Velejada,
fotos e filmagens ![]()
O
maior vexame que um homem pode dar com sua vida é faltar mão para amparar a
alça do caixão com sua morte.
Mederianas
Em Janeiro de 2005.
Aos poucos, vai-se equipando o barco. Coloquei mãos à obra e fiz dois armários, coloquei uma mini-televisão, um rádio am/fm, outro rádio/transmissor VHF, um carregador de bateria e um voltímetro. Grande progresso em relação a meus barcos anteriores, que sequer luz elétrica tinham (a iluminação era com vela e lampião a querosene).

Essa foi uma rápida velejada em família, eu, meu irmão Kiko e meu filho Pedro. Saímos do Clube Jangadeiros, fomos orçando até a Ponta Grossa (vento Sul) e voltamos. Os ventos eram de 15 nós com rajadas de 20. Na foto acima, orçando.

A famosa Ponta Grossa. Trata-se de um morro grande e alto que invade o rio. Próximo a esse morro os ventos apertam e formam-se ondas um pouco maiores em função do rio ser mais fundo nas proximidades.

Flavio e Kiko Medeiros. Ao fundo o Morro da Serraria onde há uma favela.

O Morro do Sabiá, pertencente ao Colégio Anchieta. Bem próximo à construção que se vê junto ao rio há uma escadaria que leva até o topo do morro. Entrada teoricamente somente com convite. Na prática, não há qualquer problema em subir a escadaria e conhecer as dependências no topo do Morro.

Vista da Ponta dos Cachimbos, ao lado do Clube Jangadeiros. Há um baixio nas cercanias (um raio de 1 milha) desse morro (1,5 metros de profundidade).

Meu filhote, com um chapéu que está mais para Jimi Hendrix ou Kurt Cobain do que para Boris Ostergreen. O lance dele na verdade é guitarra e judô, mas não dispensa um pequeno cruzeiro à Vela ao lado do pai.
Filmagens (ventos de 15 nós e rajadas de 20):
- orçando (a proa cortando ondas)
- passagem pela Ponta dos Cachimbos
Carta Aberta ao Tio Sombra

Não há o que temer de homens; de mulheres, sim. Homens provocam ferimentos no corpo; mulheres, cicatrizes
na alma.
Mederianas

