Ilha da Pintada. A primeira grande velejada da Juliana.

 

Não há porque ter receio do futuro. Ele sempre foge de nós.

                                      Mederianas

   

 

            Janeiro de 2005.

          

            É a primeira velejada de uma tarde inteira da Juliana (8), minha filha. Antes ela só tinha dado pequenos passeios na volta do Clube. Dessa vez foi para valer! Saímos do Clube depois do almoço, fomos até a Ilha da Pintada, onde descemos para caminhar. Chegamos de volta ao Clube ao anoitecer,  às 21 horas. Levamos balas, sanduíches, bastante refrigerantes, porque estava muito quente, e tudo o mais que ela pediu no supermercado.

 

            Saímos da Ilha do Jangadeiros na direção Norte, ao largo da costa, para evitar a Pedra da Piava, passamos a Ponta do Dionísio e, em frente ao Veleiro do Sul, entreguei o leme para a Juliana.

 

            Desde os seis anos ela se acostumou a ir de timoneira em nossos pequenos passeios e assim, atenta, mas um pouco...

 

 

                     

 

                     

 

cansada, resolve segurar o timão com  o pé. Prosseguimos em direção Norte com ventos em torno de 15 nós, como se vê na filmagem abaixo.

           Filmagem - Juliana no timão em popa - ventos de 15 nós                                                    

 

 

Chegando no centro da cidade

 

           

            Depois de deixar a boreste o Hipódromo do Cristal, a Ponta do Melo e o Estádio Beira Rio, chegamos na altura da Ponta da Cadeia. Da Ponta do Melo até a Ponta da Cadeia é importantíssimo deixar o Canal dos Navios a boreste. Isso porque há muitas pedras submersas e baixios nessa região, conforme assinalado pelas cruzinhas da Carta. Velejar  à noite nessa região é aconselhável apenas para os mais experientes, em razão de ser um estreito com  pedras, baixios, navios no canal e lanchas.

 

 

 

            Deixamos a Ilha Mauá a bombordo, passamos um canalete que a separa da Ilha da Pintada e chegamos nesta última, localizada no rio Jacuí. Amarramos o barco em um trapiche de aço e subimos a escada para dar uma pequena caminhada pela ilha.

 

 

    

Na ilha tem armazém, açougue, peixaria e várias casas bastante simples, mas boas. Conversando com moradores, fiquei sabendo que todos ali são parentes uns dos outros, todos se conhecem. A criminalidade é muito pequena, não apenas pelo fato de todos se conhecerem como também em razão de a Ilha só ter uma saída (pequena ponte) ao norte que a liga com o continente (dá para ver na Carta essa ponte). Não demora esse atraente local, dado às suas características e a seu completo sossego, será vítima da valorização imobiliária.

 

 

 

 

               

                    Porto Alegre vista da Ilha da Pintada                     A rua principal da Ilha margeia o rio a direita

Voltamos ao LUMAR e seguimos subindo o Jacuí em direção noroeste, margeando a Ilha da Pintada. Vários barcos de pescadores, e alguns de transporte de turistas, se sucedem conforme mostram as imagens abaixo. Muito interessante também algumas casas flutuantes que avistamos. A Ilha da Pintada termina em um canalete, que a separa do continente. A partir desse canalete, começam a aparecer lindas casas à beira do Jacuí.

           

 

 

   

 

      

 

     

 

   

 

 

Uma residência flutuante. Não é uma má idéia! Dá para se mudar a qualquer momento, em busca de novos recantos e paisagens, inclusive  para o meio do Guaíba. Trocar de paisagem sem mudar de residência.

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

Já este é um bar flutuante. E está a venda!

 

 

 

 

 

 

 

A sede da Colônia dos Pescadores da Ilha da Pintada

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outra casa flutuante

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

                Bem ao norte da Ilha da Pintada e a partir do canalete que a separa do continente começam a aparecer  construções sofisticadas.

 

 

   

 

 

 

Quando começaram as "belas" residências, dei meia-volta. Estranho. Vi mais beleza nas casas rústicas e simples do que nas grandes. Há mais poesia, mais força, mais originalidade nos casebres de madeira. É linda, também, a rusticidade dos barcos dos pescadores. Esquisito isso. Deve ser mau gosto.

                A volta foi mais rápida. O vento estava mais forte. Como esqueci a Carta Náutica em casa, subi num banco de areia (assinalado na Carta) em frente à Ponta do Melo (a 0,7 milha da margem). A Juliana correu para o rádio para pedir socorro, ao que disse a ela para que não se assustasse e que deixasse o rádio. Virei de bordo em popa (com um jaibe) e  saí pelo mesmo caminho que entrei no banco. Saímos rapidamente.

            

 

O cais do porto no final da tarde

 

A Usina do Gasômetro e a Lua

 

               

propósito de rádio, a Juliana, com algumas poucas instruções, aprendeu a chamar pelo rádio o Clube, solicitar a troca do canal, comunicar-se com o operador e voltar ao canal 16. Fiquei mais uma vez surpreso com a facilidade com que essa nova geração aprende qualquer coisa.

