Nos dias seguintes. A costa brasileira.
Pouca
e muita idade, são idades de menos responsabilidades.
Mederianas
Nem uma subida pela costa do Oceano Atlântico até a Ilha de Santa Catarina conseguia descartar. Seria uma loucura com um pequeno Tchê? A grande maioria dos velejadores diria, com certeza, que sim, uma insanidade total. Será?! Não creio. Uma subida próximo à costa e à arrebentação, não me assusta. Tenho aproximados 15 anos de experiência e convívio com esse mar e com esse litoral. Surfei, dos 10 aos 25 anos de idade. Surfei ondas de seis metros (se for medi-las da cava à crista) e ingressei mar adentro em dias de fortes ressacas, ondas e correntes. Não existem correntes para fora, nem tubarões, nem pedras, nem corais. Se em uma subida pela costa com um barco Tchê, as condições do mar pioram, a intensidade dos ventos e o tamanho das ondas aumentam, é possível rumar para a praia e ancorar o barco. Dá para velejar longe das rotas dos navios, próximo à arrebentação e em dias ou noites de pouca visibilidade. Afinal, não há o caso de dois velejadores que atravessaram o Cabo Horn em um Hobbie Cat!!??

Pelo menos na região que conheço, do Farol da Solidão até o Rio de Janeiro, o mar em nossa costa normalmente, apresenta cinco rebentações. A primeira é a da beira da praia, aquela que sobe na areia e que quando desce mostra as tatuíras enterrando-se. A segunda é quando inicia o buraco. A aproximados 10 metros da 1a. rebentação, há, quase sempre, um buraco (o terror das crianças, dos idosos e dos salva-vidas). Logo após, sobe-se em um platô de aproximados 100 metros, e há outro buraco (mais fundo), que é onde estoura a 3a. rebentação (onde as pessoas "pegam jacaré"). A 4a é, na maioria dos dias, a última e fica a 400 metros da beira da praia. O fundo do mar está a 2 ou 3 três metros. Essas ondas dificilmente superam os 3 metros de altura. Nos dias em que a ondulação é maior, esse fator faz com que a parte inferior da onda encontre o fundo (momento em que, não podendo oscilar, a onda quebra) em local mais distante da praia, e então temos a 5a rebentação. Ela fica entre 600 e 800 metros da beira da praia, depende do tamanho em que estiverem as ondulações no dia (quanto maiores as ondulações, mais distante. As ondas variam desde 4 metros até, excepcionalmente, 6 metros (o que acontece cinco a dez dias por ano apenas). Em mar de grandes ondulações, o máximo que as ondas da 5a. rebentação atingem é de 5 a 6 metros. Todavia, registre-se, dias de grandes ondulações são dias excepcionais. O mais normal são é as ondas em torno de 3 metros. Importante detalhar que essa rebentação só se forma em 20% a 30% dos dias de um ano. Em todos demais dias ela não acontece por falta de tamanho nas ondulações.
A foto acima é do mar junto à Plataforma da Praia de Atlântida. É um dia de quatro rebentações. Essa onda da foto na 3a. rebentação tem 1,5 metros e a da 4a (a que está estourando) tem entre 2,5 e 3 metros. É entre a 3a. e a 4a. rebentação que pode ser ancorado um barco à vela que cale menos de 1 metro. Da beira da praia até a 4a rebentação, na foto, são 400 metros, e entre a 4a. e a 3a., 200. A onda da 4a. arrebentação pára de espumar depois de 100 metros. Portanto, tem um espaço de 100 metros para ancorar o barco. De quinze verões surfados na década de 70, quatro deles foram junto a esta Plataforma.
Conhecendo bem essas
rebentações
e tendo uma boa noção prática
de tamanho de ondas (o navegador tem
que
saber ver que as ondas estão crescendo), não há maiores riscos em subir a costa gaúcha e catarinense em um
pequeno veleiro Tchê. Quando não existir a 5a.
rebentação
(75% dos dias), não há qualquer risco em surfar as ondas com o Tchê para ancorar
entre a 3a. e a 4a.
rebentação, onde a profundidade é de 2
a 3 metros. Quando existir a 5a. (ondas de 2,5
até 5 metros) não se deve velejar, mas sim permanecer ancorado entre a 3a.
e a 4a.
rebentação,
aguardando
diminuir
a ondulação do mar. Acredito que o Tchê possa descer com completa segurança
ondas de até 2,5 metros.
Mais que isso, já começa a ficar arriscado.
Há risco
de virar, capotar, dar uma cambalhota. Ondas de 4 metros, nem
pensar. Em alto mar, tudo bem,
mas na costa, não. Na costa, as ondas são diferentes. Não
são gordas e longas. São curtas, verticais e quebram por inteiro (não
apenas
na
crista).
No entanto, desde que não hajam ondas grandes, não é inviável velejar em dias com 5ª rebentação, pois há uma maneira de passar por ela sem surfar suas ondas. Para isso, aguarda-se a passagem da série e a seguir se dá todo velame e motor (se tiver) em direção à costa, procurando ultrapassar o local onde quebra a 5a. rebentação sem descer nenhuma onda estourando. Série é um conjunto de três a oito ondas maiores que surgem de tempos em tempos. Dependendo do dia, elas aparecem de 5 em 5 minutos ou até de 20 em 20 minutos. Deve-se aproar a costa logo depois de passar a série, porque depois de uma série nunca vem outra imediatamente. Assim, atravessa-se a 5a. rebentação à salvo das ondas maiores (da série).

O risco maior de uma subida pela costa que conta com ancoragens próximo à praia. É muito comum acontecer isso com automóveis que trafegam na desolada costa gaúcha entre Rio Grande e Cidreira. Se o motor do automóvel apaga onde chegam as ondas, diga adeus a ele. - Fonte: www.pfdb.com.ar
Outra técnica para atravessar a 5a. rebentação é surfar suas ondas (com todo pano e motor) enquanto elas não quebraram ainda. Momentos antes de elas iniciarem a quebrar, deve-se dar leme ao lado para o barco sair da onda. Essa técnica imprime velocidade à travessia. Se bem surfada uma onda da 5a. rebentação, a próxima onda que chegar no barco pela popa já estará espumando.
Para entender a ancoragem entre a 3a. e a 4a. rebentação, se faz necessário explicar como se aproxima a onda da costa até chegar à beira da praia.
Em um dia de cinco rebentações, a onda vem de alto mar com aproximados 3 metros de altura. É uma onda longa. Aproximando-se do local onde acontece a 5a. rebentação, ela cresce, verticaliza-se, seu comprimento e amplitude diminuem, atinge aproximados 4 metros, quebra e, a seguir, segue espumando por 80 a 200 metros. Torna-se novamente um ondulação sem espuma ou crista, e, ao se aproximar da 4a. rebentação, verticaliza-se, atinge 2,5 metros de altura e quebra, espumando por 60 a 100 metros. Pela terceira vez, volta a ser apenas uma ondulação, quebra na 3a. rebentação com 1,5 metros, espuma, quebra na 2a rebentação e chega até à beira da praia, quebrando pela última vez.
Esses locais onde ocorrem as rebentações são fixos (em um dia que o vento não mude muito), com pequenas variações (alguns metros mais ao fundo ou mais ao raso, dependendo do tamanho da onda), assim como os locais em que as ondas, depois de quebrarem, param de espumar.
O
lugar
ideal para ancorar próximo
à
praia (evitando, assim, velejar nos dias em que houver a 5a. rebentação)
é entre a 4a; e a 3a.
rebentação
. A distância entre
elas é de aproximados 200 metros,
sendo que a onda que quebrou na 4a.
rebentação
pára de espumar 100 metros adiante. Portanto, há um espaço restante de 100
metros (varia com o dia)
para
ancorar. É
evidente que
não dá para ancorar em locais onde as ondas estão quebrando ou espumando (a
espuma empurraria o barco, podendo fazê-lo adernar demais).
O mar respeita esses "locais neutros", onde há uma área em que ondas não quebram nem espumam, onde o barco pode ser ancorado em uma profundidade de 3 a 2 metros. Somente em dias excepcionalíssimos, com mar ressacado, ondulações excepcionalmente grandes, poderá faltar um "local neutro", ou seja, quando algumas ondas quebram na 5a. rebentação e vão até a beira da praia espumando. Mesmo nesses dias, tem como fazer a ancoragem: ela deve ser o mais perto possível da praia (não tão perto que a bolina encoste no fundo quando o mar recua), com a popa amarrada por um cabo que vá até a areia de forma que o barco receba as ondas pela proa, evitando, assim, que a corrente deixe o barco de lado para as ondas.
