, pela primeira vez, toquei os pés na calçada da Hilário Ribeiro após enfrentar passagens perigosas e altas altitudes (muros e telhados de casas). Daí para a frente, as explorações prosseguiram. Sucederam-se diversas travessias. Da Barão até a Santo Inácio. Da Barão até a Padre Chagas. Da Hilário até a Casemiro de Abreu. Alguns anos depois, comecei a levar meus amigos, que moravam na mesma rua. Lembro do Caco Fagundes, que na época era o mais novo. Assim, é claro, era mais difícil para ele nos acompanhar, e seguidamente tinha de ajudá-lo e encorajá-lo numa ou outra passagem. Recentemente, soube através de sua irmã, Ligia, que o Caco é médico e que tem por hobby o alpinismo. Em suas férias, escapa para os mais verticais picos do mundo para escalar mais de 5.000 metros de altura. Quero crer que tive alguma influência na sua formação. Se tive, fico feliz por isso.
Esse interesse por desafios persiste em mim até hoje. Por vários anos, o transferi para a minha vida profissional. Agora, mais velho, em que o problema da carreira começa a ingressar num segundo plano, sinto que retorno àquela antiga ambição de vencer barreiras físicas. É como que uma volta à infância. Passo a devorar livros de todo o tipo de malucos. Do Klink, com seu barco a remo da África ao Brasil. Do Thomaz Brandolin, ele e um um cão, tentando chegar até o pólo norte a pé. De Shacklenton, sonhando atravessar a Antártica de um lado a outro, passando pelo Pólo Sul. De alpinistas do Everest. De cruzadores do Cabo Horn. O Horn... o Horn... o pico mais alto que a vela pode alcançar. Muitos velejadores morreram tentando atravessá-lo. Seguidas noites, meu travesseiro assiste sonhos de grandes aventuras. Não de um velejador que atravessa rápido e apressado o Horn, mas de um velejador, com um pequeno barco à vela, de 23 pés, projeto multishine Cabinho preferencialmente, que resolve estacionar no Horn. Que decide fazer algo nunca antes realizado. Em vez de simplesmente cruzar o Horn, fugindo rapidamente para latitudes menores, parar ali. Enfrentar durante um mês inteiro as periódicas e violentas frentes frias que chegam de Oeste. Atravessá-lo nesse mês, não uma vez, mas duas dúzias de vezes, de Leste para Oeste, orçando, e de Oeste para Leste, capotando como uma rolha embalada pelas frentes frias. Poder sair de lá dizendo: não cruzei o Horn, não sobrevivi ao Horn, e sim, Venci o Horn. Disposição de contradizer o dogma marinheiro, segundo o qual o Mar é invencível, apenas concorda em nos deixar passar. Nesses mégalo-devaneios não basta sobreviver ao Horn, como muitos o fizeram, é preciso domesticá-lo, trazê-lo à força ao cativeiro, vencê-lo definitivamente. Todavia, entre esses sonhos e a realidade vai uma enorme e praticamente insuperável distância. Nessa distância estão as responsabilidades, o trabalho, os filhos, e até os netos que virão. Está também a sanidade, que no curso dos anos foi travando, de maneira incansável e corajosa, uma árdua batalha contra a birutice que dominou toda minha juventude.
Tinha vinte e tantos anos quando disse a meu pai que estava juntando dinheiro para construir um barco e ir morar no mar e recordo sua resposta ao dizer que estaria a postos no trapiche, no dia da partida, para afundar o casco a tiros. Hoje dou razão ao velho. Aquele incontrolável sonhador precisava sim de gente de bom senso a seu lado, capaz de resgatá-lo de volta ao mundo real. E o mundo segue copiando a si próprio. Ainda hoje, pratico a estupidez de andar de motocicleta. Meu filho Pedro diz que terá uma moto quando crescer, ao que respondo: só se ela rodar por cima de meu cadáver. Mas como, se tens uma? Do alto de minha capacidade argumentativa imperativa, respondo: Justamente por isso. Por ter uma, conheço de seus perigos e por isso não vais ter moto.
A observação das gerações me fez deduzir a regra de que pais realistas e equilibrados tendem a ter filhos sonhadores e malucos. E pais lunáticos, filhos com os pés no chão. Parece haver um processo dialético na sucessão de gerações. Torço para que seja assim. Torço para que estejam equivocados todos aqueles meus amigos que, vendo meus filhos, afirmam que chegou minha vez de acertar as contas. Torço para que aquela esperança de pequena desforra que vejo no canto do sorriso de meu velho ao olhar para seus netos não se realize.