                A Juliana é uma menina tagarela, inteligente, estudiosa, madura, superativa, divertida, brincalhona, diligente, responsável, empolgada, corajosa, emotiva e que adora velejar.  Tivemos uma ótima tarde, com muitos picles, doces, salgadinhos, refrigerantes e muita conversa jogada fora.

 

Encalhando e desencalhando em bancos de areia

 

A alma é essa coisa que nos pergunta se alma existe.

                         Mario Quintana

 

Não apenas o Guaíba, como pode se ver a partir de sua Carta, a Lagoa dos Patos também tem diversos bancos de areia.

 

 

 

 

       

Esses bancos normalmente partem das pontas das margens e adentram rio e Lagoa em grandes distâncias. Como se pode ver pela Carta da Lagoa dos Patos acima, alguns bancos chegam até o meio da Lagoa. Mas há também bancos isolados.

            Velejar num vento forte de popa, com ondas, e ingressar de proa em um banco desses, encalhando, é uma situação extremamente desagradável, que pode resultar em graves danos para o casco, inclusive afundando a embarcação.

            Não tenho lá grande experiência com veleiros grandes, mas sei que a receita é tentar sair pelo mesmo caminho que entrou. No caso de se entrar com um vento de proa em um banco, deve ser dado motor a ré para sair. Quanto mais o barco tiver andado em cima do banco, mais difícil será de sair. Procurar colocar todo o peso em um dos lados do barco ajuda, já que o calado, com a inclinação do barco, diminui. Podem ser utilizadas as velas para dar maior inclinação ao barco diminuindo, assim, um pouco mais o calado e facilitando o desencalhe. Já se o encalhe acontecer com o barco velejando em popa, a situação é mais complicada, porque o vento tenderá a jogar a embarcação cada vez mais em direção ao banco de areia. Nessa hipótese, deve-se baixar todas as velas o mais rápido possível para evitar que o barco suba mais ainda no banco. Baixadas as velas, dar motor a ré e procurar jogar com o peso do barco em um de seus lados para diminuir o calado.

            Não se obtendo resultado com essas tentativas, resta solicitar socorro aos clubes náuticas que poderão enviar um barco a motor para puxar o barco encalhado com um cabo. Soube de um caso em Itapoã em que a lancha, com motor bastante potente, teve de puxar o barco pela adriça da vela (pelo topo do mastro). Dessa forma, o barco adernou bastante reduzindo significativamente o seu calado, o que possibilitou a saída.

            O desencalhe de barco de porte menor (com menos de 23 pés) costuma ser mais fácil. Ingressando-se com o vento pela proa em um banco, antes de utilizar o motor, deve-se arribar rapidamente e tentar sair com o vento em popa. Arriba-se e coloca-se o peso do barco a sotavento e utiliza-se as velas para ajudar na inclinação. Mas há ocasiões que não se consegue arribar,  porque o barco fica imóvel. Nesse caso, a segunda alternativa é buscar o auxílio do motor para realizar a mesma manobra ou mesmo tentar sair de ré. Mesmo assim não se obtendo o desencalhe, resta descer do barco (se o barco calar menos de 1,40 m). Se estiver sozinho, essa manobra exige muito cuidado, porque a embarcação, uma vez desencalhada, pode ir embora. A primeira recomendação é óbvia:, descer com o colete salva-vidas. A segunda (e muito importante) é descer amarrado a um cabo preso à PROA do veleiro. Por quê? Porque se o barco sair a velejar sozinho, com a resistência do seu corpo ele vai aproar contra o vento (e não lhe arrastar, o que aconteceria se você se prendesse à popa ou mesmo à lateral). Uma vez na água, o barco deve ser puxado pela proa até começar a se safar do banco.  É também recomendável baixar as velas para realizar essa manobra. Se seu esforço não der resultado, ainda há a alternativa de adernar o barco pela adriça da vela (pelo topo do mastro). O calado vai diminuir e o vento irá ajudar a tirar o barco de cima do banco. Se todas essas medidas não funcionarem, pode-se levar a âncora, com o auxílio de um dingue ou bóia, a um local o mais distante possível do barco, e tentar puxá-lo pelo cabo da âncora.

            Já se o encalhe se verificar com o barco entrando com vento em popa sobre o banco, deve-se, imediatamente,  jogar o leme para o lado e tentar orçar. Se o barco não sair orçando, com peso,  velas e motor para inclinar o barco a sotavento, não se deve perder muito tempo e baixar as velas, evitando que o barco entre mais ainda no banco de areia. Se o vento estiver forte, terão ondas, e essas ondas, diante da aproximação do banco, não apenas crescem em altura como também quebram. A situação pode se tornar bastante complicada e deve ser tida como  emergência, chamando o socorro de imediato, já que o casco poderá partir e fazer água. A seguir, os recursos descritos no parágrafo anterior para tirar o barco deverão ser utilizados. O recurso de adernar o mastro pela adriça de nada adiantará se você estiver sozinho, pois  a tendência do barco será subir mais ainda o banco. A não ser, é claro, se você concluir que o barco, uma vez adernado pela adriça, poderá atravessar todo o banco saindo do outro lado. Para chegar a essa conclusão, só caminhando pelo banco.