Subir a costa gaúcha com um Tchê com vento norte ou nordeste, nem pensar, porque a corrente vinda do norte é muito forte. Só dá para subir com vento vindo do quadrante sul, com a entrada a frente fria (os ventos leste e oeste não costumam durar mais do que algumas horas). Mesmo assim, deve ser evitada a lua crescente ou cheia, pois nessas luas o mar cresce e é quando as ondas atingem tamanhos maiores. Se a subida for no verão, evitar a época de Carnaval, em que há trinta anos, as ondas crescem bastante (tenho observado ano a ano). Como a data do Carnaval é variável, conclui que é o barulho dos tambores que faz o mar subir (acredite se quiser).
Se a subida for solo, na hora de dormir dá para ancorar depois das rebentações, desde que as ondas não estejam com tendência a crescimento. O mesmo procedimento deve ser feito se não houver visibilidade. Deve-se velejar de 1 a 2 milhas da costa, evitando assim, com larga margem de segurança, a rota dos navios e dos barcos de pesca.
Quanto ao Tchê ser ou não um barco para navegação costeira, do ponto de vista regulamentar, questão de informar-se melhor. Quer me parecer que não é o tamanho do barco que determina se ele está ou não autorizado pela Marinha a fazer navegação na costa, mas sim, o equipamento que ele possui (rádio, dingue salva-vidas, etc). Um barco inicialmente autorizado para a navegação em águas abrigadas, uma vez devidamente equipado, pode pleitear autorização da Marinha para fazer navegação costeira.
Mas são tudo apenas sonhos. Sonhos e devaneios de uma mente desocupada... Não creio que eu esteja velho o suficiente para uma aventura dessas. A velhice diminui nossas responsabilidades.
Livre Pensar
Desculpe-me,
mas suas diversas tentativas de construir uma piada tem me deixado cada vez mais
deprimido. Essa sua incapacidade, aliada a meu orgânico desânimo, pode se
tornar fatal para mim. Tenha dó dos que te cercam e deixe a graça para os
engraçados.
Mederianas
O aumento do poder da palavra é proporcional ao avanço da humanidade. Como a palavra é um signo, que contém um significado, em verdade, o poder não é propriamente da palavra, mas da idéia nela contida. As idéias, hoje, têm mais poder de destruição ou de construção do que a força física. Num futuro não muito distante, com a evolução de nossa espécie, grandes obras e grandes guerras dispensarão por completo o emprego do movimento físico ou espacial. Grandes guerras e grandes obras serão realizadas todas exclusivamente no mundo das idéias.
Nunca dei qualquer importâncias às reuniões dos homens. Às suas associações com vistas a chegar a determinados fins. Em tempos de faculdade, final da década de 70, via aquele pessoal de esquerda reunido, discutindo mil estratégias para entregar o poder ao povo. Naquela época, ainda era um pouco de esquerda (tinha sido um radical em tempos de Científico no Colégio Anchieta), dizia àquele pessoal que eles estavam perdendo tempo, que aquele troca-troca de palavras não levava a nada, não produzia qualquer efeito prático. Dizia-lhes: subam o morro. Vão ensinar essas doutrinas que vocês pregam para o operário. Naqueles anos, o PT era todo estudantil. Os sindicalistas ainda não tinham tomado conta.
Mais tarde, conheci os movimentos sindicais. Assisti - porque não dá para dizer que tenha participado – não apenas os movimentos de patrões (produtores rurais), como também de servidores públicos. Em ambos, conversa e mais conversa, reuniões e mais reuniões, contatos e mais contatos, com políticos, administradores e demais pessoas que detêm parcela do poder. Assisti sempre pensando a mesma coisa: tudo inútil.
O tempo passou, passou e passou, e comecei a meditar melhor sobre o poder da palavra. Por muitos anos estive enganado. O poder dessas conversas, desses encontros e reuniões, dessas mensagens e contatos com aqueles que detém parte do poder do Estado é enorme. Fantástico efetivamente. A palavra move o homem, sua organização, o mundo. As palavras transportam as idéias, as razões, os argumentos. Tomemos o Congresso Nacional, por exemplo. Boa parte daqueles políticos vota, decidindo os rumos da nação, por dinheiro, cargos ou poder. Outra parte vota de acordo com seus ideais, ou melhor, com aquilo que acredita que seja o mais justo, correto e melhor para todos. Mas, note-se, mesmo aqueles, quando não estão em jogo seus interesses particulares, votam como estes últimos. Então, de uma forma ou outra, nesse jogo entram as idéias. Aquelas que são transmitidas através do diálogo, da palavra. As palavras, articuladas, constituem argumentação que sensibiliza os valores éticos daquele que escuta e fazem com que ele faça, na medida em que as assimila, um juízo de valor sobre elas. Ou ele concorda ou discorda. Se concordar, tem-se ali um projeto de voto em favor de sua posição. Assim são feitas as leis. Elas originam-se, em última análise, de idéias e dos valores que elas trazem embutidos.
Então, conversar, trocar palavras, reunir-se, todos esses tipos de ações que têm por fim passar adiante uma idéia, produzem resultados. É a maneira mais eficiente de influir no exercício do poder e no rumo dos povos.
E isso nos leva a essa última guerra que foi feita pelos EUA contra o Iraque. O discurso, a movimentação pré-guerra deixou toda a humanidade em alerta, com receio, com medo, a bem dizer. Quando iniciou o ataque, quase unanimidade das nações foi contrária. Mas, observe-se, a violência maior não foi as bombas jogadas sobre os alvos iraquianas. Foi o discurso de ataque e a prepotência que o acompanhava, as palavras, a ideologia do ataque. As bombas que caíram sobre o Iraque mataram algumas centenas de iraquianos. Não foi uma guerra de muitos mortos. Morrem mais brasileiros em poucos meses em nosso trânsito caótico do que morreram iraquianos na guerra. Mas mesmo assim, mesmo com um número não tão significativo de mortes, a guerra foi extremamente violenta. E por quê? Porque foi uma guerra de idéias. O que mais atemorizou a todos não foram as bombas, mas sim foram as palavras, as idéias, o discurso, a ideologia pregada pelos governantes norte-americanos, especialmente pelo Bush. A auto-concessão do direito de intervir em qualquer nação, mesmo contra a avença das nações, representada pela ONU. Vale dizer, uma nação se outorga o direito de atacar outras, de jogar bombas sobre suas cidades, mesmo com a oposição das demais nações. É o poder total de destruir quem quer que seja. E neste quem quer que seja estamos nós, também.
Então o que se tem é que efetivamente cada vez mais se destrói através de idéias, não de bombas. E a recíproca é verdadeira. Cada vez mais poderemos construir com palavras. Cada vez mais o poder da palavra (da idéia), com vistas à construção será maior. E assim, rumaremos para um tempo em que não será a força física que dominará, que agirá, que determinará, mas sim, exclusivamente, a força do pensamento. Estaremos rumando a um mundo melhor.
Somente boas idéias são capazes de vencer a ignorância e a prepotência.
Pau de Vento
Pessoas que
falam bem são pessoas que pensam bem.
Mederianas
Fernando é uma dessas pessoas cuja presença faz bem a qualquer um, pois faz parte daquele grupo restrito que é capaz de nos passar a esperança de que é possível viver com tranqüilidade mesmo com muito pouco dinheiro.