Foto acima retirada do site www.holosbrasil.com - Uma regata da classe Dingue
Necessidade de auto-afirmação? De provar a si mesmo o seu valor? Talvez sim. Talvez não. Talvez seja apenas conseqüência da necessidade da natureza de produzir descobridores, inovadores, conquistadores. Naquele grupo pré-histórico de selvagens, acampados em um determinado local, precisava existir, alguns dispostos a afastarem-se do grupo e procurar novas terras, mais férteis, com mais caça disponível, já que no acampamento, um dia, o alimento poderia vir a faltar. Eram os lunáticos da época, que, em vez de pular muros, saíam a saltar montanhas e, muitas vezes, sozinhos, até para não sacrificar outros do grupo em terras desconhecidas e perigosas, diminuindo a força da tribo. O fato e a constatação é que somos todos muito diferentes dos outros. Frente a circunstâncias idênticas, reagimos de maneira completamente diversa, e é justamente essa uma das características que torna tão interessante a investigação de nossa psicologia. A exploração do interior de nossos semelhantes é extremamente complexa, cheia de surpresas e de novas paisagens.
O ano era 1981. Ou 1982? Ou 1983? Não sei. Por aí. Nessa época, a Lagoa dos Patos era praticamente desconhecida do povo da Vela de Porto Alegre. Haviam, sim, alguns velejadores que já a tinham percorrido. Mas eram poucos. E as informações, muito escassas. Especialmente para mim, que não era um freqüentador dos ambientes sociais da Vela, onde idéias e experiências diversas são trocadas. Desconhecia por completo se veleiros pequenos ou médios eram capazes de navegar na Lagoa. Sabia, por leitura de seus livros, que Geraldo Link a havia cruzado no Plâncton para alcançar o mar. As referências feitas por ele não eram das melhores. O que mais conhecia era o pouco que ouvia falar, o que, aliás, se escuta até hoje: A Lagoa é muito perigosa. Mau tempo na Lagoa é pior do que mau tempo no mar. Quem enfrenta a Lagoa está pronto para enfrentar o mar. As ondas da Lagoa não são grandes como as do mar, mas como vêm uma atrás da outra, fica difícil de vencê-las. Ao contrário das do mar, que são enormes, mas gordas, as da Lagoa são curtas, verticais e quebram. Cuidado com as Três Marias, as três ondas grandes, que de quando em quando aparecem em seqüência rápida e derrubam qualquer veleiro. A primeira estanca o veleiro, a segunda o coloca de través em relação as ondas e a terceira vira a embarcação. Tem ainda o folclórico Minhocão, a versão caseira do Monstro do Lago Ness. Alguns barcos desaparecem na Lagoa dos Patos e não deixam quaisquer vestígios. Dizem que se trata de uma enorme minhoca, que foi crescendo, crescendo e crescendo, nas profundezas escuras da Lagoa, até atingir mais de 20 metros, e que, volta e meia, emerge para se enroscar em uma embarcação e levá-la ao fundo. Seu prato predileto são os pescadores.
Estava disposto na época a fazer qualquer coisa que se assemelhasse a uma façanha com o pequeno Dingue, que ganhara de presente de meu velho anos atrás. Alimentava já há algum tempo o projeto de atravessar a lagoa naquele barco de apenas quatro metros de comprimento. O Dingue é um barco em muito semelhante ao Laser, com a principal diferença de ser mais largo, o que o torna bem mais estável. É um barco bastante seguro. Tem uma bolina que pode ser toda levantada. Fica fácil de encostar e subir na praia com ele. Se virar, não há qualquer dificuldade de uma pessoa, sozinha, desvirá-lo. Suporta ventos fortes e, inclusive, o meu, na época, pelo que recordo, dava para rizar a vela diminuindo sua área, mais um fator importantíssimo de segurança. Entretanto, definitivamente, não é um barco apropriado para atravessar a Lagoa dos Patos.