           O mais importante é não entrar em pânico. Manter a calma. Já encalhei diversas vezes no Guaíba e mesmo na Lagoa e sempre consegui sair com facilidade. Claro que a facilidade do desencalhe varia de acordo com as condições das ondas e ventos. Encalhar com ventos e ondas fortes entrando com o vento de popa em um banco será sempre uma situação complicadíssima, especialmente se faltar motor. Por isso a importância de estar sempre atento à Carta, confiar em suas profundidades considerado o nível "atual" (do dia) das águas.

            Muitas vezes, em situações dessa espécie, o velejador entra em pânico, e o pânico provoca uma espécie de "branco" no raciocínio. Perde-se a capacidade de raciocinar. O tempo parece passar, passar e nada conseguimos fazer dentro dele. Fica-se sem qualquer iniciativa, muito embora se tenha aprendido o que fazer nessas situações. Para evitar esse tipo de "branco" só há um remédio, treinar mentalmente esses tipos de acontecimentos. Ficar se imaginando numa situação dessas e treinando mentalmente o que fazer. Esse tipo de treinamento, que dispensa estarmos dentro do barco, é extremamente útil não apenas para essa situação de encalhe como para toda e qualquer situação de risco envolvendo a Vela.

            O treinamento mental que busca o procedimento adequada adequado para as situações de risco é muito importante. Imagine-se navegando você e seu filho pequeno no meio do Guaíba. Você e ele estão sem salva-vidas (o que já é um grave erro). Ele cai na água. Se você não tiver feito um treino prévio (mental) para uma situação dessas, você ficará em pânico completo, perderá a razão, agirá rapidamente e por puro instinto, ou seja, vai se atirar na água atrás dele sem salva-vidas. Resultado: ambos estarão em sérios apuros. É preciso treinar previamente (e, por diversas vezes, mentalmente) que numa situação dessas deve ser atirada uma bóia para aquele que caiu na água e imediatamente aproar o barco. A seguir, o procedimento normal, aproximação da pessoa que está na água pela proa e lançamento da bóia com um cabo. O treinamento mental do procedimento em situações risco insere-se no velho ditado segundo o qual "quem vai ao mar avia-se na terra" e, dado a sua importância, retomarei, oportunamente, a esse assunto.

 

 

A Praia da Ponta Grossa e a Família Medeiros

...É possível subir pelas pedras para explorar a encosta íngreme da ilha onde os pássaros nidificam. Mas cuidado para não assustar acidentalmente os pássaros, lembre-se, somente a Marinha do Brasil tem permissão para bombardeá-los !  

Marçal Ceccon - Guia Náutico da Costa Brasileira "in Alcatrazes" 

 

 

 

Foto tirada de Leste para Oeste. Ao fundo a ponta da Ponta Grossa

 

          

Essa praia tem um significado muito especial para mim. Não apenas porque nela tive meus primeiros contatos com embarcações, como também porque era nela que se reunia minha família por toda minha meninice. Todos os finais de semana, de meus 0 aos 11 anos, ia para a Ponta Grossa, onde convivia, juntamente com meus irmãos, com a natureza e as águas do rio Guaíba.

           A praia fica ao Leste da ponta da Ponta Grossa. A foto acima foi tirada no verão quando a praia, com o nível baixo do Guaíba, fica mais larga. No inverno, o rio chega próximo dos muros dos sítios. São pouco mais de duas dezenas de sítios com frente para a praia da Ponta Grossa. Embora ela esteja localizada próximo aos clubes de Vela, não é tão visitada por velejadores. Muitos preferem ancorar no outro lado do Morro da Ponta Grossa, o que não considero aconselhável,  já que por ali fica o Morro da Serraria, onde há uma favela. Outra razão, imagino, para os velejadores não ancorarem na Praia da Ponta Grossa é o fato de que os veleiros vindos dos Clubes de Vela, ao Norte, e vão para o Sul, Belém Novo, Ponta do Arado, Chico Manoel, Arroio Araçá, Barra do Ribeiro, Itapoã, passam distante dessa praia. Para chegar nela, é preciso mudar o rumo. Ao passar a ponta da Ponta Grossa, é necessário dobrar à esquerda, tomando o rumo Leste. Pena, pois que é um lindo local e bastante seguro, visto que alguns dos sítios são ocupados por moradores ou caseiros.  Essa praia poderia ficar muito mais bonita se fosse autorizada a construção de um molhes para a proteção de veleiros dos ventos Sul e Sudoeste. Já houve interesse por parte dos donos dos sítios na construção desses molhes, sem ônus para o poder público, porém, por alegadas razões ambientais por parte de órgãos do Governo, a construção não foi autorizada.

 

 

 À esquerda, atrás do  muro branco (é o mais visível da praia quando avistada de grande distância), é o sítio que pertenceu a meu avô e que hoje é de meu irmão.  À direita, com a praia gramada, o sítio do velejador Flavio Jacobus. A profundidade do local é de 2,50 metros (informação da Carta) a partir da distância de 60 metros da beira da praia (no verão). Assim, trata-se de excelente local para barcos de grande calado fundear.