De quando em quando, o Minhoca aparece. O Minhoca é o apelido dessa figura chamada Fernando Snizek Ahrons. Conheço-o há muitos anos. Morávamos no mesmo bairro e muito surfamos juntos por esse litoral afora. Figura especialíssima. Faz o tipo "vive de rendas". Apenas o tipo, já que lhe faltam as rendas. Faz um servicinho de eletrônica aqui, outro de pintura ali, um de marcinaria mais adiante, ganha uns trocados e com eles vive algumas boas semanas de papo para o ar. Hora em Torres, em sua casa no Passo, hora em Porto Alegre, hora em qualquer lugar que tenha cama e boa comida. Bom de copo, não nega uma gelada ou mesmo uma pura. Sua maior paixão são mulheres. Disse... mulheres. Uma mulher, não. Jamais! Uma apenas é um perigo. Mais de 30 anos, nem pensar, "velhas" demais, diz ele, do alto de seus quarenta e tantos anos. "O maior defeito que uma mulher pode me apresentar é querer casar comigo". A idéia de casamento lhe assusta. É uma afronta a seu modo completamente livre e desimpedido de viver. Dono de um amplíssimo conhecimento adquirido por conta própria, que vai desde botânica, passando por jardinagem, peixes, pescarias, astronomia, ventos, medicina, curandeirismo, física, astronomia, climatologia, engenharia mecânica, elétrica e civil, etc.. etc.., sendo mais de 90% completamente inútil. É um manancial de cultura e conhecimentos aleatórios sem grande utilidade prática. Mas por isso mesmo é um excelente papo e ótima companheiro.
Dia desses, apareceu. Dessa vez, vinha da serra gaúcha, onde, em Canela, estava cuidando de um hotel. Convidei para uma velejada. Foi comigo e se apaixonou. Percebi logo que ele levava muito jeito para a coisa e com um grande "mérito": não tem a menor noção do perigo. De fato, parceiro de vela, melhores são aqueles dotados de coragem. O medo atrapalha qualquer navegação e o que é pior, pode contagiar. Comentei a ele, vendo sua alegria ao velejar debaixo de nuvens carregadas na entrada de um temporal: "Não tens noção do perigo". E de lá para cá ele nunca mais deixou de comentar: "Ele não tem noção do perigo...", referindo-se ludicamente a si próprio.
O Minhoca ia ficar uns dias por Porto Alegre, e encarreguei-o de colocar a parte elétrica do barco em dia. Luzes de navegação, luzes do mastro, luz interna e instalação de um rádio para ouvir músicas.
Foi num dia de Outubro/2003 que saímos após o almoço. Ventos muito fortes. Algo em torno de 35 nós, com rajadas de 40. Saímos do clube apenas com a vela de temporal na proa (tormentin) e a vela principal rizada. Mesmo assim, com muito pouco pano, o barco adernava bastante. O vento era Sul. Saímos em orça com o objetivo de alcançar a Lagoa dos Patos. Estávamos dispostos a visitar os tais ondões da Lagoa em dia de vento Sul forte. Na primeira perna, atingimos o outro lado do rio, na altura da Ponta da Figueira. Na segunda perna de orça, alcançamos a Ponta Grossa, oportunidade em que vimos ondas de aproximados dois metros (da cava à crista), que quebravam sobre o convés do barco e nos molhavam completamente. Na terceira perna, fomos dar ao sul da Fazenda Borguetti. Na quarta, aproximando-se da Ilha Chico Manoel, chegou a noite. Mau deu para passar o estreito entre a Chico e o continente, e o Minhoca, que estava no timão, me comunica como se nada tivesse acontecido: quebrou o leme. Me falou de forma tão calma que não consegui me convencer. Tive de indagar duas vezes até conseguir digerir aquela notícia: quebrou o suporte do leme e estávamos sem direção. A calma dele tinha dupla razão: não tinha noção do que representava quebrar o leme naquela situação (com vento forte no sentido de uma margem bem próxima, composta de pedras e funda) e, não tinha mesmo - e nunca teve - "noção de perigo". Saltei para fora da cabine, fui de quatro me agarrando onde podia até a proa (o barco, pequeno, balançava muito com as ondas: andar de pé nele seria uma temeridade) e o mais rápido que pude, joguei a âncora no rio. Se demorasse mais alguns poucos minutos, teríamos batido nas pedras da margem. Com certeza, nada sobraria do casco. Não chegamos a correr qualquer risco. No máximo, nos escapamos de nos ver encharcados, com muito frio, tendo que caminhar uns bons quilômetros por uma mata escura até encontrar abrigo na cidade de Belém Novo. Com ventos fortes, nunca chegar perto demais da costa - ficou o registro. Cabo da âncora sempre livre para o caso de uma aterragem de emergência - mais uma vez registrado.
A questão que se colocou a seguir era se deveríamos dormir ali, muito
desconfortavelmente,
pois
o barco pulava com as ondas, ou se tentaríamos sair com o motor, já que era
impossível
consertar o suporte do leme com aquele sacolejar. Optamos por sair a motor. Foi
muito difícil de manter a direção com aqueles ventos e ondas
sem o leme. O barco atravessava quando descia as ondas. Mas
atingimos a Ilha Chico Manoel em seu lado Norte, onde ficamos
protegidos das ondas e dos ventos. Amarramos o barco no trapiche.
A Ilha Chico Manoel pertence ao Clube Veleiros do Sul. O Veleiros mantém uma sede na ilha com um caseiro. Quem não é sócio só pode descer na Ilha com convite previamente obtido na Secretaria do Clube. Salvo num caso como o nosso, uma emergência. O cansaço era grande e dormimos em seguida.
Eram umas nove da manhã quando acordamos. Após tomar um café, resolvi desbravar a Ilha. Fui pelo lado sul, margeando o rio por uma trilha. Uma bela e rústica ponte no caminho. Fui dar no lado sudoeste. Há uma praia lá. Havia um urubú planando em cima de minha cabeça, aproveitando o vento ascendente que batia nas copas das árvores junto à praia. Fiquei admirando seu vôo perfeito. O formato de suas asas. As mesmas razões que fazem aquela ave planar são as que fazem os veleiros navegar. Uma diferença de pressão entre os dois lados da asa (e da vela). No caminho de volta, acabei por pegar uma trilha errada. Percebi o erro quando notei que estava se tornando íngreme demais. Ao que tudo indica, é uma trilha que corta a ilha ao meio, por cima do morro (depois fiquei sabendo que havia umas quatro ou cinco trilhas). Aclividade demais para meus cento e tantos quilos montados na minha carcaça de quarenta e tantos anos, retornei e terminei por encontrar a trilha original.

Minhoca, a exemplo da alguns nativos da Polinésia, é avesso a fotografias, já que crê que elas podem roubar a alma.
Aos quarenta e tantos é sábio impor limites ao esforço físico. O cuidado com o corpo e o conhecimento de suas limitações vai, com a idade, chegando. Tenho um conhecido japonês que me contou que no Japão, quando um homem completa 44 anos, há uma grande comemoração. É porque as idades de 41, 42 e 43 anos são reconhecidas pelos japoneses como muito perigosas. Dizem que quem ultrapassa essa fase, está pronto para viver até os 60 anos ou mais. Eles têm razão. É uma idade muito propícia para o infarto e acidentes vários.
Cheguei ao barco. Com o auxílio de alguns cabos de nylon inseridos dentro do cano que esgota a água do cockpit, fabricamos um novo suporte inferior do leme (feitos de cabos de nylon). Fiquei orgulhoso de minha original criação. Com vento forte e pouco pano, retornamos, cautelosamente, ao clube.
Pequenos Prazeres
É
muita ambição querer ser feliz! Por que não contentar-se com uma razoável
infelicidade? Aquele que encontra satisfação em ser razoavelmente infeliz é,
muitas vezes, menos infeliz do que o que persiste numa busca tola e sem fim da felicidade.
Mederianas
Há muitas coisas que gosto em um barco. Enumero algumas:
- o balanço do barco sob os pés;
- o barulho das adriças batendo nos mastros de barcos amarrados a trapiches;
- o assobio do vento forte passando pelo mastro, stays e velas;
- a esteira que o barco deixa para trás na água;
- a inclinação do barco na orça;
- a onda varrendo o convés;
- uma siesta dentro da cabine;
- surfar ondas com o barco;
- café com leite quente sem açúcar seguido de um cigarro;
- o silêncio (e os sons) da natureza;
- a distância de tudo e de todos quando em solitário;
- a interação com a natureza em solitário
- deitar na proa com o barco navegando;
- deitar na proa apenas de calção ou nu em uma noite quente tendo por teto um céu cheio de estrelas;
- escrever na cabine com o barco navegando;
- soltar as amarras do trapiche e partir;
- sentar em uma cadeira colocada na proa com o barco navegando em uma noite de lua cheia, visualizando o reflexo do luar nas águas.