Certa noite, há muitos anos, entrei no Teatro Presidente, em Porto Alegre, que situava-se na rua Benjamin Constant, para assistir à apresentação de um mímico brasileiro, Ricardo Bandeira.
Quando as cortinas se abriram, surge, caminhando no palco em direção à platéia, um sujeito baixinho, meio careca, com calças jeans velhas, tênis furados, camisa mal vestida. Me surpreendi, de certa maneira, pois que não pude crer que aquela figura, tão simplória, apresentaria um espetáculo teatral.
A encenação começou, aos poucos, e à medida que as cenas sucediam-se e o tempo passava, aquele homem insignificante começava a crescer, crescer, crescer mais e mais, envolvendo emocionalmente todo o público com sua brilhante apresentação. Era um espetáculo daqueles capazes de nos fazer esquecer completamente de nossa própria existência para entrarmos dentro das cenas que eram criadas pelo artista. Era encenação para rir, para chorar e se sensibilizar. Aquele pequeno e insignificante homem, totalmente desapegado de sua aparência, cresceu e tornou-se um gigante que dominou todo o público por mais de duas horas.
Assim são os grandes homens. Em todas as áreas. Eles esquecem de sua própria importância. Se dão, claro, o valor, mas não se preocupam em demonstrá-lo. São tranqüilos quanto a seu próprio valor e por essa razão não têm a menor necessidade de provar o que quer que seja para ninguém.
Grandes homens surgem aos nossos olhos como homens pequenos, homens humildes, exatamente porque não têm a menor preocupação em mostrar sua própria grandeza, tamanha a certeza que têm dela.
Homens pequenos, ao contrário, surgem, não raramente, à primeira vista, como grandes homens. Em sua onipotência, e no seu receio de serem desmascarados, afastam-se de nós. Mais dia menos dia, a máscara cai. Os mais perceptivos de pronto reconhecem essas pessoas.
Você, meu amigo Sombra, reconheço-lhe como sendo um Grande Homem. Nessa sua aparência de velho maluco, tatuado de uma ponta a outra, com essa barba enorme e branca como se fosse Papai Noel, velejando há vários anos mundo afora, por todos os cantos desses mares, sentando-se aqui no mesmo andar de nós mortais velejadores sonhadores virtuais – que sonham tuas realizações –, igualando-se a nós, traz dentro de ti a enorme humildade que somente os grandes homens sabem transportar.
Veleja , Grande Homem, e que o sopro dos ventos conduzam esse teu velho amigo, teu barco, para os caminhos da glória, guiando a todos nós.
O tempo passa, teu barco cruza oceanos e um dia serás apenas tua presença na memória e corações de teus amigos. Então, sim, serás o tal Herói (que não ambicionas) e tenho certeza, haverás de ser reconhecido como um dos maiores – se não o maior – velejador brasileiro de todos os tempos.
Estava aqui numa noite de insônia. Fumando o último cigarrinho antes de deitar e quis lhe deixar essas palavras. Sei que às vezes enfrentas a falta de reconhecimento, a inveja, a incompreensão. Enfrentas, em verdade, a própria humanidade, coisa que pouca gente tem coragem de fazer. É isso, Velho Barbudo Baixinho. Papai Noel existe e todas as quintas nos traz histórias e presentes. Boa noite!
Flavio - LUMAR
Velejada
até a Ponta dos Ceroulas. Passagem pela Ponta Grossa.
Perde-se muito tempo da vida ganhando
a vida.
Mederianas
Dia 4 de Janeiro de 2005.
Rumando em orça para a Ponta dos Ceroulas 1
Rumando em orça para a Ponta dos Ceroulas 2
Quando saí em solitário do clube já eram 15:30 horas. Ventos inconstantes, entre 10 e 15 nós. Destino: a Ponta dos Ceroulas. O velejador Ademir Correa, do "Let it Be", andou comentando sobre a existência de uma passagem no banco de areia da Ponta dos Ceroulas, inclusive tirou algumas medidas de profundidade. Quis conhecer. Vento sudeste. Fui orçando até a Ponta Grossa. O primeiro bordo foi dado em frente à Riocell, ocasião em que encalhei o barco, pois o Guaíba estava extremamente baixo. Para encontrar a profundidade correta do Guaíba nesse dia, era necessário descontar uns 30 cm das profundidades assinaladas na Carta. Tive de descer do barco (com a bolina recolhida ao máximo ele cala 60 cm), virar o bordo à força, aproando o Leste, e sair com a ajuda do motor.

Foto tirada pouco antes de encalhar. Ao fundo, pode ser vista a Riocell (ex-Borregard). Essa empresa fica em uma ponta da margem e, como em todas as pontas da margem Oeste do Guaíba, há um banco de areia que ingressa rio adentro. A explicação desses bancos é simples: o rio partindo do centro da cidade corre na direção Sul (até a Ponta Grossa) e Sudeste (até Itapoã). O vento predominante em nossa região é o Leste. A água desce o rio formando uma corrente que "lambe" a costa Oeste (porque o vento Leste empurra a água para aquele lado) e vai deslocando a areia dessas pontas e a própria areia que desce junto com a corrente para dentro do rio, formando os bancos de areia.
O segundo bordo foi na altura do Morro do Sabiá, o terceiro, próximo ao canal, e o quarto, próximo às baleias da Ponta Grossa.