 

 

 

 

 

 

 

 

Trapiche de madeira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A figueira e o trapiche

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O biguá descansando. Esse pássaro come peixes. Ele vê um movimento sobre a água e mergulha. Mantém os olhos abertos  e assim captura os peixes com grande velocidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O sítio na Ponta Grossa,  aproveitado por mim, meus irmãos,  filhos e sobrinhos,  pais, avós e bisavós. Foram cinco gerações.

 

 

 

 

 

 

 

           

  É difícil  descrever a família Medeiros, pois as características de seus membros são as mais variadas. Talvez o aspecto lúdico, um grande amontoado de "sorridentes brincalhões", seja o traço  comum. A vida só é levada até suas últimas  conseqüências porque são todos mortais. Mais dia menos dia, morrem, todos, sem exceção. Mas não é levada exatamente a sério. A maior tragédia transforma-se com facilidade na maior comédia. Só uma coisa é mais grave e triste do que a perda, o sofrimento, a dor: é não ter vivido. Há entre eles atores, intelectuais, muitos médicos, advogados, juízes, escritores, músicos. É uma raça indefinida. Uma grande mistura. Uma cruza de portugueses, espanhóis, franceses, judeus, alemães, irlandeses, negros e índios. Há poucos ladrões e vigaristas. Um que outro gay. Um que outro adúltero. Malucos têm as pampas. Como me segredou, de certa feita,  meu querido e já falecido primo, Matias de Azambuja Velho, quem sempre sentenciava com certeira precisão: de cada três que nascem em nossa família, dois vêm com os cascos virados. Partindo dos tataravós, tem Pereira, Velho, Jobim, Meirelles, Sá Brito, Pinho, Lenz,  Mariano da Rocha, Albuquerque, Kreling e Azevedo. Os parentes mais destacados são os poetas Alvarez de Azevedo e Cecília Meirelles, o ator Paulo Cezar Pereio, o músico Tom Jobim e os juristas José Mariano da Rocha e Nelson Jobim. 

 

 

Pedro, meu filho, Gustavo e Alexandre, meus sobrinhos. Churrasco no sítio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nilo Pinho de Medeiros, Maria Berenice Meirelles Medeiros e os netos Tonho, Mariana, Gustavo, Lipe, Pedro, Queco, Isadora, Claudinha, Juliana e Gabriela. Natal de 2004.

 

 

Avô, Pai e Neto. Natal de 2004

 

 

           

             Meu avô, Ari Jobim Meirelles, era um grande estudioso de filosofia e de história universal. Tinha o costume, no sítio da Ponta Grossa, de nos contar suas histórias e estórias, sentado em sua cadeira de balanço e fumando cachimbo. Possuía o dom de misturar a história universal com aquelas que criava em sua imaginação. Como apreciava, também, livros de caçadores de leões da África, ouvimos muitas histórias envolvendo leões ferozes, assassinos de gente, que eram perseguidos por valentes caçadores. Porém, dentre todas suas estórias, há uma, criada por ele, que se transformou em uma espécie de lenda da família Medeiros, e que seus netos já recontaram a seus filhos. É uma tal de bruxa de nome Fonfeca. É uma bruxa extremamente feia. Não faz mal as crianças, mas a todas assusta de tão feia que é. Sua risada é assustadora: ih-ih-ih-ih-ih... Contava, ainda, meu avô, que essa bruxa morava no sotão do galpão próximo à praia, em que  ficava guardado o bote a remos. Todos os netos tinham muito medo da Fonfeca. (parágrafo) Em uma noite, num final de semana, em que havia vários tios e primos presentes, meu avô propôs que  exatamente à meia-noite,  fôssemos todos ver a Fonfeca. Mas ela só apareceria se fôssemos todos portando uma tocha de fogo. Foram preparados paus com estopa na ponta, molhada com querosene, e, assim, "armados", foram todos os netos ver a bruxa. Foi um grande suspense. Cada neto ia no colo de algum parente adulto e segurando uma tocha na mão, que serviria também como nossa proteção. Meu avô foi na frente em direção ao galpão. Fomos todos o seguindo. Depois de admirarmos a coragem dele subindo com a tocha  em cima do sotão, procurando pela bruxa,  para nossa surpresa, lá pelas tantas, ele acende as luzes do galpão e esclarece a todos que aquilo tudo não passa de uma brincadeira e que, em verdade, a Fonfeca é apenas mais uma estória criada por ele. Passa,  a seguir, a iluminar o sotão para que todos netos vejam que efetivamente a Fonfeca não existia. Creio que meu avô tinha em mente, com toda essa história, colocar em prática uma intenção pedagógica. Uma forma de desmistificar o mistério. De atenuar em seus netos o terror do desconhecido e do assombrado que toda a criança transporta dentro de si. Soube anos mais tarde, ouvido de um de meus irmãos, que aquela experiência para ele foi muito importante no sentido da desmistificação das diversas irrealidades assustadoras que nos acompanham no curso da vida. De minha parte, recordo que fiquei bastante decepcionado, já que estava com a tocha na mão pronto para colocar fogo na palha da vassoura da Fonfeca.