Convite Aceito
Como eu, o Minhoca conhece bem a costa do mar gaúcho. Convidou e insistiu em uma velejada de Porto Alegre até Florianópolis, a bordo do Tchê. Sem a menor dúvida, o Minhoca é o melhor parceiro que posso encontrar para uma empreitada desse tipo. Sua segurança me passa segurança. Convite aceito. Faltam alguns - não poucos - preparativos em termos de equipamentos, e agendar uma data. Por ele, partiríamos ontem. Por mim, possivelmente, dentro dos próximos dois ou quatro anos. Com certeza, seremos recebidos em Floripa pela fiscalização da Marinha do Brasil.
Deuses, Determinismo Cosmológico. Infinito e outras Conseqüências da Mente Desocupada ou Eram os Deuses Astronautas.
1o.
– o Universo é infinito
2o.
– em um Universo infinito as chances são também infinitas
3o. -
onde as chances são infinitas todas as possibilidades de existir existem
realmente
4o. - Deus é uma possibilidade de existência. Deus existe realmente (pois que as chances de sua existência em um Universo infinito são infinitas)
Mederianas
Somente as pessoas que não me levam a sério são capazes de me entender. O verdadeiro velejador não tem compromisso com sua rota. Veleja apenas, pouco importando o rumo. Não busca objetivos definidos, concretos. Não tem conquistas a fazer. Não está competindo. Nada precisa provar. As idéias não são valiosas por serem verdadeiras ou não, são valiosas por serem idéias. Por pertencerem, por conseqüência, ao infinito mundo das possibilidades. Dentre os homens, a função de alguns é descortinar possibilidades. O rumo não lhes pertence. O leme não lhes interessa. Do rumo, proprietária é a humanidade.
É difícil de encontrar homens totalmente despidos de religiosidade. Cada um a sua maneira, uns com mais intensidade e outros com menos, traz dentro de si a religiosidade. Entenda-se aqui, por religiosidade um conjunto de dogmas que é utilizado para dar uma "forma" à espiritualidade.
O que é Deus? O pai de Cristo? É Alá? É o conhecimento universal, ou seja, a Verdade? É a reunião de todos os Eus que povoam o Universo?
Como não podia fugir à regra geral, acabei por construir uma doutrina.
O espírito não pode ser ouvido, não pode ser visto, não pode ser cheirado, não pode ser tocado e não tem gosto. Dito em outros termos, nossos cinco sentidos não são capazes de percebê-lo. A ciência e todo o positivismo que tomou conta do século passado e que só arrefeceu em suas últimas décadas diz: se não percebo, se não vejo, se não identifico, se não toco, é porque não existe.
Mas o espírito existe, é claro. O conhecimento de sua existência é intuitivo
para a grande maioria das pessoas. Diz-se, sem razão, que o espírito não é
matéria. O espírito é matéria (ou matéria desconcentrada = energia). Uma
espécie de matéria que não conseguimos, por enquanto, ver, perceber, sentir,
tocar, ouvir. Nem com os mais sofisticados equipamentos modernos de ver, ouvir,
escutar, conseguimos identificar o espírito. Por isso, costumamos afirmar
que,
o espírito pertence a outro mundo, a outra dimensão. Talvez. Um mundo, uma
dimensão, uma matéria, uma energia, que, por enquanto, não está ao nosso
alcance.
Portanto, o espírito é algo material. Apenas se trata de matéria que não conseguimos - na atual fase de nosso desenvolvimento científico - "tocar" ou "ver". Haverá o dia que o isolaremos, identificando-o.
Por enquanto, resta-nos intuí-lo, construindo doutrinas (religiões) a seu respeito ou adotando as já existentes, tais como judaismo, islamismo, cristianimo.
Cumpre notar que todas as religiões - pelo menos as que encontraram um número significativo de adeptos - dizem mais ou menos a mesma coisa. Falam de amar o próximo, de amar a Deus, de praticar o bem, de conseqüências ruins que sucedem à prática do mal, do aperfeiçoamento individual... coincidência? Claro que não. É que o substrato real (espiritual) sobre o qual essas religiões e dogmas são criados é o mesmo. É aquele que existe, que não "vemos" e que tentamos desvendar através de religiões.
Se o espírito, enquanto matéria - como o definimos - , encontra-se no Universo, dentro do Mundo, fazendo parte desse Mundo, estão o que o compõe são os mesmos elementos que compõe o Universo. De Universo especula-se muito, mas sabe-se efetivamente pouco. Do que se sabe, tem-se a existência de um momento inicial onde toda a energia está concentrada em uma partícula trilhões de vezes menor que um elétron. E face à enorme concentração de energia, há uma explosão, e o Universo se expande. Se expande em rumo de seu esfriamento. A energia concentrada vai transformando-se em matéria, em matéria fria. Uma vez disperso todo o Universo, sem vida, com energia mínima, congelado, ele volta a se contrair, até chegar novamente àquela partícula infinitamente pequena e repleta de energia, para novamente explodir. Dentre todas as teorias que tentam explicar o Universo, esta é uma que menos tem encontrado contestação.
Nesse momento vivemos numa parte do Universo em expansão. O Universo cresce, alimentado por sua energia. A maior parte dele está nesse movimento de ida, de expansão, no rumo da transformação de toda energia em matéria. Outras partes (e o Universo não caminha todo ele junto na mesma direção) estão já no caminho de volta, da retração, da transformação da matéria em energia. Tem-se, logo, dois grandes movimentos no Universo. O da expansão e o da retração. Na expansão, o Universos cresce, e seus seres (astros) ganham cada vez mais distância uns dos outros. Na retração, os astros se aproximam, se unem em rumo da união total em uma única e mínima partícula.
Sendo o espírito matéria composta por esse Universo, seus movimentos não podem ser diferentes. Alguns espíritos estão indo (expansão) e outros estão voltando (retração).
O próprio cérebro dos animais e também do ser humano não poderia funcionar de maneira diferente, pois é composto pela matéria do Universo, ao qual pertence. Todo esse nosso corpo, toda essa nossa mente é constituída por essa energia/matéria que forma o Mundo. Como poderíamos estar nos movimentando alheios ao Mundo se dele fazemos parte e somos parte?!
Então, perceba-se, quais são as principais emoções que governam a humanidade? É básico: amor, ódio e medo.
Mas há um equívoco grave nessa tripartição da emoção. Na verdade, ela é
bipartida apenas: o amor de um lado, o ódio e o medo do outro lado. É que ódio e medo são reflexos de
uma mesma realidade: a aversão.
De um lado temos, então o amor, e do outro, a aversão. O amor une e a aversão desune. O amor junta, aglutina, reúne, e a aversão separa, distancia. São duas forças: uma que atrai e outra que expande. Idêntico ao que sucede no Universo...
Fazendo um parênteses, volta-se ao medo e a raiva como sendo em última análise conseqüências reativas de uma mesma causa, a aversão. Tanto no medo como no ódio, o que se deseja é a distância do objeto causador dessas sensações. No medo, não nos vendo em condições de destruir (munidos de ódio) o objeto, nós nos distanciamos dele. No ódio, destruímos o objeto que provoca aversão, e a destruição nada mais é do que a maneira mais eficaz de nos distanciarmos de algo para sempre. Daí porque, tanto num caso como no outro, o objetivo final é distanciar-se, é desunir, é tomar o rumo da expansão universal.
Esse movimento do homem de unir/desunir pode ser visto a cores nos primórdios. Basicamente, a que se limitava o agir do homem nos primeiros tempos? A rumar em direção aos alimentos, ao sexo oposto, aos companheiros, à tribo, ao abrigo, e distanciar-se (agredindo e eliminando ou fugindo) dos animais perigosos, das inundações, das tempestades. Amor levando-o para um lado e aversão (medo e ódio) levando-o para o lado oposto.
E se olharmos com esses nossos olhos para o Universo, veremos duas grandes forças agindo. Essas forças chamam-se Magnetismo. Astros atraem por força gravitacional outros astros (união) e, o movimento circular, que resulta da força atrativa aliada à inércia, provoca a força centrípeta que afasta astros de astros.
É um mundo de movimentos e forças contrapostas!!