Precisava de um companheiro para a empreitada, alguém que se dispusesse a participar daquela aventura. Encontrei melhor. Encontrei meu irmão, Kiko, dois anos mais velho, que não apenas estava disposto como também possuía alguns conhecimentos de vela. De quebra, meu mano tinha, e mantém até hoje, uma característica útil para essas aventuras: não possuía a menor noção de perigo. Semelhante ao Minhoca, de quem já falei. Para ele, até onde iam seus conhecimentos, atravessar o rio ou a lagoa, não fazia grande diferença. Mas, já no início, percebeu que alguma diferença havia de existir, já que solicitei a ele que não contasse aos nossos familiares sobre nossa pequena viagem. Ficou combinado que sairíamos na sexta-feira de nosso sítio na Ponta Grossa, que sua namorada nos levaria até lá de automóvel com todos os mantimentos e que ela só informaria nossos pais no sábado à tarde, quando já estivéssemos na Lagoa
Na sexta-feira, por volta das duas da tarde, zarpamos da praia da Ponta Grossa, com vento Leste, orçando com vistas a alcançar Itapoã, a porta de entrada da Lagoa. Em sacos de plásticos amarrados iam todos os mantimentos, principalmente latas de salsicha, de sardinhas, velas, fósforos, rapaduras e chocolotes. Muito chocolates. Também tínhamos cobertores e uma pequena barraca. Levávamos, ainda, uma bússola, as cartas náuticas do Guaíba e da Lagoa dos Patos, e alguns conhecimentos de navegação estimada na cabeça. Além de salva-vidas. Orçamos toda a tarde no rumo Sudeste. A partir das quatro horas, o Lestão bateu forte e o Dingue comportava-se excepcionalmente bem, orçando, atravessando ondas que batiam no costado da proa. Eta, barquinho porreta!

Ao final da tarde chegamos no outro lado do Guaíba, numa pequena praia ao Sul da Ponta do Salgado e ao Norte da Ponta das Pedras. Armamos a barraca em cima do barranco junto da praia e dormimos com o forte vento assobiando e sacudindo seus panos. Estávamos sozinhos. Eu e o Kiko com a natureza e sua força uivante naquela noite escura num local desolado. Entre um sonho e outro, acordei e murmurei: Estou com medo. O mano, ao lado: Que disse? Respondi: nada, só um sonho.
Eram umas nove da manhã quando levantamos acampamento (clique aqui para visualizar nosso trajeto na Lagoa dos Patos). Içamos a vela e partimos para Itapoã. Ventos fracos. Ao passarmos o Farol de Itapoã, por volta do meio dia, e tomarmos o rumo Leste, costeando a Praia de Fora na Lagoa dos Patos, o vento ficou extremamente fraco. Era quase uma calmaria. Mas pequenas brisas, ora vindas daqui, ora de acolá, iam empurrando a pequena embarcação em direção à Ponta das Desertas. Eram quatro horas da tarde quando alcançamos a Ponta. Junto a ela há um banco de areia que ingressa Lagoa adentro. Descemos do barco e atravessamos o banco caminhando e empurrando o Dingue. Ao atingirmos novamente as águas profundas, (de 6 a 7 metros) havia uma decisão a tomar. Inicialmente o plano era fazer toda a Lagoa dos Patos costeando a margem, próximo a esta, para atravessá-la onde ela é mais estreita, na parte em que divisa com a Lagoa do Casamento. Mas de onde estávamos, na Ponta das Desertas, para atingir a Ponta do Abreu na entrada Lagoa do Casamento, se fôssemos costeando a margem, o percurso teria sua distância dobrada. Em vez de fazermos 8 milhas, teríamos de percorrer umas 16. Face ao adiantamento da hora e daquele vento fraco, e também porque queríamos pernoitar na Ponta do Abreu, resolvemos mudar de planos e cruzar reto a Lagoa.
Entre a segurança e a pressa optamos pela segunda. Meio, ou completamente, insensato, já que no trajeto escolhido a margem mais próxima no meio da travessia estaria bastante distante e aquele pequeno veleiro não era, de forma alguma, a embarcação indicada para enfrentar um eventual temporal no meio da Lagoa dos Patos. A rigor, tanto fazia se, naquele momento, tivéssemos optado por cruzar logo para a margem Leste da Lagoa, os riscos seriam os mesmos, já que as distâncias seriam muito semelhantes e estaríamos de qualquer maneira no meio da Lagoa. Mas que fazer? A juventude tem suas próprias razões, muitas delas irracionais. Ou, como melhor diz um conhecido meu, não havia com que se preocupar, nossa geração tinha o corpo fechado.