 

Desenho de Nilo Medeiros feito a caneta

 

 

 

Quadro de minha irmã médica e artista plástica Lucinha Medeiros Lenz

            Recordação 2 - Já era o terceiro final de semana que meu irmão Claudio, um desbravador por natureza, andava fazendo uma trilha para subir o Morro da Ponta Grossa. Ao mesmo tempo que ele construía a trilha a facão,  ia demarcando o caminho com um fio de nylon. Estávamos, todos os demais irmãos, apanhando e comendo caquis de uma árvore do sítio, quando, de repente, começamos a ouvir gritos vindos do morro. Logo reconhecemos como sendo gritos do Cláudio. A seguir, ele surgiu de dentro da mata, numa velocidade nunca antes vista por qualquer um de nós,  berrando: SOCORRO!!! SOCORRO!!!  Em poucos segundo ele estava junto de nós com os olhos completamente arregalados. Estava apavorado. Nos contou que estava lá em cima do morro, quando um cachorro do mato saiu de dentro de umas pedras e veio em sua direção, atacando, em disparada. Ele desceu morro abaixo correndo com todas as suas forças, sem olhar para trás e sem se importar muito com o que aparecia pela frente. Demos boas risadas de sua história e de seu pavor.

            Recordação 3 -  Na entrada do sítio, junto à estrada da Ponta Grossa, uma pequena ponte e, por baixo dela,  um cano pelo qual passa a água da chuva. Lá pelas tantas, eu e meus irmãos descobrimos que um grande lagarto morava debaixo daquele cano. Demos a ele o nome de Alfredo. Todos os finais de semana, levávamos restos de comida para o Alfredo. O lagartão foi se acostumando conosco e tornou-se um bicho manso que não raro era visto muito próximo de nós.

            Recordação 4 - Devia ter uns cinco anos. Estava sentado no chão junto com minha mãe. Estava matando formigas, uma após a outra, com o dedo indicador. Minha mãe me falou: - Flavio, não tens pena dessas formigas?! Coitadinhas. Não se deve matar os animais. Tentado ser mais esperto que ela, me sai com essa: - Mas quando caminhas sem olhar para o chão, não estás matando as formigas por igual? Ao que minha mãe respondeu: - Mas, filho, nesse caso a gente não tem culpa, nem sabe que está matando. Ali aprendi a distinção entre homicídio doloso e caso fortuito. Talvez tenha contribuído para tempos depois ter exercido a advocacia criminal por alguns anos e defendido alguns homicidas no Tribunal do Júri.

            Recordação 5 - Saltei da jangada no Guaíba de ponta-cabeça. Na próxima imagem que me vem à lembrança, estava sentado em um banco com todos a minha volta. Me contaram que, naquele meio tempo entre o salto e o estar ali sentado, estive desmaiado por uns 15 minutos. Dei de cabeça numa pedra no fundo do Guaíba e quem me salvou e me tirou da água foi o Claudio.

            Recordação 6 - Devia ter uns 10 anos. Resolvi ir de jangada, empurrada por uma taquara, até o Clube Médico, que fica uma milha ao Leste da Praia da Ponta Grossa. Fui e voltei sempre próximo a à margem. Na volta, junto de umas pedras, havia uns três ou quatro pivetes muito mal-encarados, de 10 a 14 anos, nadando. Ao me avistarem, ficaram muito interessados na minha rústica jangada (feita de tábuas de madeira com câmaras de pneus amarradas em baixo). Começaram a gritar um para o outro: Vamos pegar a jangada dele!! Vamos jogar ele na água!! O local não era raso. Tinha uns dois metros. E eu nadava muito mal. Se me tirassem a jangada,  iria afundar com certeza. Vi a morte de perto naquela ocasião. Hoje, relembrando o acontecido, meu parecer é de que efetivamente estava correndo sério risco de vida, já que a maldade de crianças (e a sua imprevisibilidade de riscos) não encontra, muitas vezes, limites. Iam sim, tirar a minha jangada e eu não teria condições de nadar até a beira. Comecei a empurrar a jangada com todas as minhas, forças procurando me distanciar daqueles mini-marginais. Lá pelas tantas, um dos pivetes chegou, nadando,  bem próximo da improvisada jangada. Não tive a menor dúvida. Quebrei a taquara na cabeça do bandido, que tonteou na mesma hora e que teve de ser salvo por seus amigos. Enquanto isso, tratei de me escapar no rumo do sítio. E consegui!! Cedo aprendi, que, em algumas ocasiões e circunstâncias, a maldade pode não encontrar limites.

 

            Em cada um, uma mesma experiência produz, normalmente, diferentes resultados. Creio que a infância na Ponta Grossa produziu em mim o gosto pelo contato com a natureza e pela aventura. Uma atração pelo risco, pela exploração, pela descoberta, pela invenção, pela superação de adversidades externas, de limites e de si próprio.

 

 

               

      Cactus. Há muitos desses no Morro da Monta Grossa                    Taquara com listas verdes

 

 

 

As enormes ondas da Ponta Grossa.