O próprio tempo não existe no Universo. Sequer é uma dimensão. Não passa de uma criação, ou melhor, de uma percepção da consciência humana. O tempo é apenas uma relação entre dois movimentos diferentes. Uma hora, por exemplo, é 1/24 o movimento rotatório do planeta Terra visto em relação a qualquer outro movimento astronômico. Para caminhar de minha casa ao parque, leva uma hora. Esse meu movimento se dá no mesmo compasso com que o planeta gira 1/24 sobre seu próprio eixo. Existem dois movimentos relacionados entre si. Não existe o tempo. O tempo é criação da mente. No Universo, só o que se tem são movimentos, uns vistos em relação aos outros. O tempo existe porque existem a razão e a consciência. Subtraia-se a consciência do Universo e restará apenas o movimento dos astros e o fluir de energia. O tempo é criação da consciência.
É conhecimento elementar que toda a amplitude do mundo não está a nosso alcance. Isso em razão de nossas limitações sensoriais. Temos cinco sentidos e com eles vemos o Mundo. Mas esse mundo que vemos não é o mundo real, é apenas o mundo que nós vemos, dado à nossa limitação sensorial. O Universo olfativo de um tubarão é muito diferente e maior do que o nosso. O auditivo de um cão é diferente e mais amplo que o nosso. Se fossemos todos surdos, barulhos não existiriam? Se fossemos todos cegos, as imagens não existiriam? Existem apenas cinco sentidos possíveis ou existem outros sentidos que não conhecemos? Outros seres (e é uma ignorância completa e absoluta negar a existência de outros seres no Universo) não podem ter outros sentidos? Tudo o que não percebemos existe realmente, apenas não percebemos. Estão em outra dimensão. Uma dimensão que não está, por enquanto, ao nosso alcance.
O espírito - algo que existe materialmente - está lá. Em outra dimensão. Inatingível aos nossos sentidos.
Todavia, com certeza, o espírito, fazendo parte do Universo e estando conectado ao Homem, tem os mesmos movimentos do homem e do Universo. Ele transita nos rumos do atração-expansão. Amor-desamor.
O destino da Homem é o Amor. Todas as religiões dizem isso porque intuem isso. E todas intuem isso porque há um substrato real, embora não esteja ao alcance de nosso conhecimento científico.
O Homem que ruma em direção à União, à atração, está no rumo do Amor. Se coloca no mesmo rumo do Universo.
O Homem que ruma em direção à desunião, à repulsão, está no rumo do desamor. Se coloca no rumo contrário ao rumo último do Universo, que é o retorno à partícula infinitamente pequena, que a tudo une, porque a tudo atrai.
Em todas as religiões o amor leva ao "céu", a Deus. É o conhecimento intuitivo de que o melhor caminho a ser tomado pela humanidade é o caminho da comunhão de uns com os outros. A própria doutrina espírita, a sua maneira, prega o mesmo: o espírito, na medida em que pratica o bem e age em prol do próximo, evolui, reencarnando-se, até o momento em que, tão próximo a Deus, à perfeição, ao início do Universo, não precisa mais reencarnar-se. Não mais materializa-se, torna-se luz daí para frente, energia apenas (e aqui a coincidência com a realidade astronômica universal impressiona).
De certa feita li um poema, um estória, sei lá o que, que o qual tratava de um barco. Esse barco não sabia para onde rumar, batia-se contra as ondas, adernava violentamente para um lado e para outro. Até o momento em que as velas foram colocadas na posição correta e o barco também. Em uma posição favorável em relação aos ventos e às correntes, e o barco pára de debater-se e desliza suavemente no rumo proposto pela Natureza, ventos e correntes.
Algo muito semelhante ocorre com o Homem. Ele precisa encontrar o seu caminho. Com certeza seu caminho está no rumo do amor, da união, do auxílio mútuo, da compaixão, da solidariedade, da amizade. O homem que se coloca contra isso tudo, coloca-se contra o Universo, e por ele é machucado severamente. O homem que levanta suas velas no rumo do amor, coloca-se no rumo universal, e daí dizer-se e perceber-se, que o Universo passa a conspirar em seu favor.
Precisamos descobrir porque e a que viemos. Os caminhos certos não são tão claros, são tortuosos, mas existem os sinais. Precisamos aprender a perceber os sinais e cumprir nossa tarefa por aqui. Somente assim cresceremos e seremos felizes. Somente assim andaremos de mãos dadas com o Universo.
É tudo isso Verdade? Creio em tudo isso?
São apenas possibilidades, meu amigo. Não me leve a sério. Não tenho maiores compromissos com minhas idéias. Não me apodero delas. Não luto por muitas delas. Apenas me apraz ter idéias. Divagar sem muito sentido enquanto navego. Não sou bruxo nem profeta e tampouco pretendo me tornar um. Embora esse seja um negócio e um empreendimento tentador, não tenho aptidão para negócios. As idéias... elas estão aí. Julgue como preferir.
Recordo de quando eu tinha por volta de 12 ou 13 anos, no Colégio Anchieta, o professor de Religião, um padre, mandou a turma fazer um tema de casa com a seguinte proposição: o que é o Céu e o que é o Inferno?
Escrevi um longo texto, fundamentado, em quatro ou cinco laudas - recordo que tinha especial aptidão para a palavra escrita -, no qual concluía que o Céu e o Inferno são o grau de satisfação (ou insatisfação) que levamos da vida ao darmos nosso último suspiro. Quando partimos, levamos daqui a vida que levamos.
Esse Padre - que deve ter gostado e se identificado com minhas conclusões - ficou por muito tempo insistindo em me afirmar que não havia sido eu que tinha escrito aquele texto. Dizia que aquele texto não poderia ter partido de uma criança. Recordo que na época essa sua crença me deixou muito chateado. Tão revoltado que no próximo tema que ele determinou que fizéssemos, fugi da questão central e escrevi mais de dez laudas explicando as diversas razões de porque era ateu. A leitura deve lhe ter feito muito mal!
De qualquer maneira, abro mão de meu distanciamento para deixar o registro de que continuo acreditando em parte daquela infante conclusão. Mas, só em parte.
Essas questões todas levam a outras que dizem respeito aos significados de realidade, verdade, aparência, convicção, fé, certeza, probabilidades. São temas interessantes. Abordarei em outra oportunidade. Apenas adianto que jamais nos devemos deixar levar por 100% de certeza em qualquer assunto. Há de se conceder sempre uma margem para a incerteza. De convictos e fanáticos os sanatórios estão repletos. Mantenha sempre a certeza da dúvida.
O Espírito do Pobre Bagre Assassinado
Domingo de Carnaval. Cidade de Porto Alegre maravilhosamente vazia. Foram todos embora. Bom seria que não voltassem. Vou ao clube. Mulher, gurias, o Pedro e seu novo amigo, o Buiú. O Buiú é um garoto muito simpático, alegre e vivo. Tem 14 anos, dois a mais que o Pedro. Conheceram-se através do Lipe, meu sobrinho, e os três estudam no Colégio Bom Conselho.
Almoçamos, e a seguir, os guris têm a idéia de pescar. Vou com eles até o barco. Ensino como se coloca o anzol e o chumbo na linha e como que se atira a linha. Vou deitar dentro do barco. Antes, digo a eles que duvido que consigam pegar um peixe.
Acordo com gritos. Pegaram um peixe. Estão pulando de alegria em cima do convés., Dou uma espiada no peixe sem sair de minha cama... um lambari. Explico a eles que podem tirar o lambari com a mão do anzol, porque esse pequeno peixe não tem ferrão nem morde. E volto ao sono. Gritos de novo. Mais um peixe. Um bagre criado. Um palmo de comprimento. Explico que tirem o peixe utilizando um alicate e que tenham muito cuidado com o ferrão. Volto ao sono.
São umas 18 horas, tardinha, quando acordo de vez. Dou uma olhada no pinico no convés, onde se encontram os dois peixes. O bagre está morto. Minhas duas filhas chegam e olham os peixes. Reclamam pela liberdade do pequeno lambari. Eu jogo o lambari de volta à água e digo a elas para guardarem segredo. Pergunto aos dois pivetes o que houve com o bagre. Me contam que atravessaram a barriga dele com um estilete e que também deram com o skate na cabeça do coitado. "Então vocês assassinaram o pobre bagre", comentei. Sugeri a eles que fritassem o peixe. Minha mulher chegou e intercedeu dizendo que não ia levar aquele peixe morto dentro do carro. Decidiram por jogar o corpo de volta à água. Voltando para casa, lhes adverti que o espírito do bagre ia aparecer a noite quando eles estivessem dormindo para enfiar o ferrão nos pés deles. Contei-lhes que isso sempre acontece quando o peixe que é pescado não é devolvido à água ou comido. Riram à beça. Mas tenho certeza de que na noite que se seguiu, devem ter se preocupado com a visita do espírito do pobre bagre cruelmente assassinado.