Estávamos no meio da travessia Ponta das Desertas/Ponta do Abreu quando o Lestão de fim de tarde bateu forte. E forte para valer. Algo em torno de 25 nós. As ondas começaram a crescer rapidamente. E o Dingue subia altaneiro e orgulhoso por cima daquelas ondas e as descia com completa segurança. Algumas ondas batiam no costado, outras, mais afoitas, varriam o convés, ignorando a existência do pequeno barco. Me segurava firme, já que sabia que se caísse ali, meu irmão teria grande dificuldade para me buscar. Ele timoneava bem, mas não o suficiente para resgatar um náufrago com aqueles ventos e aquele tamanho de ondas. Deviam ter uns três metros. O mar não estava assustador, mas respeitável. Bastante respeitável. E a velejada estava maravilhosa com o pequeno Dingue alcançando velocidades incríveis, especialmente quando descia as ondas surfando. Os sacos plásticos acabaram rasgando e a água penetrou por tudo. Estávamos, também, ambos, completamente encharcados e já começávamos a sentir frio. Lembro que não era inverno nem verão. Muito provavelmente aquilo era uma primavera. É curioso a capacidade de nossa memória armazenar fotografias e pequenas filmagens de momentos passados. Dessa travessia tenho guardado na memória o barco subindo firme de través em ondas altas. Quando elas vinham quebrando, era necessário orçar, dando a proa para a onda, diminuindo dessa maneira o impacto da crista da onda no casco do barco.
Já estava escurecendo quando chegamos na Ponta do Abreu. Com vestes completamente molhadas. Barco, mantimentos, cobertas e tudo o mais totalmente inundado. Fazia frio. Batia os dentes e tremia bastante. Havia algumas outras pessoas acampadas na volta. Mas não fizemos contato. Fizemos um pequeno fogo no chão para nos aquecermos. Estávamos completamente exaustos em razão do frio, do esforço e do sol. É fato. O sol, queimando a pele, cansa. E cansa muito. É como se a pele fizesse um esforço suplementar para suportar os raios. Não havia forças ou mesmo razões para montar a barraca, já que o vento não estava mais forte. Deitamos molhados sobre sacos de dormir encharcados e sobre nós, cobertas também molhadas. É terrível dormir com frio. Mas não havia outra alternativa. De qualquer maneira, o cansaço era tanto que o sono vencia o frio, não obstante, a batalha entre ambos, durante toda a noite, tenha sido constante. Acordei várias vezes com frio, para voltar a dormir, dominado pelo cansaço.
Era cedo, umas sete da manhã, quando levantamos. O frio estava de matar. Saímos a velejar tiritando. Havia uma neblina muito forte. Não se enxergava mais de 10 metros de distância. Com a bússola, tomamos o rumo Sudeste em direção à Ponta do Anastácio, no outro lado da Lagoa. Íamos orçando por cima do Banco do Abreu. O vento era Sul fraco. Ao Norte, no nosso sotavento, embora não conseguíssemos ver em razão da neblina, a poucas dezenas de metros, haviam juncos. Sabíamos que eles estavam ali porque ouvíamos o canto dos pássaros pousados sobre eles. Esse foi um dos momentos mais belos de toda a viagem. O canto dos pássaros, de muitos pássaros, e a navegação circundada por espessa neblina. Um que outro raio de sol, às vezes, atravessava a neblina e tocava na embarcação.
Por volta das nove horas da manhã, entrou uma brisa mais forte e a neblina levantou. Podemos visualizar a Ponta do Anastácio. Ultrapassando-a, voltou a calmaria. Estávamos na margem Leste da Lagoa. O plano agora era ir descendo a Lagoa no rumo Sul, sempre costeando a margem. Ventos extremamente fracos. Lá pelas tantas, o mano cansa de ficar sentado do barco, desce, e vai para a praia caminhar. O barco por água, comigo no timão, e o Kiko por terra, caminhando, ambos na mesma velocidade. Desde moço ele aprecia caminhar. Ainda hoje, volta e meia, o encontro numa rua qualquer de Porto Alegre. É ele caminhando. Caminha de 5 a 15 km diariamente. Ele se sente bem com esse exercício. Endomorfina. Minha atual obesidade reclama também esse hábito. Mas minha consciência não escuta. Não suporto exercícios, em especial exercícios sem qualquer finalidade. Admito que uma pessoa corra atrás de uma bola jogando futebol, vôlei ou basquete, mas correr por correr, caminhar por caminhar, é inconcebível. Não consigo entender esse pessoal que freqüenta academias de ginástica. Por que não praticam um jogo, tênis, por exemplo, unindo o útil ao agradável? Hoje em dia só caminho de meu apartamento até a garagem para subir na motocicleta e da motocicleta até minha cadeira e mesa de trabalho em meu ofício. Também caminho dentro de casa, da cama até a geladeira e da geladeira até a cama. Preciso mudar esses hábitos.