 

Veja clicando a filmagem dessas ondas

Em verdade, essas ondas têm apenas de 5 a 10 cm. A foto e a filmagem foram feitas com um dispositivo da máquina que permite capturar imagens bem próximas com boa visualização.              

        

 

Velejadores Regatistas, Velejadores Cruzeiristas, Velejadores Aventureiros e Velejadores Trapicheiros

 

                                                                  Todo o sonho tem suas próprias razões para ser sonhado.

                                                                             Mederianas

 

           

Os velejadores podem ser divididos em quatro subtipos: os regatistas, os cruzeiristas, os aventureiros e os trapicheiros.

            Regatistas são os aficionados pelas regatas, corridas de baixa velocidade. São atletas, normalmente jovens, de 10 a 30 anos. As palavras de ordem dessa turma é preparo físico e técnica. Estão sempre treinando. Sempre às voltas com ajustes de velas, ajustes do mastro, preparação do casco, treino de largada, treino de orça, treino de popa e novos materiais mais competitivos. São pessoas competitivas. Tenho lá minhas dúvidas quanto ao futuro das competições ou da validade em formarmos nos dias de hoje mentes competitivas. A impressão que tenho é de que o mundo está cada vez precisando mais de mentes solidárias do que de competitivas e, de certa maneira, a competição se contrapõe  à solidariedade.

          Cruzeiristas são os que gostam de passear de barco. Fazer pequenos passeios ou viagens que podem durar desde uma tarde até meses ou anos. Têm um personalidade diferente. Não são competitivos. São mais calmos e, especialmente, preguiçosos. É muito fácil de distinguir um regatista de um cruzeirista a bordo de um veleiro. Enquanto que o primeiro está sempre regulando, caçando,  folgando velas e mexendo no leme, com vistas a obter um melhor rendimento do veleiro (mesmo quando não está correndo uma regata), o cruzeirista, ao contrário, contenta-se com pouca vela, um rendimento médio e seguro da embarcação e alguma sombra a bordo onde possa ficar observando a paisagem passar, de preferência tomando algum refrigerante gelado ou uma cerveja e comendo bolachas. O ideal do cruzeirista é um ideal de vagabundagem. Quanto menos ele tiver que fazer a bordo, mais feliz estará. Se puder instalar um enrolador de genoa, para não precisar estar a toda mudança de tempo trocando velas, tanto melhor. Se puder adquirir um piloto automático, para não precisar segurar jamais no leme, melhor ainda. O vento, a sombra (que ele costuma obter instalando uma cabine de lona plástica sobre o barco), o barulho da água passando sobre o casco e nada para fazer, esta é a velejada ideal de todo o cruzeirista.  Dentre os mais famosos cruzeiristas brasileiros temos o João Sombra e a família Schurmann, ambos há muitos anos morando no barco e velejando por diversos continentes.

 

Que tal encarar uma ondinha de 15 metros nos mares austrais?!

            

           

Temos também os velejadores aventureiros. Aventureiros são aquela parcela da humanidade a quem a natureza onerou com o dever de buscar novos horizontes. Não fossem os aventureiros, os europeus nunca teriam chegado às Índias pelo mar, o Brasil nunca teria sido descoberto, e o homem nunca teria conhecido o avião. Os riscos são inerentes à aventura. Quando eles não existem, não aventura. Assim, a natureza, tendo em vistas os riscos, que provocam o medo, dotou os aventureiros de uma dose extra de coragem. A coragem é uma espécie de  insensatez, capaz de reduzir a consciência dos perigos. Há quem diga que a aventura distingue-se da loucura porque naquela os riscos são previamente calculados. Não acredito nisso. É difícil de dizer onde termina a aventura e onde começa a loucura. Há entre a aventura e a loucura uma zona cinzenta, um território sem dono. E comprovo: vamos imaginar uma pessoa que decida fazer roleta russa com um revólver. Cabem seis balas no revólver e ela coloca ali somente uma. Gira o tambor e dispara o revólver contra si próprio. Ora, esse maluco tem plena consciência dos riscos, vale dizer, sabe que estatisticamente suas chances de sobreviver são de cinco em seis. Os riscos são prévia e conscientemente calculados. Mas não é aventura. Trata-se de completa loucura.

            Creio que um dos principais representantes brasileiros da classe dos aventureiros é o Amyr Klink. Sua primeira aventura não foi à vela, mas a remo, da África ao Brasil, aproveitando as correntes marítimas. A segunda foi uma viagem da Antártica ao Ártico, oportunidade em que passou o inverno propositalmente encalhado no gelo da Antártica. Sua terceira aventura foi a volta ao mundo no sentido Oeste-Leste passando pelos três cabos na altura dos paralelos 50 a 60, onde os ventos de oeste são fortíssimos e as ondas muito grandes, chegando a atingir até 20 metros de altura. Nem todos os aventureiros são iguais. Amyr faz um tipo especial de aventureiro. Ele é um excepcional planejador. Planeja em minuciosos detalhes as suas viagens, procurando diminuir ao máximo os seus riscos. Os recursos de que dispõe em termos de tipo de embarcação, equipamentos, etc., são sempre superlativos. (parágrafo) Há outros tipos de aventureiros, que contam mais com a coragem e com sua experiência do que com um planejamento detalhado ao extremo e recursos abundantes. Talvez Amyr seja muito mais um grande cérebro planejador do que um aventureiro propriamente dito. Sua aventura de barco, que a meu ver foi, dentre todas, a que correu mais riscos, foi aquela feita com remos. Não era um barquinho qualquer. Havia praticamente um outro barco embaixo do que aparecia flutuando. O barco não virava, não afundava, e toda a viagem foi feita com rádio a bordo e suporte em terra. Tudo isso não tira o mérito de Amyr, pelo contrário, é um grande velejador, corajoso, extremamente (quase que compulsivamente) precavido e que mais que qualquer outro sempre soube levar a sério o lema marinheiro que diz "quem vai ao mar avia-se na terra". Amyr faz viagens - como ele mesmo escreve - para voltar.