O Furacão Catarina
Os
primeiros doze meses do ano são os últimos.
Pedro - filho do autor das Mederianas
Enquanto o Furacão Catarina passava pelo litoral catarinense, fazendo estragos e vítimas, estava dentro do barco instalando o armário que recém construíra. Coube com perfeição no espaço que havia reservado para ele. No armário, embuti a televisão, o rádio AM/FM, o carregador de bateria e o voltímetro, e ainda sobraram cinco compartimentos com tampa e trinqueta e dois com fechadura. Vou construir outro armário desses para colocar a bombordo. O barco é pequeno e por isso preciso de armários para melhor organizar tudo. Já tirei também as medidas para construir uma mesa que poderá ser armada com facilidade sempre que necessário (para comer, escrever, jogar cartas, fazer a navegação na carta náutica).
À noite, vi na televisão notícias do Catarina. É a primeira vez que temos um Furacão no Brasil. Se continuarem poluindo a atmosfera do jeito que estão, é a primeira de uma série. Uma seca no Rio Grande do Sul como não se via há muitos anos, o Guaíba baixíssimo e com suas águas em tom verde nunca antes visto, em função da proliferação de algas. Se vierem por aí os Últimos Dias, um bom local para se refugiar será o mar, onde ainda haverá alimentos. É... é bom ir ajeitando a canoa.
Escolas de Vela ou de Pilotos?
Nenhum homem, creio, pode ficar constantemente
ao leme para dar a volta ao mundo. Fiz melhor do que isso: fiquei sentado lendo
meus livros, remendei minhas roupas, preparei minhas refeições e comi-as em
paz.
Joshua Slocum - Sozinho ao redor do mundo
Estive conversando com um antigo e experiente velejador e ele me passou o dado
de que apenas 10% dos garotos que saem do Optimist aos 15 anos prosseguem na
vela.
Penso que deveria ser dado um novo enfoque às Escolas de Vela
e às flotilhas de Optimist, quando se trata de preparar crianças.
Quando era
pequeno
e velejava em barcos chamados "Piranhas",
não tínhamos treinador. Nem aprendíamos a velejar em Escolas de Vela. Não havia
Escolas naquela época. Também não existiam flotilhas para pequenos velejadores.
Chegávamos no Clube e íamos todos navegar. Fazíamos as mais diversas
brincadeiras, passeios e, inclusive, pequenas e rápidas simulações de regata.
Tudo por conta própria.
Hoje, o que se verifica nas flotilhas de Optimist, o barco das crianças, é que,
quando, por uma razão qualquer, o treinador não aparece no dia do treino, as
crianças não montam seus barcos nem entram na água. Parece que elas ficaram
dependentes do treinador. Parece que velejar por velejar sem muito
sentido não possui qualquer sentido para elas.
Pelo que tenho observado, os treinos dessas flotilhas são treinos para vencer
regatas. E não muito mais que isso.
Fico a me indagar se não seria melhor um "treinamento" em que os enfoques
principais fossem a diversão, o lazer e a formação de marinheiros, e não a
formação de pilotos de barcos, ou melhor dizendo, timoneiros, regatistas,
competidores. Sei que nas flotilhas, alguns pais querem que seus filhos vençam
as regatas. Mas sei também que há outros tantos, que acredito sejam a maioria,
que não se importam com a colocação de seus filhos. Querem, sim, que
eles formem sua personalidade de maneira sadia, tomem gosto pela vela e
recepcionem esse esporte/hobby como algo que
possam curtir para o resto de suas vidas.
Penso que deveria haver um redirecionamento do treinamento nas flotilhas da
classe Optimist. Passaria a ser muito mais voltado para a formação integral de
marinheiros do que exercícios técnicos para vencer regatas. A gurizada faria
passeios, acampamentos, aprenderiam a consertar cascos de barcos,
a costurar velas, a construir pequenos veleiros. Em algumas ocasiões - ou muitas
-, o treinador poderia ficar na beira da praia apenas olhando (e cuidando) os
meninos (as) se divertindo sozinhos com seus barcos. Dentro dessa política
lúdica, poderiam ser feitas pequenas regatas-treino, algumas
largadas-treino, ou seja, as técnicas iam sendo transmitidas naturalmente, sem
necessidade de empurrá-las goela abaixo. E dias de treino não precisariam ser
necessariamente dias de vela. Poderiam ser dias de futebol, vôlei e até - por
que não?! - pescaria. O que importa é que sejam dias felizes. Dias que marcarão
os corações dessas crianças a ferro e fogo com a paixão pela Vela para o resto
de suas vidas.
Um País como o Brasil, com uma costa vasta, com muitas cidades no litoral,
deveria ter muito mais velejadores.
A Vela num país dessas condições deveria ser um dos esportes da preferência
nacional. Mas não é. Costuma-se dizer que a razão disso é a falta de poder
econômico de nosso povo. Não posso concordar com essa justificativa. Há muitas
maneiras de praticar Vela, assim como há várias maneiras de jogar futebol. Dá
para jogar futebol uniformizado, com chuteiras Nike, bola Oficial Penalty, em
campo coberto e de grama artificial. Assim como dá para jogar futebol de
ceroulas, em terreno baldio, com os pés no chão e bola feita com meia de
mulher cheia de jornal amassado. Nesse País,
joga-se futebol caro e futebol barato. Entretanto,
só se pratica Vela cara.
E qual a razão de não praticarmos Vela barata? A primeira é que não formamos marinheiros (desde criança) para amar a Vela. Formamos pilotos para a Fórmula 1. Formamos garotos para vencer. Se não vencem, não estão no caminho certo. Não é para menos que 90% das crianças abandonam a vela. Logo ali adiante, a grande maioria descobre que não consegue tirar o PRIMEIRO lugar. Claro que não podem descobrir coisa diferente. O primeiro, o segundo e o consolador terceiro lugar só podem ser ocupado por três velejadores!
Precisamos formar marinheiros. Precisamos formar crianças com amor à Vela, não competidores apenas. Precisamos de crianças-velejadoras que saibam consertar um leme, que saibam costurar uma vela, que saibam manter e cuidar de um barco, e não, de pilotos, que a qualquer avaria no barco saem correndo a seus pais para levá-los à loja de Vela mais próxima para comprar material novo e preferencialmente importado.
Em aeromodelismo, costuma-se dizer que existem pilotos de aeromodelos e aeromodelistas. O nome aeromodelista é reservado para aqueles que além de pilotar, sabem construir, consertar, criar e modificar aeromodelos. Pilotos, tudo que sabem é pilotar. Aeromodelistas projetam aeromodelos, constroem, estudam aerodinâmica, informam-se sobre conhecimentos básicos de mecânica de motores e eletrônica. Costuma-se afirmar nesse meio que pilotos aparecem, voam, passam e desaparecem no horizonte e que o aeromodelista não: uma vez aeromodelista, sempre aeromodelista.
Tenho a firme convicção de que se passarmos a nos preocupar menos com a colocação dos pitocos nas regatas e nos concentrarmos mais em transmitir-lhes a paixão pela Vela, ensinando-lhes construção de barcos, dinâmica dos barcos e velas, fabricação e conserto, idéias básicas astronomia, navegação estimada, eles renderão frutos no curto prazo, propiciando uma maior divulgação e crescimento do esporte.
Os conceitos e princípios passados a essas crianças nas flotilhas são equivocados. Para vencer uma regata, ou melhor, para posicionarem-se entre os primeiros, necessitam de um barco Optimist que custa no mínimo uns U$ 800,00 dólares. Precisam de velas que não saem por menos de U$ 300 dólares. Todo o material acessório tem de ser de primeira linha e de preferência importado. Ou seja, ensina-se, desde cedo, esses meninos, a tornarem-se implacáveis consumidores.