Essa é a famosa Ponta Grossa. Um morro alto com mata nativa, que adentra o no Guaíba. Essa foto foi tirada na direção noroeste-sudeste (bem próximo das baleias). Se tomarmos o rumo da esquerda, encontraremos uma pequena praia, que, por ser "particular”, não se pode desembarcar. Muita gente passa a noite dentro do barco em frente a essa pequena praia (ao norte da Ponta Grossa), o que é desaconselhável, já que o local é muito próximo do Morro da Serraria, que é tomado por uma favela. Se tomarmos o rumo da direita, encontraremos a Praia da Ponta Grossa, uma bela praia, com boas casas de veraneio. Ótimo lugar para parar, desde que não entre o vento Oeste ou Sul. Me foi noticiado por um morador da Ponta Grossa que há uma trilha que dá a volta em todo esse Morro. Ela parte da praia e vai costeando o rio até encontrar o fim da Estrada da Ponta Grossa. Comentou que é um belo passeio. Olhando à direita das pedras que existem na margem nesta foto, há ali, visível, uma pequena entrada sem pedras no morro (percebeu?). De uns alguns anos para cá, tenho observado luzes à noite naquele local e, às vezes, um ou outro barco ali encostado. Me parece que seja um acampamento de pescadores. Dia desses vou verificar. Melhor que seja, porque se não for, pode ser o início de uma favela. Dois terços da área desse morro pertencem a uma multinacional.

Atenção: perigo!! As baleias são essas rochas próximas à Ponta Grossa. Essas pedras têm especial atração por lancheiros (que não entendem o significado de uma Carta Naútica) e mesmo velejadores que dispensam o uso de Carta.

Como o rio estava baixo nesse dia, as baleias estão bem visíveis. Quando o rio está alto, elas ficam abaixo da linha da água, só aflorando aquela pequena alvenaria quadrada que se vê nessa foto. Desconfio que o cubo tenha sido construído em cima da baleia, justamente para que ela fique visível mesmo em dia de cheia.

Como dá para ver nessa imagem, são dois conjuntos de rochas separados por algo em torno de 40 metros. Mas não são só esses dois conjuntos: há pedras também entre eles, vale dizer, não tente passar pelo meio!
A partir da Ponta Grossa, rumei em direção à bóia de número 120 (rumo Sul – 170º), com o vento persistindo de Sudeste. Para ir até a Ponta dos Ceroulas a partir da Ponta Grossa, com o rio baixo, é necessário ir primeiro até essa bóia para evitar com segurança o banco de areia da Ponta do Jacaré (o banco chama-se Coroa do Jacaré), que é extremamente longo e chega próximo ao canal dos navios. Ultrapassada a bóia 120 (bóia isolada - cor verde), fui em linha reta até a Ponta dos Ceroulas.

O Farolete número 120. Não é uma bóia "casada", ou seja, nesse ponto do canal não há duas bóias demarcando os dois lados do canal, mas uma, demarcando apenas um lado. As bóias e faroletes verdes demarcam o lado direito do canal de quem está descendo qualquer rio, e as bóias e faroletes encarnados (vermelhos) demarcam o lado esquerdo do canal em qualquer rio. É uma convenção. Para memorizar, descendo o rio do lado esquerdo é a bóia da cor do coração (que fica em nossa esquerda), encarnada. Nas Cartas lê-se: Bóia V. Entenda-se "V" de Verde, e não, de Vermelha. Bóia vermelha é bóia E, de Encarnada.

Cheguei à tardinha na Ponta dos Ceroulas. Vi pelas duas canoas à margem que haviam pescadores lá (em duas das três pequenas prainhas que tem na Ponta). Adentrei o mato procurando-os e, para minha surpresa, deparei-me com um casebre de duas peças (cozinha e quarto), localizado a 20 metros da margem, escondido no interior do mato. Conversei com o pescador (Carlinhos de Guaíba) que estava com a família e ele me explicou que aquele rancho pertence a um grupo de pescadores. Me informou que tem há outro rancho na outra prainha mais a oeste (onde vi a outra canoa). Indaguei se poderia ocupar o rancho quando não houvesse ninguém e ele me informou que não há problema, mas que é muito difícil o rancho ficar desocupado, mesmo no inverno.