         Há outros aventureiros famosos brasileiros: o projetista de veleiros Cabinho e Aleixo Belov (este o primeiro brasileiro a dar a volta ao mundo em solitário). Aliás, tenho certa dúvida ao classificá-los como aventureiros. Há nesses dois um misto de aventureiros e cruzeiristas. Outro aventureiro é o André Magalhães Homem de Mello, primeiro velejador brasileiro a dar a volta ao mundo em solitário, sem escalas, pelo Oceano Austral. Completou essa volta depois de Amyr. A diferença é que Amyr fez uma escala e André, não. Outra diferença é que o barco de Amyr era muito melhor equipado e a viagem dele foi mais próxima do paralelo 60 (a do André foi mais próxima do paralelo 40), onde as ondas são maiores,  os ventos mais intensos e os icebergs mais freqüentes.

         Aventureiro mesmo (ou louco) é um russo que construiu seu veleiro de menos de 5 metros na sacada de seu pequeno apartamento e que, saindo da Rússia,  aportou no Brasil no ano de 2004, quase morrendo de sede e de fome. E do Brasil partiu prosseguindo sua aventura, salvo equívoco, com a pretensão de atravessar o Estreito de Magalhães, ao Sul do Continente, e ingressar no Pacífico. Indagado sobre sua coragem em velejar num barco tão pequeno, esse maluco respondeu com simplicidade: Big boats, big troubles. Little boats, little troubles (Grandes barcos, grandes problemas. Pequenos barcos, pequenos problemas).

        Aventureiros são os diversos velejadores que cruzaram e os que  morreram tentando cruzar o Cabo Horn, que medeia as águas do Atlântico e do Pacífico. João Sombra, cruzeirista brasileiro de quem falei acima, costuma ironizar, com muita graça, esse pessoal aventureiro. Diz ele está passeando e não correndo o mundo e que prefere os trópicos, belas praias, lindas mulheres do que se meter a invernar e discutir com pingüins em frio de bater queixo. O Sombra é uma figura muito especial. Sua maior qualidade é sua humildade. Mantém um Grupo YAHOO na Net onde conversa diariamente com velejadores brasileiros, seus amigos, sempre que está em algum porto. Claro que o Sombra diz isso gracejando, pois que em sua humildade está sempre longe de querer parecer melhor ou "mais certo" do que outros. Na verdade, a preocupação dele é desmistificar o cruzeiro de vela ao redor do mundo, o que ele consegue fazer com eficiência e prestatividade através de suas informações quase que diárias. No entender de Sombra - e com com alguma razão -, o que alguns velejadores aventureiros fazem, narrando suas epópeias, as grandes ondas e tempestades que venceram, os diversos riscos porque passaram, descrevendo os mega veleiros hiperequipados que construíram, prestam um desserviço à vela brasileira, pois levam a entender que para velejar no mar é necessário, além de muito dinheiro, de excepcional coragem, o que não é verdade.

            Não coloco os velejadores exploradores como uma classe própria. Há velejadores exploradores tanto na classe dos cruzeiristas como na dos aventureiros. Tem cruzeirista que, além de passear, gosta de conhecer novos locais, novas ilhas, novas praias, novas passagens. Dentre esses, temos o gaúcho Comandante Geraldo Knippling, grande explorador do Guaíba e da Lagoa do Patos, inclusive com duas obras literárias publicadas. Os aventureiros são normalmente exploradores, buscam conhecer novos locais, novas passagens e novos mares.

            Por final, os velejadores trapicheiros. São acusados de não saírem de cima do trapiche, de serem palpiteiros,  metidos a grandes entendidos, medrosos. A grande maioria dos velejadores-escritores - Sombra, Amyr, família Schurmann e vários outros - fazem referências nada honrosas aos trapicheiros. Basta haver um acidente qualquer numa velejada que lá vem os trapicheiros com suas observações, opiniões e críticas irredutíveis sobre a falta de responsabilidade, preparo técnico e experiência do velejador acidentado. Pobre do velejador que cai nas más línguas dos trapicheiros...