De certa vez, indaguei a uma pessoa do meio da Vela do motivo pelo qual no Brasil não se fabricava um barco mais barato para a criançada. A resposta veio pronta: porque com esse barco os atletas não poderiam participar de competições internacionais.
Fodam-se as competições internacionais!! Quantos dos 1000 velejadores brasileiros com menos de 15 anos vão anualmente participar de competições internacionais?! Não sei ao certo, mas asseguro que mal passam de uma dúzia.
Não temos veleiros brasileiros para crianças porque o brasileiro, em geral, não sabe nem projetar nem construir barcos. Porque os velejadores adultos passam aos pequenos os mesmos preconceitos que lhes ensinaram. Porque toda a nossa cultura da Vela está equivocada. Nossa Vela é elitista, preconceituosa, babaca e burra. Nos Clubes de Vela, é feio sair a velejar com uma Vela costurada. Deve-se comprar uma nova. É feio substituir ferragens por cabos de nylon. É feio fazer uma bolina para um Optimist mesmo que ela seja perfeita e tão boa quanto a original. É feio aparecer no Clube velejando com um barco projetado na sala de casa e construído no fundo do quintal. É dessa maneira que os adultos-velejadores são e pensam e é isso que transmitem aos mais novos.
É perfeitamente viável projetar e construir um barco parecido e com as mesmas dimensões do Optimist e que veleja tão bem quanto ou melhor (basta fazer uma proa digna de um barco) com menos de U$ 300 dólares. Compensado (não necessariamente naval se for impermeabilizado com epóxi), mastro feito com lâminas de madeiras coladas e sobrepostas, velas feitas de tergal ou algodão em vez de dracon, velas de temporal de encerado locomotiva, costuradas com fio de poliamida, cabos em vez de ferragens, tiras nas velas em vez de ilhoses e pegadores inox.
Nos dias que correm e do jeito em que está a nossa cultura vélica, apenas crianças que chegam entre os primeiros lugares em regatas aprendem a amar a vela. Porque o ensino da vela para essas crianças coloca como primordial vencer regatas. Do jeito que está, somente filhos da classe média alta tem condições de competir em regatas. Por isso, a Vela não cresce no Brasil. Não é a Vela que é cara, é nossa mentalidade é que é pobre.
Então, de nada adiantaria, nessas condições, uma grande campanha de divulgação da Vela, se vier desacompanhada de uma mudança radical e completa de nossa cultura vélica. É preciso cambar 180º. Querem divulgar a Vela? Iniciem mudando seus próprios conceitos. Mudem completamente o enfoque do treinamento dos iniciantes. Vamos parar de tentar formar "timoneiros de provas" e sim, Marinheiros, com amor à Vela. Marinheiro não é aquele que sabe chegar mais rápido em uma bóia. Marinheiro é aquele que sabe prever o tempo, sabe se localizar quando navegando, sabe consertar um leme, fazer um leme de fortuna, consertar um casco, construir um barco. Marinheiro é aquele que sabe navegar, não necessariamente correndo e com pressa de chegar, mas calmamente, tranqüilamente, iluminado por estrelas, pelo valor de seus conhecimentos náuticos e por seu amor à Vela. Sabiamente ensinado.
A difícil, porém não impossível, arte de criar filhos
Tenho
procurado ensinar meus filhos a serem honestos. Faço não apenas por
convicção, mas também por razões de mercado. A oferta de
pessoas honestas é reduzidíssima. Qualquer pessoa,
nos dias de hoje, que se decida firmemente a ser honesta, tem o futuro
garantido.
Mederianas
Leia estas quatro frases:
1 - Nossa juventude adora o
luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais
velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando
uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus.
2 - Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de
hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada,
simplesmente horrível.
3 - Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais.O
fim do mundo não pode estar muito longe.
4 - Essa juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são
malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A
juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.
A primeira frase é de Sócrates (470-399 a.C.).
A segunda é de Hesíodo (720 a.C.).
A terceira é de um sacerdote (do ano 2000 a.C.).
E a quarta, que está escrita em um vaso de argila descoberto nas ruínas da
Babilônia (atual Bagdá), tem mais de 4000 anos de existência.
Quando se trata de lidar com crianças, são três as Escolas: a das companhias, a do exemplo e a dos limites.
Segundo a teoria das companhias, na criação dos filhos se deve ficar atento aos seus amigos, com quem eles andam. Desacredito totalmente nessa tese. Quando meninote, era o próprio exemplo de má companhia: pulava muros, invadia quintais de vizinhos, chutava latas de lixo, caçava passarinhos, maltratava gatos, estava sempre sujo, andava livremente por toda a cidade, a pé, de bicicleta ou na carona de bondes. Na adolescência, não fui menos pior. Era mulherengo, beberrão, boêmio e, no colégio, tendo o péssimo hábito de perturbar as aulas, com dizeres e atitudes inadequadas, sempre fiquei muito longe de ser o preferido de meus professores. Não obstante, diversos meninos e adolescentes que andaram em minha companhia em anos passados são nos dias de hoje excelentes pessoas, boas, dignas, de caráter, bons profissionais, médicos, advogados, juizes, engenheiros, empresário, etc... As companhias exercem muito pouca ou praticamente nenhuma influência sobre a formação do caráter e da personalidade dos indivíduos.
Paralela à teoria das companhias, há a tese do exemplo. Segundo ela, o que importa e o que exerce mais influência na criação dos filhos é o exemplo dos pais. Aqui também utilizo de meu próprio caso para não ter qualquer crença nessa tese. Meu filho mais velho é um indivíduo calmo, tranqüilo, bem educado, com excelentes maneiras. Ou seja, completamente diferente de mim. De nada lhe serviu meu péssimo exemplo de pessoa agitada, confusa, intranqüila, com hábitos e maneiras condenáveis. Ele puxou a ele próprio. Inclusive, costumo dizer a ele que sou um ótimo exemplo para não ser seguido. Filho, quando tiveres de decidir entre fazer uma coisa qualquer ou outra, pense no que eu faria, e faça o contrário. Tens em em teu pai um excelente exemplo. Embora somente útil às avessas.
Por fim, a Escola dos Limites (***). É impressionante como a psicologia, a pedagogia e as ciências humanas em geral estão sujeitas a modismos, ondas passageiras. De uns 10 anos para cá, difundiu-se a Escola dos Limites. Bem educar significa impor limites. Só colocando limites formaremos jovens aptos a enfrentar o futuro com responsabilidade e as tantas dificuldades que a vida oferece. Desde a mais simplória dona de casa, passando pelos mais reconhecidos profissionais de pedagogia e chegando até qualquer psicólogo de fim de linha, pregam todos a tese dos limites. É uma pregação unânime, aliás, como o são as burrices em geral. De todas as pedagogias, esta é a que mais prejuízo traz para as crianças. Ora, crianças não precisam de limites, ao contrário. Crianças são mentes que estão conhecendo o mundo, desbravando o universo, precisam justamente é de muita liberdade com vistas a favorecer um crescimento efetivo e ilimitado de sua racionalidade e espiritualidade. É uma terrível injustiça aplicar a pena dos limites àqueles cuja uma das principais funções é descobrir o mundo. Limitar a mente das crianças significa formar adultos medíocres, sem idéias e convicções próprias, sem crença em seus potenciais. Limitar crianças é interferir nas possibilidades de crescimento e evolução de nossa espécie. É a socialização precoce daqueles que têm sobretudo o direito de conhecer e descobrir a plena extensão de sua individualidade, para no futuro poder exercê-la. Com tantos adultos maus nesse mundo cruel, com tantos pais e mães chatos, intolerantes, irritadiços e neurastênicos nessa contemporaneidade apressada e doente, não é para menos que a pedagogia dos limites encontra tantos apóstolos. São tantos os adeptos quanto são os pais e mães que preferiam que seus filhos fossem seres inanimados ou que pudessem ser monitorados por controle remoto, preferencialmente com um dispositivo capaz de desligá-los, dando cabo de sua fantástica e preciosa energia dinâmica e criativa. Os pais do NÃO costumam ser pais castigadores. Nesse ponto, ao menos, poderiam ser um pouco mais criativos. Estabelecer um sistema de trocas em vez de penas. Se ajudar a lavar os pratos fica dispensado de ler dez páginas de conselhos e lições de vida da Lya Luft. Se tirar boas notas no mês dá para pegar um pouco mais pesado, dispensa da leitura de três entrevistas da Lya. Passar de ano, seis entrevistas.