Chegando à tardinha na Ponta dos Ceroulas
Indaguei ao Carlinhos sobre a passagem na ponta dos Ceroulas e ele me confirmou sua existência, informando que ela é muito utilizada por pescadores e que naquele dia ela estava com 60 cm de profundidade. Perguntei se era possível ir pelo meio do mato até a ponta, pois queria caminhar pela passagem. Nesse meio tempo, entre o desembarque e a aproximação do barraco, anoiteceu. O pescador me disse que era possível, que fosse sempre pegando a esquerda nas encruzilhadas do pequeno caminho que há pelo chão, que cuidasse as aranhas venenosas e as cobras, já que o local, por ser um banhado, tem muitas delas. Munido de uma pequena lanterna, tomei o rumo da ponta através do caminho estreito quando, nos primeiros 40 metros, me deparo com uma teia de aranha atravessada no caminho. Bem no centro da teia uma enorme aranha de bunda grande e avermelhada. Essa bunda deve estar cheia de veneno - pensei comigo mesmo. Estava de pés descalços, fossem outros tempos teria prosseguido, mas já estou velho para meninices e idade nos torna mais cautelosos: dei a volta.
Voltando ao rancho do pescador, fiquei conversando com ele. Me contou que a pesca no mês de janeiro é proibida e que, portanto, ele está descansando com a família no rancho e aproveitando para fazer reparos no barco e consertos na rede. Demonstrou-se uma pessoa muito hospitaleira, me convidou para ficar para a janta, mas como não queria chegar muito tarde em Porto Alegre, recusei e agradeci.
Subi a bordo e me servi de um café com leite acompanhado de bolachas com mel. Pensei em conhecer a passagem com o barco, só com o motor, mas o vento estava forte e poderia jogar o barco contra a praia na ponta.
Resolvi retornar. A viagem não foi perdida. Fica para outra oportunidade explorar melhor essa passagem. Conheci o pescador e o pequeno rancho. Pena que não tirei fotos do rancho. Mas vou tirar em outra ocasião. De fato existe ao sul da ponta, um banhado, e esses banhados costumam ter muitas cobras. Conclusão: não me parece que o local seja muito indicado para acampamentos de mais de um dia.
O conhecimento dessas passagens é importante. Elas tornam navegáveis o lado Oeste do Guaíba, que é muito prejudicado por esses bancos de areia que adentram rio afora. Lembro que de certa feita estava em cima de um banco de areia puxando o barco por um cabo e, quando olhei para a costa, ela estava há mais de uma milha distância, ou seja, estava caminhando no MEIO do Guaíba com água pouco acima dos joelhos. Conhecer as passagens é necessário não apenas para os barcos de pequeno calado como também para aqueles de calado maior, já que elas podem ser utilizadas por estes no inverno, quando as águas do Guaíba sobem significativamente, ficando com um metro a mais que a profundidade assinalada na Carta. Nessa época, calculo que essa passagem da Ponta dos Ceroulas atinja quase dois metros de profundidade, o que permite a passagem de veleiros com mais de 30 pés de comprimento.
Outra conclusão a que chego, e que para velhos lobos do Guaíba e da Lagoa não deve ser qualquer novidade, é que essas passagens devem existir em todos os bancos de areia da costa Oeste do Guaíba e da Lagoa dos Patos. Por óbvio, corrente de água que desce lambendo a costa Oeste do rio e da lagoa é bastante volumosa e ela, apertada pelo vento Leste, tende a passar o baixio junto à margem. Está aí um belo campo para ser explorado, o das passagens dos bancos de areia próximo à costa Oeste. Em data recente, o Capitão Geraldo Knippling detalhou minuciosamente a Passagem do Morro da Formiga na Lagoa dos Patos.
Dias após escrever essas linhas, conversei com o velejador Bruno Steiger e ele me confirmou a existência das passagens nos bancos de areia da costa Oeste do Guaíba.
Carta do Guaíba
Mantenha teus
inimigos próximos de ti.
Maquiavel
Segundo a regra de n. 7, em www.pfdb.com.ar , "hay tres tipos de náuticos : el primer grupo es el de los teóricos : saben todo pero no navegan. El segundo grupo es el de los prácticos : se navegan todo aunque no sepan nada. Un tercer grupo une la teoría y la practica : no navegan y no saben nada." Me classifico como integrante do segundo grupo:, navego, mas conheço muito pouco a teoria. A bem da verdade, tive de dar uma breve espiada no meu vizinho quando fiz a prova para obter a habilitação de Mestre Amador. Para minha sorte, ele, o velejador e médico oculista Afonso Pereira, além de estudioso, era meu primo. Em compensação, nasci com o dom da palavra, escrita ou não. Embora faça um tipo calado, se você me convencer a falar, com certeza, ouvirá algo que valha a pena ser ouvido. Estou saindo do rumo. Justamente nessa etapa em que passaremos a tratar de rumos, da Carta Náutica. Como já escrevi em outra oportunidade (ou não), do ponto de vista teórico da Vela, sou bastante ignorante. Todavia, tenho excepcional capacidade de explicar o pouco que sei para aqueles que conseguem ser mais burros que eu, os iniciantes nesse fantástico e apaixonante mundo.