            Coitados dos trapicheiros!! Tão difamados que são por todos demais velejadores. Penso que não dá para generalizar. Claro que existem aqueles maldosos, inventivos quanto a sua própria capacidade de velejar e seus conhecimentos. Quando surfava, reservarmos o nome de Areias aos surfistas que não saiam da beira da praia.  Estavam normalmente a divulgar a quatro ventos as enormes ondas que pegaram, quando dificilmente conseguiam passar da 1a. rebentação. Mas nem todas as pessoas são assim. Conheci de certa feita um trapicheiro, proprietário de um ODAy 23. Ele me confessou que dificilmente velejava. Em compensação, percebi que amava seu veleiro. Tinha ele sempre pronto para velejar, com tudo em ordem. Seu maior prazer era  nos finais de semana ir ao clube para fazer pequenos ajustes, aperfeiçoamentos, reparos e para lustrar o seu querido veleiro. Gostava de ler livros de vela. Gostava de ouvir histórias de vela narradas por outros sócios do Clube. Era essa a sua vida. Velejar mundo afora, deixando toda sua vida para trás, era o seu grande sonho. E curtia esse sonho deitado na rede a sombra, de onde, distante, avistava o seu barco embalado por ondas do Guaíba, amarrado ao trapiche. Como vou menosprezar uma pessoa dessas? Velejar, ele veleja. Veleja em seu sonhos. Pelo menos, ao contrário de muitas pessoas, não perdeu a capacidade de sonhar, de planejar um um futuro melhor. Talvez ele não consiga realizar seus sonhos em razão de suas responsabilidades em terra, talvez ele não goste da água por medo mesmo. E quem disse que todos são obrigados a nascer corajosos, intrépitos e valentes?! Quem disse que todos nasceram para viajar e descobrir?! Admiro esses trapicheiros que tem o seu veleiro estacionado junto do trapiche, mas que amam seus barcos, amam a vela e sonham com as realizações daqueles que velejam efetivamente. São espectadores. Não só no teatro, mas a vida também precisa de espectadores. Que seriam dos atores, dos personagens e dos verdadeiros velejadores se não houvesse quem os admirasse!? Que seriam dos livros se não fossem os leitores!? Viva os trapicheiros!!!

            Essa história de sair viajando num grande cruzeiro à vela é o sonho de grande maioria dos velejadores. Alguns  levam esse plano muito a sério. Muito mais do que deveriam, mesmo porque, todas as estatísticas são contrárias a esses sonhadores. Menos de 99% das pessoas que planejam isso se lançam verdadeiramente ao mar. E veja que muitos deles gastam tempo e fortunas construindo o barco com o qual vão sair a navegar pelos mares. São tomados como que por um delírio. Mas sonhar é preciso. Os sonhos tornam mais amena essa vida, que não raro, para muitos, representa uma pesada carga. Sonhar com uma longa viagem a bordo de um barco é uma maneira que se tem de diminuir o desgaste que a vida moderna e apressada dentro das grandes cidades nos provoca. É uma maneira de fugir da correria. Da pressa. Do barulho. Da poluição. Dos horários. Das responsabilidades. É, sim, um sonho saudável e não se deve acordar aquele que está nele imerso. (parágrafo) Todo o sonho tem suas próprias razões para ser sonhado. Em verdade - verdade verdadeira - esse sonho, do ponto de vista psicanalítico - é um sonho de morte. É resultado do instinto de morte que, embora se contraponha ao instinto de vida, auxilia a tornar a vida menos onerosa. Talvez não devesse estar descambando para essas teses analíticas. Mas é preciso entender esse processo. Se a vida fosse eterna, ela seria insuportável sob todos os pontos de vista. A vida é "feita" para ser feliz porque tem fim e, sendo assim, deve ser aproveitada. Ter de viver uma vida eterna seria tão insuportável quanto ter de comer um picolé de 40 kgs. O confronto do fato morte com o fato vida torna essa última mais interessante. Diante da inevitabilidade do evento morte, todos as dores e sofrimentos tornam-se mais suportáveis, já que, mais dia menos dia, encontrarão o seu fim.  Daí dizer-se com absoluta razão que o tempo a tudo cura. Não é incomum encontrar-se pessoas velhas que são muito mais felizes do que foram em sua infância ou adolescência. Essa felicidade está diretamente relacionada, muitas e muitas vezes, conscientemente mesmo, com proximidade e a certeza do fim, em razão de uma vida infeliz que tiveram no passado. Sair mundo afora, deixando tudo para trás, os amigos, o passado, navegar no mar infinito, flutuando, livre de responsabilidades, de horários, o que pode ser mais semelhante que isso do que a própria morte? Digo e repito, o sonho de velejar mundo afora confunde-se com o desejo de morte. Mas isso não significa que esse sonho seja insano ou doentio, já que o instinto e o desejo de morte é natural em toda pessoa. Não! O desejo de morte contribui para que possamos viver. Doentio, isso sim, é o medo obsessivo e fóbico de morrer. É a impossibilidade de sonhar. É a desesperança completa. Para alguns, uma minoria, o desejo de "não viver" sua "velha vida" é tão grande, que lançam-se efetivamente ao mar, realizando o seu sonho e, é ali, que muitas vezes encontram a felicidade, numa nova vida.

 

 

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