Não acredito em doutrinas e dogmas quando se trata de criar os pequenos. Não acredito nos adultos que desenvolvem ou que dão ouvidos a tais verdades. Não acredito em pais que freqüentam cursos ou lêem livros de receitas para aprender a educar seus filhos. É só alguém me dizer que está freqüentando cursos ou palestras que ensinam a educar os filhos que minha desconfiança é imediatamente acionada. Não se aprende a educar filhos. Essa ciência é inata aos pais saudáveis. Pais saudáveis não carregam dúvidas quanto aos melhores meios para criação de seus filhos. Eles instintivamente têm a absoluta convicção, completamente inabalável, de que tudo que seus filhos precisam são apenas duas coisas: presença e afeto. Companhia e amor. Companheirismo e amizade. Deve-se dar a eles tudo que nosso coração for capaz de dar. Não serão crianças mimadas. Mimadas são crianças que ganham muito presentes e pouco afeto, não muito afeto e poucos presentes. Amar é a receita. Amar excessivamente é a dosagem.
Errar, vamos errar de qualquer maneira. Nossos filhos nunca saem aquilo que gostaríamos que fossem. Mas se for para errar, que seja por excesso. Não por falta.
(***) A tese dos limites foi criada e desenvolvida por Sigmund Freud. Como a grande maioria das lições deixados por esse que foi um dos maiores gênios da humanidade, foi mal compreendida. Freud falava da necessidade da criança de ser contida, ser recepcionada, pela mãe. A mãe intolerante incapaz da afetividade e da empatia com a criança gera uma criança ansiosa, perdida, não contida em seu desespero, sem rumo, solta, sem limites. É a criança desamparada que transportara essa solidão em sem interior mesmo quando se tornar adulta. Se a expressão "limite" for bem compreendida, então, nesse caso sim, a teoria dos limites encontra pleno valor. Vou explicar melhor. A Terra gira em torno do Sol porque este a atrai. O Sol atrai a Terra, a qual é atraída pelo Sol. Em sua órbita anual a Terra atinge uma determinada distância máxima do Sol que nunca é ultrapassada. A Terra não ultrapassa esse limite não porque esteja proibida de fazê-lo, mas sim pelo fato que é o Sol exerce forte atração sobre ela. Não existe qualquer força celeste a proibir que a Terra se afaste de sua órbita. O Sol, portanto, não proíbe, ele atrai. E é atraindo que ele impõe limites a órbita e a distância máxima da Terra. Conosco tudo deve funcionar da mesma forma. Devemos conquistar o respeito, a admiração e até a "obediência" de nossos filhos não através do temor, mas do amor, da atração. Nosso filhos vão nos respeitar, vão nos dar ouvidos porque nos amam, porque se sentem atraídos por nós, porque nos querem junto deles, não porque nos temem. E eles precisam muito disso, precisam muito de limites, não querem ser como cometas perdidos no espaço e sem destino, pois assim se confundiriam com muitas pessoas que estão por ai, extravidas, por não terem tido pais que os amassem.
Dentre
todas as certezas, prefira a certeza da dúvida. O que muitos loucos têm em
comum são suas convicções.
Mederianas
O tempo é a percepção do movimento. Ele não existe fora de nós, apenas dentro. Em nossa mente. Sem consciência e sem percepção não há tempo, mas movimento no Universo. O tempo, do ponto de vista de cada um, está em crescente aceleração.
Lembra quando tinhas 9 anos e como o tempo demorava para passar? O sol nascia - demorava - aparecia lá em cima (meio-dia) - demorava - começava a aparecer mais inclinado (meio da tarde, hora de tomar um copo de nescau) e finalmente - depois de todo aquele tempo - ele desaparecia no horizonte.
Lembra como era demorado o final de semana? No final da sexta-feira saímos de aula contentes porque teríamos todo um final de semana antes de começarem as aulas de novo... E esses finais de semana rendiam.... Fazíamos muito mais coisas com eles do que fazemos agora.
À medida que crescemos, ele vai se tornando (aparentemente) mais rápido.
Quando tínhamos 20 anos, um ano já não era mais MUITO tempo, mas um ano era 1 - a -- n --- o.
E hoje o que é um ano? Não dá a impressão que ele passa em um mês?
Isso se explica pelo fato de que quanto tínhamos 9 anos, um ano representava 1/9 (um em nove), ou seja, um ano tinha em nossa mente (que só conhecia a existência de 9 anos) a dimensão de 1 parte em 9 partes.
Quando tínhamos 20 anos, 1 ano passou a ter a dimensão de 1 em 20, ou seja, parece (e é) bem menos que 1 em 9 (= 1/20 < 1/9).
A velocidade do tempo tem a ver com a idéia que temos do tamanho da nossa própria existência, (até porque o tempo é criação de nossa consciência originada da percepção do movimento). Essa idéia varia de acordo com a idade. Para uma criança de 9, um ano é muito tempo porque representa 1 pedaço de 9 partes de seu universo.
Então, a sensação da passagem do tempo é uma sensação relativa, que depende da comparação com um outro tempo. E o único outro "tempo sentido e experimentado" que conhecemos é nossa existência, desde que nos demos por gente.
Tentei fazer alguns cálculos que me dissessem quantos anos de vida aparente me faltam. A conta acabou ficando muito confusa e desconfio que seja um cálculo que não pode ser representado por uma fórmula aritmética (ou talvez até possa...).
Mas pensando bastante sobre esse assunto, cheguei à conclusão de que quem tem hoje 45 anos e tiver mais 25 anos de vida real pela frente (calculo a morte aos 70), tem de vida aparente apenas mais 6 anos.
Em outras palavras, quero dizer o seguinte: lembra o tempo que levou desde teus 10 anos até os teus 16 anos? Pois é. É essa mesma sensação de passagem desses teus 10 aos teus 16 que terás dos teus 45 até os teus 70.
Aproveitem!!! O tempo está acelerando...
A
vantagem de se ter memória fraca é que dá para reler bons livros diversas
vezes.
Mederianas
Não recordo se já disse isso. Se sim, repito: uma das muitas vantagens de se ter memória fraca é que dá para reler bons livros várias vezes. Cada vez que se relê, é como se fosse a primeira.
Acabo de reler (não sei se pela primeira ou segunda vez) Meu Velho e Mar. Essa obra da literatura náutica foi publicada fazem alguns poucos anos. Trata de um pai e filho, judeus, que saíram dos Estados Unidos em um pequeno veleiro 25 pés e atravessaram o Horn de Oeste para Leste.
Os capítulos são, um escrito pelo filho, o seguinte pelo pai, e assim por diante. Dessa maneira, se ingressa no pequeno veleiro para uma viagem que é narrada sob dois ângulos diferentes. É muito interessante verificar como fica uma mesma sucessão de fatos sob o enfoque de pessoas diferentes.
O livro é excelente. Um livro maduro, escrito por pessoas inteligentes, talvez o filho um pouco mais que o pai. O ceticismo, uma característica do povo judeu, é constante em toda obra. Pai e filho são irônicos e conseguem ser, em várias passagens, engraçadíssimos. Eles têm o hábito de fazerem apostas. Apostam milhões um contra o outro. Apostas que nunca serão pagas, é evidente, mas que dão a eles a sensação de serem milionários quando estão ganhando. Há ainda um gato, de nome Tigre, que faz mil estripulias pelo barco, até que um dia cai na água e se perde, afogado. Sensacional é um diálogo dos dois mais para o final do livro, em que discutem qual o sentido que deverão dar ao livro que vão publicar (o próprio). Ironizam nessa passagem todos os épicos da literatura náutica, em que os velejadores-autores se fazem passar por heróis narrando episódios perigosíssimos que venceram com grande bravura. Ao lado de tantos livros que tem sido escritos ultimamente por velejadores, vários de discutível valor, Meu Velho e o Mar surge com feições de obra despretensiosa, como o são as grandes obras da literatura, e com certeza, será em breve reconhecido como um clássico da literatura do gênero.
Dentro de uns dois ou três anos irei relê-lo. Como se nunca o tivesse lido antes.