Essa minha ignorância da náutica em geral tem a ver com o rumo que dei a minha formação. Não fui para as ciências exatas, não sou engenheiro, não estudei eletrônica ou elétrica, pouco entendo de química ou de física. O pessoal das exatas tem grande vantagem sobre aqueles que partiram para os ramos das ciências humanas. Elétrica, mecânica, química, física fazem muita falta para quem quiser ser um velejador completo. De eletricidade, só o que sei é trocar um fusível queimado ou tomar um choque. E esse conhecimento faz muita falta diante da pane de um motor ou dos diversos aparelhos elétricos que são úteis dentro de um barco. Às vezes penso que eletricidade, por estar em todo o lugar, deveria ser de estudo obrigatório no segundo grau.
Como meu barco só é aberto umas duas vezes por semana, ele costuma concentrar muita umidade. Como consequência, a Carta Náutica que escaneiei abaixo está levemente mofada por ação de alguns fungos. Mas a idéia não é fazer bonito, e sim transmitir algumas noções básicas e úteis.
Há pessoas que navegam sem Carta, especialmente a casta inferior dos lancheiros. Isso é um verdadeiro absurdo, loucura total. Sem conhecimento de onde se está pisando, digo, navegando, pode ser dado um tropicão numa pedra submersa que, dado a velocidade de veleiros e lanchas, põe a pique a embarcação. Fora a possibilidade de encalhar ou mesmo de se perder. Asseguro que à medida que nos acostumamos com o uso da Carta, vamos tomando gosto por ela. Se torna uma companheira amiga e indispensável. Navegadores mais perfeccionistas vão marcando pontos na Carta, indicando os locais em que estiveram com o respectivo horário. Se for uma simples velejada pelo Guaíba, não vejo necessidade de tanto, mas em se tratando de uma viagem no mar, é imprescindível.
Abaixo está a Carta do Guaíba. Em pedaços, já que a superfície de meu scaner tem seus limites.
Clique sobre as imagens para ampliá-las.
NORTE
SUL
Por ser a área mais velejada, especialmente pelos iniciantes da Vela, vamos dar uma examinada na Imagem de n. 2, que vai do Iate Clube Guaíba (ao Norte) até a Ponta Grossa (ao Sul).
Ao Norte da imagem está indicado o Clube Veleiros do Sul. Em torno de uns 400 metros a Nordeste do Veleiros fica o Iate Clube Guaíba, que não aparece na Carta (creio que quando foi feita a Carta, o ICG ainda não existia, não tenho certeza). Na entrada (por água) do Veleiros, há indicação de que ali há um farolete. 0,4 milha a Leste do Veleiros está o Canal por onde passam os grandes navios que se dirigem ou saem do porto de Porto Alegre. É útil olhar para os lados quando se pretende atravessar o Canal. Nunca se aproxime demais da popa dos navios, visto que suas hélices gigantescas podem sugar sua embarcação (claro que isso vai depender do tamanho de seu barco e do vento que o está empurrando). Quando um navio aproxima-se, é sempre bom você saber a quantas anda em relação ao Canal, especialmente à noite. Tenha em mente que, assim como seu veleiro, os navios possuem luzes de navegação. Na proa, a luz de bombordo é Encarnada e fica à esquerda de quem olha o barco da popa para a proa ( bombordo = lado esquerdo = lado de seu bom coração). A luz de boreste (=estibordo) é Verde e fica à direita de quem olha a embarcação da popa para a proa). Se for noite, um navio estiver vindo na sua direção e na proa você vir uma luz Verde, é porque o Navio vai passar a sua direita. Veleje para a sua esquerda se necessário. Se estiver vindo em sua direção e na proa do navio você vir a luz Encarnada (vermelha) é porque ele vai passar a sua esquerda. Esse conhecimento é FUNDAMENTAL para quem veleja à noite. Com ele, sabemos que rumo tomar diante da aproximação de um navio. Se na proa do navio você estiver vendo as duas luzes de navegação, a Encarnada e Verde, saia para qualquer lado, pois o navio vai passar por cima.