O mano já estava de volta ao barco. Eram quatro horas da tarde e estávamos meio perdidos na Lagoa. Elaborava alguns cálculos de navegação estimada, mas não conseguia obter qualquer confiança neles. Nosso destino final era a Fazenda Ranchinho, na época pertencente a meu primo Mathias de Azambuja Velho e, hoje, ao seu filho, o Edgardo. Não sabíamos se já tínhamos ultrapassado a fazenda ou não. E não sabíamos a distância que estávamos dela. Tinha uma leve lembrança de como era a margem da Lagoa na Fazenda Ranchinho, já que passara boa parte de minha infância galopando a cavalo por seus campos, mas aquelas margens da Lagoa pareciam todas iguais.
Comíamos eu e o Kiko, mais uma vez, chocolates. Nada como chocolates para se ter a bordo. Para comer, basta tirá-los da embalagem e mastigar. Não requer qualquer preparo. Ao mesmo tempo, comidinha que enjoa rápido é chocolate! Quando crianças, esperamos ansiosamente a chegada da Páscoa e de nossa cesta repleta de ovos, coelhos e bombons. No dia seguinte à Páscoa, está todo mundo enjoado de chocolates. Essas patéticas divagações povoavam o tempo quando lá no alto avistei, bem distante, no céu, um pequeno ponto preto se movendo. Era um avião. Imediatamente minha consciência alardeou: É MEU PAI! A essa altura, já andava temendo a preocupação que com certeza meus pais estavam sentindo. Como conheço bem o velho e a velha, quando vi aquele pequeno avião lá no alto, me veio a súbita certeza: era meu pai! E estava atrás de nós.
Em seguida o avião começou a descer. E a descer. Sim, era meu pai. E logo estava se aproximado. É ele mesmo. Numa primeira aproximação, pude ver ele na janela nos abanando. Estava junto meu irmão Cláudio. Na segunda aproximação, a porta do avião foi aberta e jogaram um objeto amarrado por um cordão a uma embalagem de refrigerante vazia. O objeto caiu na água a 40 metros do barco. Desci do barco correndo - era raso - e fui pegar. É um mapa. É um mapa. É um mapa. Agora saberemos onde estamos! Abri a embalagem. Era um chocolate!!! Putz, o que eu iria fazer com mais um chocolate por aquelas paragens! Meu velho devia estar imaginando que estivéssemos passando fome. Nem fome nem sede. Água existia a varrer por todos os lados (a essa altura já estávamos bebendo água direto da lagoa, por ser a única gelada disponível). E chocolate...arght... e lá vem o avião de novo! Dessa vez percebo que ele está baixando paralelo em cima da praia. Nossa! Esse piloto maluco resolveu aterrissar na beira da praia! Sabia que a praia estava completamente esburacada e tinha algumas noções de aviação. Sai correndo mais uma vez do barco, agora em direção da praia. No meio dela, em frente do avião que vinha descendo, comecei a fazer um movimento com os braços para impedi-lo. Ou o piloto entendeu, ou ele mesmo verificou que aquele solo não possibilitaria uma aterrissagem segura. Passou sobre minha cabeça, tomou novamente altura e dessa vez foi embora, distanciando-se e finalmente sumindo no horizonte em direção de Porto Alegre.
Retomei os cálculos com mais atenção. Ultrapassamos a Ponta do Anastácio (31º 21 minutos de latitude) pelas 11 horas da manhã. Estávamos velejando numa média de 2 nós (2 milhas por hora). Como já eram 5 horas da tarde, devíamos ter velejado em torno de 12 milhas. Ou seja, segundo a Carta Náutica, devíamos estar próximo da latitude 31º e 33 minutos. A fazenda ficava latitude 31º e 40 minutos. Pelos cálculos, nos quais prosseguia não confiando totalmente, então, não havíamos ainda ultrapassado a fazenda. Faltavam sete milhas. Estava lá, perdido nessas contas, a essa altura já meio atrapalhado em razão daquele sol escaldante, quando começam a entrar violentas rajadas de nordeste. Levantamos a bolina por causa dos alfaques (pequenos bancos de areia que existem próximo da margem leste da Lagoa) e o Dingue velho saiu planando em ¾ a plena velocidade na direção Sul.
Não deu outra. Meus cálculos estavam mais ou menos certos. Uns 50 minutos depois avistamos um caminhão e algumas pessoas na margem da Lagoa. Era a Fazenda Ranchinho. Até caminhão já tinham providenciado! Parece que nossa família decidiu por nós descartar qualquer possibilidade de retorno por água. Encostamos o barco na terra. Era o tio Mathias e dois de seus peões. Tio Mathias nos contou que nossos familiares em Porto Alegre estavam muito assustados com nossa saída. Que nosso pai havia locado um táxi aéreo para nos localizar. Informamos que tínhamos visto o avião fazia pouco. Nos contou também que nossa avó havia mandado rezar uma missa na Catedral por nossa salvação. E de quebra, ainda nos disse ter saído uma notícia na Zero Hora de dois malucos tentando atravessar a Lagoa num barquinho a vela de quatro metros. Sabia que íamos deixar os velhos preocupados. Mas não a tal ponto! Merda! O tio Mathias era um homem tão bondoso que jamais em sua vida conseguiu me censurar, mas sabia que viria muito xixi pela frente.
Lembro de uma ocasião, quando criança, passava o verão na Fazenda Ranchinho, montado em cavalo trabalhando com a peonada com rebanhos de ovelhas ou gado, e o capataz do Mathias foi fazer queixa de mim: Doutô Mathias, não é possível. Daqui a pouco não teremos mais animais para a lida. O Flavinho mata todos os cavalos. Uma vez por semana tenho que dar um cavalo novo prô piazote. Ao que ouvi o Mathias rir e responder: Deixa o Flavinho matar os cavalos. Ele monta melhor que qualquer um de vocês. Os cavalos aprendem com ele.
Voltamos a Porto Alegre de caminhão e com o barco na garupa. Chegando em casa, ao contrário do que esperávamos, não fomos severamente censurados. A felicidade do velho por estarmos vivos era maior do que qualquer necessidade de nos repreender. Para ele, era como se tivéssemos retornado vivos de uma guerra. Como se tivéssemos feito grande coisa! Esse pessoal cria muitas lendas em torno Lagoa dos Patos! Alguém deve ter assustado o velho. Evidente que não foi um grande feito, nem corremos riscos loucos, ou qualquer coisa que o valha. Em verdade foi apenas uma pequena, cansativa, mas divertida aventura.
Dados Técnicos do Dingue retirado do site www.holosbrasil.com
Dingue
é um veleiro monotipo versátil, projetado para ser um barco de fácil manuseio,
estável e com um desempenho satisfatório para aqueles que já velejam.
É a classe brasileira de maior sucesso, com mais de quatro mil e trezentos
barcos produzidos por excelência um barco de convívio e de integração.
Constituindo uma classe democrática e solidária, onde, mesmo nas regatas, o
prazer de velejar supera o espírito competitivo.
Seu projeto privilegia o conforto e a segurança do velejador. A forma de seu
casco garante um barco estável que transmite confiança ao iniciante. Para
garantir uma segurança ainda maior, blocos de isopor, devidamente revestidos são
acomodados em seu interior tornando-o insubmergível até quando na hipótese de
haver perfuração do casco. Sua construção em fibra de vidro e resina poliéster,
com reforços estruturais em sandwich de espuma de PVC (Dyvinicell), garantem
excelentes propriedades mecânicas com baixo peso.
É equipado com dois compartimentos especiais, com cerca de 20 litros cada: um
isolado termicamente, que pode manter gelada a bebida ou lanche que se leve em
um passeio; e o outro, estanque ao tempo e ao mar, protege qualquer outro tipo
de bagagem durante a regata ou passeio.
Pode ser transportado sobre o teto de um carro de passeio e facilmente colocado
na água.
O Dingue é ainda o único veleiro deste porte preparado para operar
(opcionalmente) com um motor de popa de até 4hp, o que representa uma segurança
adicional para cruzeiros mais longos.
Não é
por acaso que foi o barco escolhido por diversas escolas de vela.

Comprimento - 4,16 m
Boca - 1,66 m
Pontal - 0,48 m
Peso do Casco - 85 Kg
Área Velica - 6,5 m
Construção - estrutura em sanduíche de fibra
de vidro com núcleo de PVC