Saindo do Farolete da Piava, vamos navegar pelo Canal no rumo Sudoeste até o farolete de n. 136. Se você estiver efetivamente navegando, vai ver que nesse Farolete está escrito o número 136. As bóias são numeradas. É para a sua localização. Além do número, nesse farolete está escrito LP V 5s. Isso é a abreviação de LamPejo Verde de 5 em 5 segundos. Também é para auxiliar na sua localização a à noite. Os intervalos dos lampejos variam de farolete para farolete. Também para auxiliá-lo. Em alguns deles, na Carta, está indicando a quantas milhas o lampejo pode ser visto. Há alguns poucos anos, não existia ainda o GPS e toda a navegação era "estimada" (estimava-se, sem ter completa certeza, onde a gente se encontrava em um determinado momento) e daí a quantidade de indicações existentes nas Cartas. Ao lado desse farolete, demarcando o outro lado do Canal, há uma bóia cega Encarnada (pintada de vermelho). Cega porque ela não acende, não lampeja, não tem luz.
Vamos prosseguir? Então, vamos lá. Descendo um rio ou uma Lagoa, vindo da foz e dirigindo-se no sentido do mar, as bóias e faroletes de boreste (da direita) são sempre Verdes e os do lado do Bom Coração (Bombordo = esquerda) são sempre Encarnados. É mais uma convenção. Há locais em que a bóia não é casada, ou seja, está sozinha, é demarcado apenas um lado do Canal. Se você está próximo da bóia, descendo o rio, e o navio vem subindo o rio, a bóia é verde, de que lado da bóia vai passar o navio? O navio vai deixar a bóia a bombordo ou a estibordo? Você está safo? Pense. Se não souber responder, afaste-se de canais.
Nem todas as pedras e obstáculos existentes nos rios, lagos e mares estão nas Cartas Náuticas. Olhe para a sua esquerda e verá a Ponta do Dionísio. Em frente a ela há uma cruz marcada com caneta. Ali tem uma pedra submersa. Salvo equívoco, chama-se Pedra da Piava, ou Pedra da Sava, ou coisa que o valha. Diversos veleiros já bateram com a quilha nela, sendo que muitos deles ficaram seriamente danificados com essa colisão. Por mais estranho que possa parecer, até hoje não há uma bóia demarcando, mesmo sendo este um local de bastante tráfego de veleiros. Muito mais que uma omissão da Marinha (e não me parece que seja), isso é um relaxamento das diversas diretorias dos três principais Clubes de Vela e dos próprios velejadores.
Dê uma olhada na Carta ao Norte da Ponta do Dionísio, há uma ilha, é o Clube Jangadeiros.
Vamos voltar para a bóia n. 136. Veja na Carta como o fundo é branco... é porque é mais fundo. Os locais mais rasos estão na cor verde. Um pouco mais fundo, na cor azul. Mais fundo, na cor azul claro e, depois, branca.
Veleje para o Sul deixando a Ponta da Alegria a boreste e vá até a Ponta da Figueira. Veja na Carta como em frente à Ponta da Figueira há tem uma linha pontilhada e dentro dessa linha está escrito Coroa da Figueira. É um banco de areia. A profundidade nesse banco varia de 01 a 09, ou seja, de 10 a 90 cm. É bem raso.
Está escrito a mão na carta "Perigo" em diversos pontos. Eram obstáculos diversos, mas que já foram retirados.
Em frente à Ponta da Figueira, do outro lado do Guaíba, está a Ponta Grossa. Na carta, no topo do Morro, está escrito o n. 144. Essa é a altitude do morro. Em frente, há algumas pedras (são as Pedras das Baleias) e, em volta delas, umas cruzinhas. Muito cuidado com a "cruzinha" nas Cartas:, é símbolo de pedras submersas. Veja a borda do Morro, ela é tracejada, significa margem de pedras. No lado Sul do Morro, entre os traços, há um pontinhos..... significa que ali tem uma praia. Veja a outra praia um pouco mais a Leste (a Praia da Ponta Grossa), tem uns quadradinhos pretos, são casas, prédios, construções.
Se você tiver uma Carta do Guaíba à mão, vai verificar que em todo o seu perímetro estão tracejadas milhas náuticas. Veja o tracejado nessa imagem. Uma milha náutica tem 1.852 metros. Diferente da milha terrestre, que tem 1.609,344 metros. Se o barco velejar numa velocidade de 4 milhas náuticas por hora, diz-se que está velejando a 4 nós. Um nó = 1 milha/hora. A propósito de Medidas, pegue de presente um excelente programa conversor de medidas diversas. É muito útil.
O Nível da água no Guaíba
Um
pescador habilidoso e sortudo, pescava grandes quantidades de peixes.
Um amigo então disse a ele:
- Por que tu não compras um freezer ?
- Pra quê? - indagou o pescador.
- Tu vai estocando e vendendo os peixes.
- Pra quê ?
- Com a grana que tu vais ganhar, tu poderás comprar um caminhão, abrir novos
mercados, e ganhar mais dinheiro.
- Mas pra quê ?
-
Bom, quando tu te aposentares, poderás fazer aquilo que gostas. O
que mais gostas de fazer?
- Pescar.
Autoria anônima
Uma outra informação, extremamente importante contida na Carta, diz respeito ao nível do Rio Guaíba. A relevância dessa informação reside no fato de que o encalhe de uma embarcação, que pode ser evitado com o conhecimento do nível da água, pode tanto vir a ser uma pequena aventura como um grande desastre.
Vamos examinar as informações abaixo (constantes da Carta):

Na tabela acima, pode ser visto o nível médio do Guaíba nos doze meses do ano. São as variações do nível da água em relação a um nível ZERO que foi tomado por referência (Nível de Referência = NR). O levantamente teve por base as medidas registradas durante 21 anos (de 1942 a 1962). Para bom entendimento, "média das máximas" é o nível médio de determinado mês do ano considerados os níveis máximos medidos naquele mês durante vinte e um anos. Examinando a curva da "média das médias", verifica-se que no inverno o nível do Guaíba fica em média meio metro mais alto do que o do verão. Mas costuma chegar no inverno a um metro acima (média das máximas) da média do verão. Chega a haver uma diferença de nível de 1,5 metros se levarmos em consideração a média das máximas no invernos e a média das mínimas no verão. A variação máxima de nível observadas nesses 21 anos foi de 2,70 metros.
Porém, indaga-se, qual é este tal de nível ZERO da Carta (NR)? Se estou em um determinado local do Guaíba em que a Carta indica uma profundidade de 1 metro, como posso saber (sem ser pulando na água ou medindo com uma régua) qual exatamente a profundidade desse local?
Nessa investigação, quem me auxiliou foi o Ademir Correa, do Let it Be. O Nível de Referência (NR) da Tabela equivale aos 44 cm da régua da Agência Nacional de Águas (ANA), cujas medidas podem ser vistas nesse site: http://www.hidrovia.rs.gov.br/hidrologia/niveis.htm O nível do Guaíba é medido e fornecido por esse site três vezes ao dia.
Dessa forma, tem-se que, se a Tabela da ANA indicar que o nível do Guaíba está a 44 cm, é porque as profundidades constantes da Carta do Guaíba estão todas absolutamente corretas, sem tirar nem por. Por outro lado, se a Tabela da ANA indicar que o nível do Guaíba está a 144 cm por exemplo, é porque devemos somar 1 metro a todas a medidas da Carta do Guaíba.
Interessantíssimo, não é? Pois é, a Vela é assim. Um monte de conhecimentos teóricos e práticos que são, em verdade, muito fáceis de serem compreendidos. O que me mata é a parte elétrica de um barco...